Neurose de mim mesmo Malvados Subscribe to my feed

Fernando Pessoa Estou ouvindo

Estou ouvindo
Um anjo triste encostou hoje a cabeça no meu ombro e chorou. Fiquei sem palavras. Como se consola um anjo? Que perdas choraria em meu ombro essa criatura celestial? Que dores angelicais justificariam a humanidade desse ato inesperado aquecendo a palidez desse dia tão igual aos outros? Nenhuma palavra destravou a minha língua, nenhuma intuição a quebrar a minha paralisia súbita… Às minhas costas, o anjo absoluto e humanamente desamparado recostou a cabeça na breve eternidade dos meus ombros e chorou. Senti suas lágrimas escorrerem para dentro de mim como uma chuva pesada e quente.

Anjo tresloucado, tão breve, tão necessário… Chorava a minha tristeza.

Ainda sem palavras, sinto o coração aquecido por um afago angelical.

The Death of Hyacinth, 1801
Jean Broc (pintor francês - 1771-1850)

Jacinto era um jovem mortal muito amado pelas divindades, principalmente por Apolo que o seguia aonde quer que ele fosse. Certa vez em que ambos se divertiam com um jogo, Apolo lançou o disco com tal habilidade para o céu que Jacinto olhando admirado correu para pegá-lo, ansioso por fazer sua jogada. Porém, o disco caiu em terra e voltando, bateu na testa de Jacinto, que caiu desmaiado. Apolo correu em desespero até Jacinto e com toda sua habilidade médica tenta reavivar o corpo de Jacinto, mas a sua cura estava além de qualquer habilidade.
Apolo se sente tão culpado por sua morte que promete que Jacinto viveria pra sempre com ele na memória do seu canto. Sua lira celebraria-o, seu canto entoaria a canção de seu destino e ele se transformaria numa flor. Nisso o sangue de Jacinto que manchara a erva, se transforma numa flor de um colorido mais belo que a púrpura tíria. Uma flor muito semelhante ao lírio, porém, roxa.
Nela foi gravada a saudade e o pesar de Apolo com o lamento “Ai! Ai!” que ele escreveu na flor, como até hoje se vê. A flor carrega seu nome e renasce toda primavera relembrando seu destino. Diz-se que Zéfiro (o vento oeste), que também amava o jovem, enciumado pela preferência por Apolo, mudou a direção do disco para que este atingisse Jacinto.
A flor mencionada não parece ser o jacinto moderno conhecido, talvez trate-se de alguma espécie de íris, da esporinha ou do amor-perfeito. Jacinto também foi um grande amante de Zéfiro.
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Até Breve…
  • Confira:

4 Respostas to “Absoluto”

  1. Sammyra Says:

    Ai que linda a história de Jacinto… não conhecia e fiquei fascinada! Obrigada por me fazer conhecer!
    Um abração e ótimo final de semana pra ti!

  2. Carol Shake Says:

    Adorei saber dessa história. adorei.
    O Conto acima é de sua autoria? bjos.

  3. garota complexada Says:

    e quem seria esse anjo? eu gostei do texto, simples e terno. gostei do seu blog, também.

    beijo.

  4. India Says:

    Oi Dj,

    vim dizer que ontem você foi um verdadeiro anjo que pairou na minha noite gelada de sexta. Obrigada pelas palavras e força.Amot.

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