Um Natal diferente

O nascimento de uma nova galáxia tinha-me levado a apresentar a autoria de um novo projecto à divisão de conceptualistas. Não esperava uma recusa nem a directiva vinda da Gerousía do Conselho de Quadrante: tinham sido detectados por um novo Espreitador de Paralelos, num dos mundos sob a minha supervisão, vários erros à trajectória humanista traçada. A minha missão e dela dependia a concepção do novo projecto, consistia em inverter as tendências verificadas. Na posse dos dados, conclui, que o problema não era de concepção. Tudo não passava de uma questão desviante, uma neoplasia provocada pelo posterior nascimento de três luas no quadrante inferior que provocara uma alteração geoquímica, fazendo com que, a tecnologia que lhes fomos induzindo através da ciência, não os tivesse invadido apenas exteriormente mas também nos seus domínios interiores. Isto, que antes me parecera de somenos, obrigara-me a esta viagem para ordenar o vaivém dos seus actos, mesmo os mais medidos, mesmo os mais falhados.

No interior de uma casa de comida na baixa de Lisboa, observava através da divisória de vidro e protegido dos olhares apressados, a azáfama deste mundo sem compreender como podiam os humanos ser desprovidos da ventura de sentimentos solidários. Haviam-se transformado em neo-individualistas. Pensei na estratégia a adoptar para os reconduzir à trajectória inicial. Estávamos a poucos dias de celebrar uma importante data para eles, o natalis invicti solis, uma celebração de vida e humanidade que derivava do dies natalis solis invicti que havia sido traçada pela Gerousía, e não obstante os desvios verificados, continuavam a festejar. Observei também, que nem todos o faziam da mesma forma nem na mesma data e que muitos já não o celebravam, motivo adicional de preocupação. Todavia, a solução apresentava-se fácil e tinha alguns dias para preparar a indução de um mundo humanista. Esta faria com que vivessem na trajectória espectável da sua concepção.

O plano estava traçado, era tempo de apresentar os meus empenhos à Gerousía.

Sorri pensando no prazer agradável de conviver com eles estes dias. Tinham o hábito da comida e os aromas que sentia naquela casa, contribuíam decisivamente para querer permanecer mais algum tempo neste mundo. Talvez tivesse sido o que me levou a pensar na extensão do plano a que chamei de Neo-Natal e que consistia em doses massivas de auto-exames de consciência. A indução duraria até ao segundo dia do novo ano solar, depois seria retirada e os humanos regressariam ao seu estado habitual, todavia, com o lastro da memória desses dias. Queria assistir ao que fariam com ela.

Espreitador.

Comentar Dezembro 15th, 2011

O menino, a mãe e o gene auto-destrutivo.

Um dia quando o céu já era azul e o orvalho da noite ainda se notava, o menino de forma audível e convicção inabalável, disse à mãe que não a amava.
A mãe tropeçando no ar sério do menino, sentiu aquelas palavras como pedras nas mãos de fadas caprichosas e a partir desse dia chorou, chorou, chorou…
Já cansado de tanto a ver chorar e intuindo a sua fraqueza, foi com olhar faiscante e uma vibração quase imperceptível, que o menino disse que não gostava mais dela.
E a mãe julgando-se de parcos méritos; chorou, chorou, chorou ainda mais, muito mais e de forma que parecia torrencial.
Outro dia, o menino surdo à sua dor, disse-lhe estar muito zangado por ela não parar de chorar.
A partir desse dia e em silêncio, tanto mais embaraçoso quanto mais se prolongava, a mãe chorou, chorou e chorou para si, para dentro e no silêncio das facas.
Finalmente, o menino, com trejeitos corporais de gente enfastiada, disse em tom de impune ameaça, que por ela andar sempre tão triste a odiava.
A mãe do menino olhou-o, olhou-se dentro de si e sentiu a inquietação e o receio… e de forma plena, quase sublime, com a mão puxada da alma ébria de lucidez, deu-lhe uma enorme bofetada. Tão grande, tão grande, mas tão grande, que o menino ficou com a face toda inchada.
A partir desse dia a mãe do menino nunca mais chorou, e o menino descobriu que para além de um enorme carinho, a amava desveladamente, em cada dia de céu azul, em cada noite de orvalho.

Espreitador.

2 Comentários Outubro 26th, 2009

Jaime…


… por detrás da coluna que o protegia naquele recôndito da gare ferroviária, confirmou que excepto a magricela que de costas voltadas para a entrada e rodeada dos seus atavios ali se injectava, dificilmente mais alguém o veria.
Ouviu o silvo do Expresso do Sudoeste aproximando-se a grande velocidade, rivalizava com o mambo debitado pelas colunas sonoras, e, embora tudo aquilo lhe parecesse sem sentido, sabia ser o momento para que se tinha preparado. Sentindo a vibração recuou um passo, com um último olhar furtivo confirmou a desatenção do resto dos utentes e, no preciso momento que com brusquidão os aços do Expresso furavam a gare, Jaime esgotado e deprimido, num gesto acoitado, acendeu o cigarro.
O grito trágico que alertou toda a gare e desembestou Jaime dali, veio da desgrenhada magricela que de garrote pendurado e seringa em punho, indicava o local onde alguém ousava fumar.

Espreitador.

Também publicado aqui.

17 Comentários Janeiro 16th, 2008

O Achado do Espaço Suspenso.

Jaime De La Cruz, homem de estatura mediana, corpo firme, queixo resoluto e já entrado na idade, imigrara dos EUA há 15 anos. Costumava dizer com voz grave e num ingles espanholado que, tinha trocado San José no Condado de Santa Clara por Cascais.
A fortuna que se lhe reconhecia, tinha-a feito em San Francisco, onde adquirira um refinado gosto para os objectos, como o Mercedes 300 SL Gullwing de 54 que usava nos seus passeios pelo Guincho, ou o Aston Martin DB6 que utilizava quando era forçado a deslocar-se a Lisboa.

A história que vos conto, teve a sua origem quando Jaime De La Cruz fazia o habitual passeio matinal de oitocentos metros que, eram duas larguras da Praia da Adraga, sempre que o tempo permitia.

Era cedo e não se via vivalma quando estacionou o Mercedes SL Gullwing. Daí a pouco, nessa manhã de fim de verão, e após iniciar a caminhada com que gostava de começar o dia, surgiu o inesperado: ali, junto aos seus pés, a meio dos quarenta metros que a maré alta tinha ocupado no areal, estavam alinhadas com o Oceano duas belíssimas canetas. Surpreendido, baixou-se para verificar se o achado não passaria de uma visão, e, mais surpreendido ficou quando as analisou cuidadosamente: Uma Visconti Wall Street Limited Edition e uma Aurora Diamont. Jaime De La Cruz nem queria acreditar no insólito achado. Sabia o que tinha nas mãos. Para além da beleza que qualquer um veria, eram certamente, um sinal para voltar a escrever.

Tinha amealhado um pecúlio considerável a escrever para outros. Nesse tempo, escrevia com a alma perto da palavra, conhecia o valor desta, e isso dava-lhe a tal chispa que a outros faltava. Infelizmente esse gosto tinha-se transformado em fadiga, mas agora, ali estava o sinal, veria se não tinha perdido a mão. Olhou as horas no seu Jaeger-Le Coultre Reverso Grand Sport que, só usava para os passeios matinais e que, trocava pelo Audemars Piguet Royal Oak Concept assim que chegava a casa, e considerou que era tempo de regressar para analisar em recato o excelente achado.

Chegou mais cedo que o costume, dirigindo-se rapidamente ao escritório. Reparou que, a senhora De La Cruz franzira o sobrolho à sua passagem, mas nada lhe disse. Ali chegado, sentou-se à secretária e alinhou as novas canetas com as antigas que há muito o acompanhavam; uma Columbus Progetto e uma Platinum Presidential Tri Color que muito dinheiro o ajudaram a ganhar.
Abriu a caixa dos charutos e entre um elegante Gotham Selection No. 65 e um Trinidad de calibre 38, que comprava na Casa Havaneza e eram as únicas razões para as suas vindas a Lisboa, achou que a solenidade do momento merecia este último. Não usou a guilhotina Hillwood que a senhora De La Cruz lhe oferecera no último aniversário, gostava de cortar a ponta dos charutos com os dentes e sempre que ela não via era assim que o fazia. Rodou o charuto lentamente enquanto a chama do fósforo de madeira de cedro o acendia de forma conveniente. Soprou suavemente na ponta em brasa para se certificar que estava a queimar de forma homogénea e deu inicio à primeira puxada.

Desmontou as “novas” canetas, limpou-as cuidadosamente, renovou a tinta e ensaiou o aparo da Aurora Diamont. Nada. Não escreve, pensou desagradado… algo me escapou. Tentou a Visconti Wall Street e, incrédulo, verificou que a zona onde o aparo passara havia desaparecido. Jaime De La Cruz largou a caneta assustado.
Recostou-se no cadeirão e deu inicio a uma longa puxada no Trinidad de calibre 38 sem saber o que pensar.
Passados alguns minutos e recobrada a serenidade possível, repetiu o gesto com a Visconti Wall Street, verificando que, o desaparecimento da zona onde o aparo passava não era imaginação sua.
Após ter feito desaparecer um terço do bloco, tentou de novo a Aurora Diamont, verificando, num gesto descontrolado pelo inconformismo que ultrapassou a parte visível do bloco que, esta, tinha a função de fazer reaparecer o que a Visconti Wall Street fazia desaparecer. Esta certeza, alicerçada nas diversas tentativas que incluíram partes da secretária e vários objectos do escritório, era firme e ao mesmo tempo incómoda.

Jaime De La Cruz, colocou cuidadosamente as tampas nas canetas e pousou-as, agora, a uma distancia cuidada das outras, fechou, contra o que era costume, a porta do escritório à chave e atravessou de novo a sala sem sequer olhar para a senhora De La Cruz. Precisava pensar no que estava a acontecer e nada melhor que voltar ao local.

Escolheu o Aston Martin DB6 e pouco tempo depois avistava de novo a Praia da Adraga. Parou o carro e verificou que já por ali andavam alguns surfistas. Caminhou até ao local onde tinha achado as canetas e sentou-se com o olhar na espuma das ondas.
Por ali ficou até que a maré alta o obrigou a levantar, pouco importava, já tinha decidido o que fazer.

De regresso a casa fechou-se à chave no escritório, desta vez não se cruzara com a senhora De La Cruz e ficou feliz por isso, ela era uma mulher de imaginação pouco audaciosa, de ambição singela e por obstinação quase não falava. Sentou-se no cadeirão e resolveu dar inicio à experiência. Tirou a tampa da Aurora Diamont, repetiu o gesto na Visconti Wall Street e alinhou-as perpendicularmente ao seu corpo no tampo da secretária. Pegou então na Visconti Wall Street e desenhou algumas linhas paralelas no seu braço esquerdo, verificando que a zona de intervenção desaparecera, rapidamente, pegou na Aurora Diamont e repetindo os gestos anteriores fez com que tudo voltasse à normalidade. Tinha resultado como pensara, restava saber o que fazer com tal descoberta.

Nos dias seguintes, as experiências de Jaime De La Cruz percorreram um caminho sinuoso e pouco recomendável. Um dia, no recato do escritório onde agora passava os dias, tinha feito desaparecer três quartos do seu corpo, e descobrira que não sabia para onde iam as partes desaparecidas, deixava de as sentir e, mais estranho ainda, de lhe fazerem falta, como por artes mágicas, como uma viagem num espaço suspenso.
Lera em tempos que, o regresso do principio era feito sob formas múltiplas e variadas, em círculos de renascimento sucessivos a que, os homens e até os deuses, estavam sujeitos enquanto não fosse atingido o estágio ditado pelo seu karma. Essa visão de metamorfose que, na Índia, se conhece pela intraduzível expressão de samsâra, tem por objectivo atingir o Nirvana; estágio que os libertará após a extinção do ser; uma auto-estima onde cessa a ideia de personalidade e a alma se extingue no nada dando lugar ao não ser, não havendo então nada para renascer, e essa ideia espiritual que lhe ficara das leituras de Rabindranath Tagore não o seduzia, nem tão-pouco lhe apetecia discorrer sobre ela.
Pensou ligeiramente no uso que a medicina poderia fazer com este conhecimento, fazendo desaparecer alguns males que atacam o corpo humano, mas ele, Jaime De La Cruz, não tinha tido tempo para ser novo e, estimulado pelo ávido interesse pessoal e motivado por um inexpugnável egoísmo, estabeleceu o seu patamar de perspectivas num movimento de fuga.
A realidade com os seus símbolos e valores imutáveis pouco lhe interessava, eram ambivalentes e por isso susceptíveis de várias interpretações e ele estava-se nas tintas para este coeficiente temporal.

Tudo isto fervilhava na sua cabeça de forma insustentável, sendo demais para o viver sozinho, assim, resolveu, não partilhar, mas conquistar a admiração da senhora De La Cruz, pessoa desprovida de qualquer acto extraordinário.
Encontrou-a na zona oriental, seguindo a pequena vereda que levava à parte detrás do jardim. Ali, junto ao pequeno lago artificial que um Acer Palmatum quase cobria como se um tempo suspenso reinasse, lá estava, com aquela camisa de amarelo berrante que ele detestava.
Sentou-se e a senhora De La Cruz ouviu o marido contar-lhe a história mais incrível que alguma vez ouvira e, no final, disse-lhe que gostava muito e dava graças por ele voltar a escrever. Zangado, Jaime De La Cruz gritou-lhe exasperado que aquilo não era nenhum conto nem ele tinha voltado a escrever. A senhora De La Cruz franziu o sobrolho e a sua boca desenhou um sorriso que ele bem conhecia. Agarrou-a por um braço, e enquanto lhe dizia que ia provar o que lhe contara, arrastou-a até ao escritório.

Sentada à sua frente assistiu à exibição dos poderes daquelas canetas, até que, tendo Jaime De La Cruz confirmado que o seu público, para além de rendido, assistia estupefacto aos seus poderes, resolveu ir mais longe: pegou na Visconti Wall Street com a mão esquerda e traçou uma linha que ia do pescoço até à virilha, depois, em movimentos sucessivos e seguros, fez desaparecer todo o lado direito do corpo excepto as pontas do polegar e indicador direitos. Olhou para o ar incrédulo da senhora De La Cruz sentindo um gozo desmesurado e pensou: agora é que lhe vai dar um treco… mudou a Visconti Wall Street para o que tinha sobrado do polegar e indicador direitos e começou a trabalhar o lado esquerdo do corpo. Pouco tempo depois quando de novo olhou para a senhora De La Cruz que exibia uma expressão rendida, só restavam um par de olhos e os bocados do polegar e indicador direitos, decidiu-se então por um happening à sua altura, fazendo desaparecer os olhos.
Nesse momento o sorriso da senhora De La Cruz esvaziou-se, os lábios traçaram duas linhas de sobrenatural desdém enquanto os olhos se abriam até ao limite, e, com gesto maléfico, num ápice retirou a Visconti Wall Street dos pequenos cotos que a seguravam fazendo-os em seguida desaparecer.

Sentou-se no cadeirão antes ocupado pelo marido, abriu a caixa dos charutos e escolheu um Satisfaction de calibre 46 da marca mexicana Te-Amo. Usou a guilhotina Hillwood, deu a primeira puxada e recordou uma frase de Novalis: “se avistares a sombra de um gigante, procura a posição do sol e verás que o gigante é a sombra de um anão”, e um pensamento enfadado escorreu-lhe audível boca-fora: finalmente…

Espreitador.

18 Comentários Julho 3rd, 2007

O Natal da Dona Amélia

O que se falou na altura, foi que o filho mais novo da Maria Ruiva, o Joaquim Sesta, o viu. – Disse Amélia com o vagar das gentes serranas, enquanto se balouçava na cadeira comprada um ano antes em terras de Espanha e que, não se revelara tão cómoda como então lhe parecera. Edite, a irmã mais nova cinco anos, sentada no escano atiçava o borralho onde assentara a panela com as feijocas… momento depois, seguindo o fumo que saía pelo tecto de telha-vã, foi dizendo sem emoção, como se de uma ladainha se tratasse:
- Foi quando andava a encher os balaios nas terras do Zé Pedro e desde esse escusado dia, nunca mais ninguém o viu.

Amélia, ajeitando o velho xaile que lhe protegia as pernas do invasor gelado de Dezembro que penetrava pelas frestas da porta, levantou o olhar do borralho e olhando a irmã pensou no tempo que passara desde que o tinha visto pela última vez.
Edite ainda lhe disse que devia ter ido para terras de França, com intenção de nunca mais lhe ser posta a vista em cima. Mas já não quis ouvi-la. As recordações já deambulavam pelo lado das sensações vivíssimas dos afectos, quando uma voz num sussurro soturno a acordou:
- Vá Amélia… acorda que o Daniel deve estar a chegar e não deves querer que ele te veja a dormir. Cismou ainda ébria de sono, ter-lho dito a Edite no seu jeito protector.

Estendeu as pernas e lembrando-se do sonho, recordou na fatalidade do tempo o que acontecera naquele malfadado final de Setembro; Daniel fugira, deixando-as a braços com o abismo de existir e as dívidas, que obrigou a vender metade do rebanho comprometendo parte, das já então escassas, encomendas do vale. Valera-lhes na altura e ainda hoje se benzia quando o lembrava, o terem encontrado ferido e morto de cansaço o Ismael.
Tinha assaltado vários Bancos em Lisboa. Soube-o, depois da sua morte pelo guarda que lhe contou; ter ele num gesto repentino, tentado tirar-lhe a arma quando desciam a serra e esta se ter disparado por acidente. Tivera muita pena dele, não só porque toda a morte lhe doía, mas porque, ainda hoje o seu coração de albergue, com carinho e gratidão, recordava os olhos avelã e a expressão sensibilizada e agradecida com que se despedira.

Recordou que, passados alguns meses e seguida pelo faísca – um dos seus dois guarda rebanho, que desde a partida de Daniel não mais largara a soleira da porta –, lá tinha ido pelos carreiros inumeráveis da serra e, sem saber como, ao lugar onde encontrara o Ismael. Ali, sob as turfeiras e à vista da frescura das manhãs, parte de um saco que os cães tinham parcialmente desenterrado. Dentro deste, o produto dos vários roubos do Ismael; uma novelista fortuna.

Nesse instante, uma corrente de ar gelado que porfiava por entre as frestas da porta, trouxe-a de novo ao espaço das quatro paredes de granito. Aconchegando o xaile sobre as pernas, virou a cabeça a tempo de ver o momento em que a porta embatia no travão que protegia o velho louceiro que fora da sua mãe.
Na contraluz a visão era magnífica; o vulto à porta ganhara asas da neve que cobria toda a serra, emprestando-lhe a suave e fantástica imponência de um escultural arcanjo.

Dos olhos de Amélia rolaram lágrimas da espiritualidade da carne quando percebeu a figura de Daniel… o soluço de sufoco, veio a seguir pela alegria de rever finalmente o filho.
As forças encolhidas não a deixaram levantar e, foi ele, que a medo se aproximou. A comoção embargava-lhe a voz, as lágrimas corriam soltas, enquanto Daniel, esmagado pela angústia, lhe pedia desculpa por as ter abandonado levando consigo o pequeno pecúlio da família.

Quando conseguiu falar, disse-lhe com uma sensação abstracta:
- Até por Espanha te procurámos… mas a única coisa que de lá trouxe, foi esta incómoda cadeira. Não precisas de te culpar mais; o que passou, passou, sê bem-vindo filho meu.

Dito isto, e enquanto procurava forças para se levantar, olhou a irmã e disse com um sorriso de inexplicável vontade que há muito a sua seca cara não via:
- Edite minha irmã; não fiques muda e queda, vai tratar das filhós e das rabanadas. Daniel meu filho; come umas Papas de Carolo que ali estão e depois mata o mais tenro cabrito do rebanho, que eu vou buscar uma braçada de azinho para aquecer o forno.
O Natal está finalmente de volta a esta casa e aos nossos corações.

– Vá lá Amélia… quantas vezes tenho de te acordar… acorda mulher, que aqui não podes ficar com este frio. – Ouviu com angústia saindo do torpor em que se encontrava. – Vai para a estação que ficarás mais quente e hoje estão a distribuir uma refeição reforçada por ser noite de Natal. – Disse-lhe o guarda da zona que tão bem conhecia.
Amélia precisou de algum tempo para recuperar… cada vez os sonhos se cruzavam mais e lhe pareciam mais reais, cada vez queria mais que tudo assim tivessem acontecido e foi com pena do fim daquele sonho de alivio que, com a sua velha, triste e silenciosa dor, saiu de debaixo dos cartões.

Espreitador.

Nota:
Este conto participa na 5ª edição dos desafios de criação em que, o ponto de partida, desta vez, é um conto de Natal.
Os participantes, que se comprometeram publicar em simultâneo às 21horas de hoje, são:
Ashfixia, Beatriz, Bill, Clarissa, Conteúdo Latente, Espreitador, Ipslon, Isa, Kaotica, Klatuu, Legivel, Luís Teixeira, Maite, Parrot, Pedro Pinto, Rafaela, Rui Semblano, Ruy Soares, TB, Teresa Durães e Vanessa.
Os nomes dos participantes estão com o link do blog onde publicam.
Clique em cada um deles e confira.

32 Comentários Dezembro 10th, 2006

Páginas (5): [1] 2 3 » ... Última »


Canto de Contos

Calaborando com:

Categorias

Recentes

Últimos Comentários

Vizinhança

Arquivos

Feeds

Dica