Jaime…


… por detrás da coluna que o protegia naquele recôndito da gare ferroviária, confirmou que, excepto a magricela que de costas voltadas para a entrada e rodeada dos seus atavios ali se injectava, dificilmente mais alguém o veria.
Ouviu o silvo do Expresso do Sudoeste aproximando-se a grande velocidade, rivalizava com o mambo debitado pelas colunas sonoras, e, embora tudo aquilo lhe parecesse sem sentido, sabia ser o momento para que se tinha preparado. Sentindo a vibração recuou um passo, com um último olhar furtivo confirmou a desatenção do resto dos utentes e, no preciso momento que com brusquidão os aços do Expresso furavam a gare, Jaime, esgotado e deprimido, num gesto acoitado, acendeu o cigarro.
O grito trágico que alertou toda a gare e desembestou Jaime dali, veio da desgrenhada magricela, que de garrote pendurado e seringa em punho, indicava o local onde alguém ousava fumar.

Espreitador.

Também publicado aqui.

12 Comentários Janeiro 16th, 2008

O Achado do Espaço Suspenso.

Jaime De La Cruz, homem de estatura mediana, corpo firme, queixo resoluto e já entrado na idade, imigrara dos EUA há 15 anos. Costumava dizer com voz grave e num ingles espanholado que, tinha trocado San José no Condado de Santa Clara por Cascais.
A fortuna que se lhe reconhecia, tinha-a feito em San Francisco, onde adquirira um refinado gosto para os objectos, como o Mercedes 300 SL Gullwing de 54 que usava nos seus passeios pelo Guincho, ou o Aston Martin DB6 que utilizava quando era forçado a deslocar-se a Lisboa.

A história que vos conto, teve a sua origem quando Jaime De La Cruz fazia o habitual passeio matinal de oitocentos metros que, eram duas larguras da Praia da Adraga, sempre que o tempo permitia.

Era cedo e não se via vivalma quando estacionou o Mercedes SL Gullwing. Daí a pouco, nessa manhã de fim de verão, e após iniciar a caminhada com que gostava de começar o dia, surgiu o inesperado: ali, junto aos seus pés, a meio dos quarenta metros que a maré alta tinha ocupado no areal, estavam alinhadas com o Oceano duas belíssimas canetas. Surpreendido, baixou-se para verificar se o achado não passaria de uma visão, e, mais surpreendido ficou quando as analisou cuidadosamente: Uma Visconti Wall Street Limited Edition e uma Aurora Diamont. Jaime De La Cruz nem queria acreditar no insólito achado. Sabia o que tinha nas mãos. Para além da beleza que qualquer um veria, eram certamente, um sinal para voltar a escrever.

Tinha amealhado um pecúlio considerável a escrever para outros. Nesse tempo, escrevia com a alma perto da palavra, conhecia o valor desta, e isso dava-lhe a tal chispa que a outros faltava. Infelizmente esse gosto tinha-se transformado em fadiga, mas agora, ali estava o sinal, veria se não tinha perdido a mão. Olhou as horas no seu Jaeger-Le Coultre Reverso Grand Sport que, só usava para os passeios matinais e que, trocava pelo Audemars Piguet Royal Oak Concept assim que chegava a casa, e considerou que era tempo de regressar para analisar em recato o excelente achado.

Chegou mais cedo que o costume, dirigindo-se rapidamente ao escritório. Reparou que, a senhora De La Cruz franzira o sobrolho à sua passagem, mas nada lhe disse. Ali chegado, sentou-se à secretária e alinhou as novas canetas com as antigas que há muito o acompanhavam; uma Columbus Progetto e uma Platinum Presidential Tri Color que muito dinheiro o ajudaram a ganhar.
Abriu a caixa dos charutos e entre um elegante Gotham Selection No. 65 e um Trinidad de calibre 38, que comprava na Casa Havaneza e eram as únicas razões para as suas vindas a Lisboa, achou que a solenidade do momento merecia este último. Não usou a guilhotina Hillwood que a senhora De La Cruz lhe oferecera no último aniversário, gostava de cortar a ponta dos charutos com os dentes e sempre que ela não via era assim que o fazia. Rodou o charuto lentamente enquanto a chama do fósforo de madeira de cedro o acendia de forma conveniente. Soprou suavemente na ponta em brasa para se certificar que estava a queimar de forma homogénea e deu inicio à primeira puxada.

Desmontou as “novas” canetas, limpou-as cuidadosamente, renovou a tinta e ensaiou o aparo da Aurora Diamont. Nada. Não escreve, pensou desagradado… algo me escapou. Tentou a Visconti Wall Street e, incrédulo, verificou que a zona onde o aparo passara havia desaparecido. Jaime De La Cruz largou a caneta assustado.
Recostou-se no cadeirão e deu inicio a uma longa puxada no Trinidad de calibre 38 sem saber o que pensar.
Passados alguns minutos e recobrada a serenidade possível, repetiu o gesto com a Visconti Wall Street, verificando que, o desaparecimento da zona onde o aparo passava não era imaginação sua.
Após ter feito desaparecer um terço do bloco, tentou de novo a Aurora Diamont, verificando, num gesto descontrolado pelo inconformismo que ultrapassou a parte visível do bloco que, esta, tinha a função de fazer reaparecer o que a Visconti Wall Street fazia desaparecer. Esta certeza, alicerçada nas diversas tentativas que incluíram partes da secretária e vários objectos do escritório, era firme e ao mesmo tempo incómoda.

Jaime De La Cruz, colocou cuidadosamente as tampas nas canetas e pousou-as, agora, a uma distancia cuidada das outras, fechou, contra o que era costume, a porta do escritório à chave e atravessou de novo a sala sem sequer olhar para a senhora De La Cruz. Precisava pensar no que estava a acontecer e nada melhor que voltar ao local.

Escolheu o Aston Martin DB6 e pouco tempo depois avistava de novo a Praia da Adraga. Parou o carro e verificou que já por ali andavam alguns surfistas. Caminhou até ao local onde tinha achado as canetas e sentou-se com o olhar na espuma das ondas.
Por ali ficou até que a maré alta o obrigou a levantar, pouco importava, já tinha decidido o que fazer.

De regresso a casa fechou-se à chave no escritório, desta vez não se cruzara com a senhora De La Cruz e ficou feliz por isso, ela era uma mulher de imaginação pouco audaciosa, de ambição singela e por obstinação quase não falava. Sentou-se no cadeirão e resolveu dar inicio à experiência. Tirou a tampa da Aurora Diamont, repetiu o gesto na Visconti Wall Street e alinhou-as perpendicularmente ao seu corpo no tampo da secretária. Pegou então na Visconti Wall Street e desenhou algumas linhas paralelas no seu braço esquerdo, verificando que a zona de intervenção desaparecera, rapidamente, pegou na Aurora Diamont e repetindo os gestos anteriores fez com que tudo voltasse à normalidade. Tinha resultado como pensara, restava saber o que fazer com tal descoberta.

Nos dias seguintes, as experiências de Jaime De La Cruz percorreram um caminho sinuoso e pouco recomendável. Um dia, no recato do escritório onde agora passava os dias, tinha feito desaparecer três quartos do seu corpo, e descobrira que não sabia para onde iam as partes desaparecidas, deixava de as sentir e, mais estranho ainda, de lhe fazerem falta, como por artes mágicas, como uma viagem num espaço suspenso.
Lera em tempos que, o regresso do principio era feito sob formas múltiplas e variadas, em círculos de renascimento sucessivos a que, os homens e até os deuses, estavam sujeitos enquanto não fosse atingido o estágio ditado pelo seu karma. Essa visão de metamorfose que, na Índia, se conhece pela intraduzível expressão de samsâra, tem por objectivo atingir o Nirvana; estágio que os libertará após a extinção do ser; uma auto-estima onde cessa a ideia de personalidade e a alma se extingue no nada dando lugar ao não ser, não havendo então nada para renascer, e essa ideia espiritual que lhe ficara das leituras de Rabindranath Tagore não o seduzia, nem tão-pouco lhe apetecia discorrer sobre ela.
Pensou ligeiramente no uso que a medicina poderia fazer com este conhecimento, fazendo desaparecer alguns males que atacam o corpo humano, mas ele, Jaime De La Cruz, não tinha tido tempo para ser novo e, estimulado pelo ávido interesse pessoal e motivado por um inexpugnável egoísmo, estabeleceu o seu patamar de perspectivas num movimento de fuga.
A realidade com os seus símbolos e valores imutáveis pouco lhe interessava, eram ambivalentes e por isso susceptíveis de várias interpretações e ele estava-se nas tintas para este coeficiente temporal.

Tudo isto fervilhava na sua cabeça de forma insustentável, sendo demais para o viver sozinho, assim, resolveu, não partilhar, mas conquistar a admiração da senhora De La Cruz, pessoa desprovida de qualquer acto extraordinário.
Encontrou-a na zona oriental, seguindo a pequena vereda que levava à parte detrás do jardim. Ali, junto ao pequeno lago artificial que um Acer Palmatum quase cobria como se um tempo suspenso reinasse, lá estava, com aquela camisa de amarelo berrante que ele detestava.
Sentou-se e a senhora De La Cruz ouviu o marido contar-lhe a história mais incrível que alguma vez ouvira e, no final, disse-lhe que gostava muito e dava graças por ele voltar a escrever. Zangado, Jaime De La Cruz gritou-lhe exasperado que aquilo não era nenhum conto nem ele tinha voltado a escrever. A senhora De La Cruz franziu o sobrolho e a sua boca desenhou um sorriso que ele bem conhecia. Agarrou-a por um braço, e enquanto lhe dizia que ia provar o que lhe contara, arrastou-a até ao escritório.

Sentada à sua frente assistiu à exibição dos poderes daquelas canetas, até que, tendo Jaime De La Cruz confirmado que o seu público, para além de rendido, assistia estupefacto aos seus poderes, resolveu ir mais longe: pegou na Visconti Wall Street com a mão esquerda e traçou uma linha que ia do pescoço até à virilha, depois, em movimentos sucessivos e seguros, fez desaparecer todo o lado direito do corpo excepto as pontas do polegar e indicador direitos. Olhou para o ar incrédulo da senhora De La Cruz sentindo um gozo desmesurado e pensou: agora é que lhe vai dar um treco… mudou a Visconti Wall Street para o que tinha sobrado do polegar e indicador direitos e começou a trabalhar o lado esquerdo do corpo. Pouco tempo depois quando de novo olhou para a senhora De La Cruz que exibia uma expressão rendida, só restavam um par de olhos e os bocados do polegar e indicador direitos, decidiu-se então por um happening à sua altura, fazendo desaparecer os olhos.
Nesse momento o sorriso da senhora De La Cruz esvaziou-se, os lábios traçaram duas linhas de sobrenatural desdém enquanto os olhos se abriam até ao limite, e, com gesto maléfico, num ápice retirou a Visconti Wall Street dos pequenos cotos que a seguravam fazendo-os em seguida desaparecer.

Sentou-se no cadeirão antes ocupado pelo marido, abriu a caixa dos charutos e escolheu um Satisfaction de calibre 46 da marca mexicana Te-Amo. Usou a guilhotina Hillwood, deu a primeira puxada e recordou uma frase de Novalis: “se avistares a sombra de um gigante, procura a posição do sol e verás que o gigante é a sombra de um anão”, e um pensamento enfadado escorreu-lhe audível boca-fora: finalmente…

Espreitador.

18 Comentários Julho 3rd, 2007

O Natal da Dona Amélia

O que se falou na altura, foi que o filho mais novo da Maria Ruiva, o Joaquim Sesta, o viu. – Disse Amélia com o vagar das gentes serranas, enquanto se balouçava na cadeira comprada um ano antes em terras de Espanha e que, não se revelara tão cómoda como então lhe parecera. Edite, a irmã mais nova cinco anos, sentada no escano atiçava o borralho onde assentara a panela com as feijocas… momento depois, seguindo o fumo que saía pelo tecto de telha-vã, foi dizendo sem emoção, como se de uma ladainha se tratasse:
- Foi quando andava a encher os balaios nas terras do Zé Pedro e desde esse escusado dia, nunca mais ninguém o viu.

Amélia, ajeitando o velho xaile que lhe protegia as pernas do invasor gelado de Dezembro que penetrava pelas frestas da porta, levantou o olhar do borralho e olhando a irmã pensou no tempo que passara desde que o tinha visto pela última vez.
Edite ainda lhe disse que devia ter ido para terras de França, com intenção de nunca mais lhe ser posta a vista em cima. Mas já não quis ouvi-la. As recordações já deambulavam pelo lado das sensações vivíssimas dos afectos, quando uma voz num sussurro soturno a acordou:
- Vá Amélia… acorda que o Daniel deve estar a chegar e não deves querer que ele te veja a dormir. Cismou ainda ébria de sono, ter-lho dito a Edite no seu jeito protector.

Estendeu as pernas e lembrando-se do sonho, recordou na fatalidade do tempo o que acontecera naquele malfadado final de Setembro; Daniel fugira, deixando-as a braços com o abismo de existir e as dívidas, que obrigou a vender metade do rebanho comprometendo parte, das já então escassas, encomendas do vale. Valera-lhes na altura e ainda hoje se benzia quando o lembrava, o terem encontrado ferido e morto de cansaço o Ismael.
Tinha assaltado vários Bancos em Lisboa. Soube-o, depois da sua morte pelo guarda que lhe contou; ter ele num gesto repentino, tentado tirar-lhe a arma quando desciam a serra e esta se ter disparado por acidente. Tivera muita pena dele, não só porque toda a morte lhe doía, mas porque, ainda hoje o seu coração de albergue, com carinho e gratidão, recordava os olhos avelã e a expressão sensibilizada e agradecida com que se despedira.

Recordou que, passados alguns meses e seguida pelo faísca – um dos seus dois guarda rebanho, que desde a partida de Daniel não mais largara a soleira da porta –, lá tinha ido pelos carreiros inumeráveis da serra e, sem saber como, ao lugar onde encontrara o Ismael. Ali, sob as turfeiras e à vista da frescura das manhãs, parte de um saco que os cães tinham parcialmente desenterrado. Dentro deste, o produto dos vários roubos do Ismael; uma novelista fortuna.

Nesse instante, uma corrente de ar gelado que porfiava por entre as frestas da porta, trouxe-a de novo ao espaço das quatro paredes de granito. Aconchegando o xaile sobre as pernas, virou a cabeça a tempo de ver o momento em que a porta embatia no travão que protegia o velho louceiro que fora da sua mãe.
Na contraluz a visão era magnífica; o vulto à porta ganhara asas da neve que cobria toda a serra, emprestando-lhe a suave e fantástica imponência de um escultural arcanjo.

Dos olhos de Amélia rolaram lágrimas da espiritualidade da carne quando percebeu a figura de Daniel… o soluço de sufoco, veio a seguir pela alegria de rever finalmente o filho.
As forças encolhidas não a deixaram levantar e, foi ele, que a medo se aproximou. A comoção embargava-lhe a voz, as lágrimas corriam soltas, enquanto Daniel, esmagado pela angústia, lhe pedia desculpa por as ter abandonado levando consigo o pequeno pecúlio da família.

Quando conseguiu falar, disse-lhe com uma sensação abstracta:
- Até por Espanha te procurámos… mas a única coisa que de lá trouxe, foi esta incómoda cadeira. Não precisas de te culpar mais; o que passou, passou, sê bem-vindo filho meu.

Dito isto, e enquanto procurava forças para se levantar, olhou a irmã e disse com um sorriso de inexplicável vontade que há muito a sua seca cara não via:
- Edite minha irmã; não fiques muda e queda, vai tratar das filhós e das rabanadas. Daniel meu filho; come umas Papas de Carolo que ali estão e depois mata o mais tenro cabrito do rebanho, que eu vou buscar uma braçada de azinho para aquecer o forno.
O Natal está finalmente de volta a esta casa e aos nossos corações.

– Vá lá Amélia… quantas vezes tenho de te acordar… acorda mulher, que aqui não podes ficar com este frio. – Ouviu com angústia saindo do torpor em que se encontrava. – Vai para a estação que ficarás mais quente e hoje estão a distribuir uma refeição reforçada por ser noite de Natal. – Disse-lhe o guarda da zona que tão bem conhecia.
Amélia precisou de algum tempo para recuperar… cada vez os sonhos se cruzavam mais e lhe pareciam mais reais, cada vez queria mais que tudo assim tivessem acontecido e foi com pena do fim daquele sonho de alivio que, com a sua velha, triste e silenciosa dor, saiu de debaixo dos cartões.

Espreitador.

Nota:
Este conto participa na 5ª edição dos desafios de criação em que, o ponto de partida, desta vez, é um conto de Natal.
Os participantes, que se comprometeram publicar em simultâneo às 21horas de hoje, são:
Ashfixia, Beatriz, Bill, Clarissa, Conteúdo Latente, Espreitador, Ipslon, Isa, Kaotica, Klatuu, Legivel, Luís teixeira, Maite, Parrot, Pedro Pinto, Rafaela, Rui Semblano, Ruy Soares, TB, Teresa Durães e Vanessa.
Os nomes dos participantes estão com o link do blog onde publicam.
Clique em cada um deles e confira.

32 Comentários Dezembro 10th, 2006

Regressado para o devir

A criança olhou na sua direcção e desviou desinteressada a atenção. Não tinha ainda estrutura para desenvolver o subjectivo do enigma que era um estranho aventurar-se a entrar no seu bairro. Tivesse, e depressa correria para casa.
Fernando viu-o e percebeu que o desinteresse resultava de ainda não ter adquirido o traço fino do aguilhão que vicia a memória, ganhá-lo-ia rapidamente, sabia-o bem, tão bem, como conhecia aquele bairro. A memória não actua separada, é alimentada por um campo que por sua vez alimenta a sua base de informação, e sabia que perderia também a noção de segurança; ganhando conhecimento sobre a precariedade da existência.

Fernando, conhecido também por professor, visitava o bairro pela primeira vez desde aquele dia em que a policia o levara de Mendishar – assim se chamava o bairro e não existiam fragmentos de memória que explicassem o motivo –, tinham passado dez anos… ele sabia que os irmãos ainda ali viviam e notava com estranheza como o bairro estava diferente. Sabia que a vida acontece em fases sobrepostas e tempos diferentes, mas não gostou do que viu.
Continuou até à sua antiga casa não vendo vivalma no percurso. Era cedo ainda e era domingo, motivo bastante para ainda estarem todos entre paredes. Isso não mudara, como haveria sempre coisas que não mudariam, enquanto não se conseguisse desprovar que 2+2 não eram 4.

Bateu na porta com os nós dos dedos. Alguém lá de dentro perguntou quem era: - Sou eu… o Fernando. - Não o conheço, que quer? – Sou o Fernando, o professor!… Depois de uma pausa que deu para cogitar na sombra que percorre o movimento da resposta, ouviu o trinco soltar-se. À sua frente surgiu um desconhecido que lhe disse sem expressão: - Entre que faz frio na rua.
Fernando não reconheceu aquela que já tinha sido a sua casa e, a sua memória enrolada numa espécie de neblina não encontrava vestígios do sitio onde vivera; pensava que só a morte na sua função redentora lhe faria uma daquelas.
Por fim o desconhecido falou: - Então o senhor professor ao que vem? – Ao que venho? – interrogou João, pois venho saber dos meus irmãos que aqui deviam morar. – Bem senhor professor… deve haver algum engano; moro aqui desde sempre e, nem o conheço a si, nem aos seus irmãos, mas sente-se que lhe arranjo alguma coisa que beber.

Fernando a esta altura não sabia o que pensar… não tinha previsto tal desencontro e tudo isto lhe parecia uma distorção de absolutos, impossíveis para a sua faixa de inteligência. Olhou de novo o desconhecido, reparando agora que o seu movimento rareava e a sua cadência parecia tornar-se estática. Sentiu uma impressão desconhecida. Tudo aquilo se assemelhava a um sonho, um sonho corrompido e que lhe fugia pela ponta dos dedos.

Blocos de memória dissolviam-se agora na epiderme, cerrou os punhos e saiu sem nada dizer. Os animais não falam porque devem ter concluído ser inútil e ele, agora, estava dominado por uma raiva animalesca, aquela raiva que tão bem conhecia apoderava-se dele, procurou a taberna que ficava na esquina, e, forçando a porta, entrou de rompante. Caminhou até ao balcão e com a mão espalmada bateu neste com estrondo repetidas vezes. O taberneiro apareceu por detrás de uma cortina sebenta e perguntou com voz troante: – Mas que se passa… não sabe que hoje é domingo? Só então, percebeu que o autor de todo aquele reboliço era o professor. Sabia que, com ele, a divisão entre o gesto e a morte desaparecia subitamente, e assim, fazendo desaparecer a vontade e qualquer subjectividade, disse-lhe de rompante: – Ouça professor; os seus irmãos desapareceram com medo de si, o Carlos, deu conta do dinheiro no jogo e os outros só perceberam isso tarde demais, ele andou a jogar durante muito tempo sem que eles soubessem e na semana passada receando que aparecesse foram-se, não dizendo a ninguém para onde. É só isto que sei.

Fernando perguntava-se se estaria louco, sentindo-se no meio de uma tempestade de poalhas meteóricas. Aquele ali era o Alberto, o raio do Alberto, que palrava a mesma mentira que o tinha levado pela segunda vez à prisão. Nada do que ele dizia era verdade. Soube depois, ser aquela uma história inventada para manter à distância do dinheiro alguns rufias do bairro enquanto ele cumpria a sua pena, e os irmãos tinham desaparecido porque o Carlos, o mais novo, tinha ido casar na Catalunha, terra natal do nosso pai.
No mesmo instante que esta recordação o atingiu, recuou dois passos de receio… nunca soubera lidar com aspectos duplos, nem era homem de dissimular os acontecimentos, sabendo que, cada homem detém pelo menos uma interpretação dos factos e que a memória de alguns, necessita de uma fenomenologia para poder determinar e inscrever o devir.

Finalmente, por detrás dos biombos da consciência, uma memória que parecia alienígena forçava um incalculável número de interpretações e, compreendeu; O miúdo não tivera receio porque não o vira, o desconhecido, esse, seria o antigo dono da casa que ouvira em garoto dizer que tinha morto a mulher, e o Alberto, esse sabia ele muito bem que estava morto, pois tinha morrido às suas mãos depois das mentiras que dissera.

Compreendia então, à medida que o quadrado da realidade se fechava forçado pelas hélices da memória, que só os mortos o viam. Compreendia, que fora transportado de um núcleo para outro atravessando uma curvatura do espaço tempo, e este, parecia ser o começo de uma eternidade de expiação inevitável.

A conceptualização do espaço tempo do universo, exige que a morte seja uma função redentora, de despojamento de uma personalidade específica, induzindo a adoptar de forma vital o comportamento do devir.

Espreitador.

13 Comentários Dezembro 3rd, 2006

Trono Dos Meus Sonhos.

Nos braços dos ventos como folha morta que a brisa estremece, ali ancorei. Naquele lugar que recordei sob o azul do luar da noite sem ser, e foi como se a visse sentada, com vestes de seda infinita e plácida face de princesa.
Lembro-me de ouvi-la, tranquila, naquele recanto do jardim que no peito alberguei; dizer-me que era minha como sabia ser eu seu, e lembrei-me dos ventos atentos a quem segredámos eterno amor e que nos acompanharam em todas as horas; nos rumos descridos e nas vidas eternamente sonhadas.

Ali estava hoje, no início de um esperado Outono que amareleceria o chão ao redor, ele que fora testemunha soleníssima e silenciosa de confissões e no qual não me atrevia a sentar, com receio de dissipar memórias do irreparavelmente perdido. Agora, ali Jaz, vazio, livre de mágoas e de silêncios cercado, onde transborda a minha dor.

As palavras que faltou dizer bailam no meu cérebro decadente, que as esqueceu noutros momentos, não por mal, mas pela ligeireza de não as achar necessárias e pela substância natural das relações na ilusão do espaço e do tempo, tempo esse, que havia chegado a um fim, ao seu fim, e ma roubara deixando-me órfão do seu amor.

Recordo-a, neste meu mundo de agora onde tudo se sente, na inutilidade de ser, na angústia de todos os dias, nas mágoas quotidianas que doem e perturbam, e onde há sempre um trono por preencher.

Recordo-a, com nitidez absoluta, maravilhosamente serena no nosso banco sentada, dando conta de todos os cantares do jardim. E tudo isto me pesa como uma condenação, porque a vejo nos meus olhos de olhar perdido, princesa gentil de uma outra realidade e a guardo dentro do meu coração, como um cofre precioso saído da imaginação literária.

Recordo-a, ansiando para que o vento cante e me adormeça, e num sonho sem agonia, numa espécie de calma orvalhada de uma madrugada imaginária, seguir o fecho da vida.
Já me falece o dom, mas do meio do meu cansaço, invoco ainda assim; que as fadas e elfos da minha infância, me levem em êxtase mágico e transcendental ao teu encontro.

Jaime… Jaime… alguém me chamava e me retirava o pensamento da fatalidade do tempo…, voltei-me e vi a bondosa e transparente Maria com preocupação espelhada. Levantei-me e disse-lhe: - Pronto! Sossegue gentil enfermeira, a que se deve a preocupação?
- Jaime, meu amigo… os teus companheiros já jantam e o Lar tem horários que deves cumprir. E com suave afecto, acrescentou: - Pára de me chamar enfermeira, sabes bem que o não sou. Vá, dá-me a mão que te ajudo no caminho.
– Ah, maternal Maria… és enfermeira, sim…
…de almas tristes e perdidas, que albergas nesse comovido e ternuroso coração.

Espreitador.

Este conto é dedicado à amiga Clarissa e a todos os que se esforçam por trazer algum conforto aos desamparados da vida.

Nota Final:
Este conto participa na 4ª edição dos desafios de criação, em que o ponto de partida é um mote comum; o banco de jardim que ilustra o post.
Os participantes, que se comprometeram publicar em simultâneo ás 21horas de hoje, são:
Ashfixia, Beatriz, Bill, Clarissa, Conteúdo Latente, Do Lado do Mar, Espreitador, Ipslon, Maite, Parrot, Pedro Pinto, Rui Semblano e Vanessa.
Os nomes dos participantes estão com o link do blog onde publicam. Clique em cada um deles e confira.

60 Comentários Maio 14th, 2006

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