Neurose de mim mesmo Malvados Subscribe to my feed

Fernando Pessoa Estou ouvindo

Estou ouvindo
Turno da Noite 2
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O soldado olhou para o compartimento traseiro. Dos quatro agentes paramentados para combater infectos, três dormiam, com as nucas encostadas nos bancos que ficavam de frente para a cativa. Seus fuzis de assalto estavam deitados de comprido no colo. O outro, no banco do fundo, brincava com um canivete, descascando um graveto e balançando a cabeça com um aparelho MP3 preso ao uniforme e com fones nos ouvidos. O soldado de São Paulo, que teimava em ficar algemado à vampira, estava cabeceando, lutando contra o sono. A garota de cabelos negros, lisos e longos tinha baixado a cabeça e não era possível ver seus olhos. Sávio sentiu um calafrio reparando na pele da garota. Como era pálida, Deus do céu!
- Guri besta este aí de Quitaúna. Tu não acha?
O motorista olhou para o amigo e deu de ombros. Olhou de relance para a beira da estrada, no meio de uma rajada de vento e garoa viu um altar com sete cruzes enfiadas no morro, cheias de flores molhadas e castigadas pelo mau tempo. Eram flores novas. Provavelmente uma família inteira tinha morrido naquela curva. O motorista benzeu-se rapidamente enquanto Sávio voltava a falar do guri de Osasco:
- Quis vir algemado com a bichinha. Vê se pode? Se ela é vampira mesmo pode mordê-lo. Transformá-lo em bicho também. - continuou o passageiro.
O motorista olhou para trás de novo.
- Bá, eu que não vinha de jeito nenhum pregado numa coisa dessas. Mas ela não vai tomar o sangue dele, não.
- Ué, como é que tu sabe?
- Esse pessoal de Osasco está tão agitado com essa história de vampiro que estão tomando doses de alho todo dia.
- Aqueles comprimidos que estão distribuindo para quem entra pra essa unidade? Deus o livre! Aquilo é ruim que nem o cão.
- É? Bem que hoje eu queria ter tomado uns dois. Achei que a gente não ia achar vampiro nenhum.
- Eu tomei. É ruim mesmo. Já que você tá lembrando disso, então acho que meu pescoço está garantido no caso de um problema.
- Por que a gente não enfia uma estaca no peito dela? Daí não tem mais problema.
Sávio sorriu ao ouvir a sugestão do motorista.
Yuli levantou a cabeça e olhou para os dois.
- Credo em cruz! Será que ela pode ouvir a gente? Tá me olhando de um jeito.
O motorista virou a cabeça e encarou o rosto da vampira.
Branco como o de um fantasma. Os olhos eram negros e profundos. De repente tornaram-se duas bolas vermelhas e brilhantes.
Voltou a olhar para a estrada com o coração disparado e um gelo na espinha. Outro sobressalto, uma rajada de vento bateu forte no pára-brisa. Os olhos vermelhos da garota surgiram no meio da estrada, como se estivessem pregados em sua retina. Tinha um obstáculo no asfalto. Sem tempo de pensar, esterçou o volante para a esquerda. Barro na pista. O microônibus derrapou quando o condutor enfiou o pé no freio. Puxou todo o volante para a direita, mas o veículo continuou indo para a esquerda e quando finalmente obedeceu o comando o resultado foi brusco e infeliz.
A velocidade da derrapagem aumentou e a traseira do veículo foi praticamente arremessada para a esquerda à toda velocidade.
A roda dianteira bateu contra uma pedra do acostamento e a frente entrou na mata. Os ocupantes foram jogados contra as janelas enquanto o microônibus inclinava, tombando e se arrastando no asfalto, deslizando em grande velocidade por conta da água. O fino muro de contenção que beirava o asfalto não suportou o impacto do teto do ônibus que avançou mais um pouco para a beirada do morro de serra.
Os soldados, aturdidos e lançados à sorte tentavam se agarrar aos bancos e salvar joelhos e cotovelos que esfolavam quando tocavam o asfalto que corria junto às janelas do veículo tombado. Vidros estilhaçados voavam para todos os lados batendo em seus olhos e ferindo as mãos dos que estavam sem luvas.
Diego olhou para o parceiro que antes brincava com o canivete.
A testa do homem sangrava enquanto gritava. Diego sentia o punho atado à vampira doer absurdamente. Yuli estava caída, de costas para uma janela estourada.

A respiração de Diego era rápida e profunda, um nó no estômago aumentou quando ouviu barulho de ferro retorcido e o veículo pendeu para a frente mudando completamente sua sensação espacial e seu ponto de equilíbrio. Olhou para o motorista debruçado sobre o volante, além do pára-brisa viu um vão negro, escuridão. O microônibus pendeu mais para a frente enquanto ele começava a rezar um pai-nosso, mas antes de chegar ao “que estais no céu” o veículo rugiu como bicho vivo se torcendo sobre o próprio metal e então despencou da ponte, dragado pelas trevas.
Na pista molhada sobraram os estilhaços de vidro e o muro quebrado da contenção da pista como únicas testemunhas e provas daquela desgraça. Nenhum carro passaria por ali nas próximas horas.
Yuli apertou os olhos enquanto o microônibus enchia-se de vento. Depois o mundo virou barulho de ferro se retorcendo, mais vidro quebrando, gritos de desespero. Então o inebriante cheiro de sangue. Demorou um segundo para abrir os olhos. O braço algemado doía, a cabeça do lado esquerdo tinha batido forte contra a estrutura do veículo que se arrastava, abrindo uma vala no morro e levando arbustos e galhos de árvore para baixo.
O inferno parecia que não ia acabar até que um baque mais duro e um impacto final e estranhamente surdo trouxe a imobilidade.
O silêncio mórbido que ocorre logo após uma tragédia desse porte é de enlouquecer e perdurou alguns segundos. A vampira, tonta, alquebrada, sentou-se e examinou à sua volta. Experimentou por instantes aquele silêncio avassalador. Era coisa esquisita.
A escuridão, absoluta. Tinham despencado da estrada, escorregado alguns metros pela vegetação que recobria a serra e então o microônibus tinha praticamente voado dezenas de metros após chegar à face negativa do morro até bater com tudo na beira de um rio. A garoa entrava pelo teto rasgado e pelas janelas.

O barulho do vento e das folhas da mata balançando começaram pouco a pouco a encharcar e vencer aquele silêncio mórbido. A floresta falava com eles, com a vampira e com os corpos. A frente do veículo estava submersa no leito do rio. O som da água correndo. Aos poucos os sons do mundo foram voltando aos seus ouvidos. Yuli, trêmula, tentou se levantar. Tinha de sair dali. O carro poderia explodir. Um soldado tinha uma perna em cima de seu ombro pequeno, pesando e dificultando seus movimentos. Yuli tentou sair daquela posição e sentiu que o pé parecia preso em
alguma coisa. Ela puxou com força, gritando de dor. Perdeu o sapato e ganhou um rasgo no tornozelo. O cheiro de sangue aumentava. Os que não tinham morrido com a queda, certamente morreriam hemorrágicos. Ela mesma estava em apuros. Sua boca tinha se enchido de sangue negro, sendo obrigada a cuspir.
Tinha ferido a parte interna da bochecha e a língua, um corte profundo na boca. Cuspiu seu sangue contaminado com a peste vampírica uma segunda vez. Limpou os lábios. Sentia cheiro de alho misturado ao sangue dos militares. Sentia repulsa. Aquilo só confirmava o que Leonardo tinha dito. Alho estraga o vampiro. O sangue daqueles inúteis não serviria para se reabastecer.
Tirou a perna do rapaz de cima de seu ombro e conseguiu se sentar. A perna do soldado tinha quebrado formando uma curva repugnante. Pela imobilidade do rapaz era certo que estava morto. Quanto a Diego, o que a aprisionara no ônibus da Viação Esperança, esse estava encoberto por um banco solto. Levantou-se e puxou o braço trazendo consigo o corpo inerte do garoto. Tinha chegado ao teto rasgado do microônibus quando ouviu um soldado se remexendo no fundo. Ele tinha um ferimento na testa e os olhos arregalados.
- Meu Deus… - gemeu o homem.

Yuli continuou arrastando Diego até a abertura.
- Ei! - gritou o soldado. - Fique onde está! Ajude-me a sair daqui e pedir socorro!
Yuli acendeu seus olhos vermelhos e grunhiu para o soldado.
Ele tentou levantar-se e gritou de forma louca. Uma dor insuportável atravessou seu corpo.
- Cacete! Eu tô todo quebrado, guria! Me tira daqui! Me ajuda!
Yuli continuou calada. Não iria salvar um dos homens que a escoltava para a execução. Se fosse ela no fundo daquele ônibus ele faria o mesmo. Com os olhos vermelhos, brasis, Yuli enxergou a mata com clareza. Estavam num tipo de vale cortado pelo rio. Puxou novamente Diego. Tinha de sair do ônibus e se afastar dali. Logo alguém na estrada veria os sinais da tragédia ou alguém tentaria se comunicar com os soldados e perceberiam que tinha algo de errado com a missão.
O soldado enfiou a mão no colete. Yuli ouviu um click.
- Daqui você não escapa, guria. Nem que eu morra junto.
Yuli arregalou os olhos. O click. Ele tinha feito alguma coisa.
Simultaneamente ao pensamento da vampira o homem tirou uma granada de dentro do colete e arremessou-a de encontro á vampira. Arremesso seguido de um berro de dor. O braço do soldado estava ferido, uma ponta de osso tinha feito sua pele erguer de um jeito grotesco, resultando num lançamento fraco e imperfeito, a granada, praticamente, caiu aos seus pés.
Yuli conseguiu se arrastar para fora vencendo o teto rasgado e aberto do microônibus. O cheiro de gasolina infestou seu nariz. Ajoelhada, rastejou o mais rápido que pôde, com uma dor alucinante brotando do pé cortado, da bochecha lacerada e do punho preso à algema prateada. A explosão foi forte e estremeceu o solo e ecoou poderosa na mata deixando um zumbido agudo em seus ouvidos.

Yuli caiu de costas e apoiou-se nos cotovelos para olhar os destroços do veículo. A granada, além de matar o sobrevivente, tinha servido de ignição para o incêndio que se seguiu. A vampira olhou para o corpo de Diego e começou a vasculhar o bolso da calça jeans do rapaz em busca da chave da algema. Nada. Passou a mão pelos cabelos, aflita. Cuspiu sangue no chão. Além de não conseguir se alimentar, perdia o que tinha no corpo. O soldado que oferecera a chave para o idiota preso ao seu braço era o mesmo que tinha se auto-enviado para o inferno. E com o fogo ardendo dentro dos escombros do microônibus, não conseguiria encontrar uma cópia. Teria de fugir dali arrastando o pobre diabo. Baixou a cabeça vencida pelo desânimo quando ouviu alguma coisa. Um gemido fraco. Yuli encarou Diego. Desvirou o corpo do rapaz e olhou seu rosto. Seus olhos estavam baços e imóveis como os de um morto. Yuli pôs a mão
fria no pescoço do jovem. Sentiu pulsação. Ele estava vivo.
- Vampira… - murmurou o rapaz agonizante.
Yuli levantou-se sobressaltada e levantou a mão livre até a cabeça.
Diego gemeu mais forte com o solavanco causado pelo puxão.
- Vampira… - murmurou novamente.
Yuli ficou olhando para o rapaz. Ele estava delirando, posto que os olhos continuavam imóveis. Estava morrendo em suas mãos, literalmente. Estava à sua mercê e a seus cuidados.
Yuli inspirou fundo e evocou sua força vampírica. Vasculhou mais uma vez os bolsos do imbecil e encontrou um celular e nada de chave. Arremessou o aparelho ao rio. Viriam atrás dela, atrás do microônibus acidentado. Não poderia ficar ali parada. Ergueu Diego e jogou-o em seu ombro delicado. Fez força para mantê-lo equilibrado com a mão livre e a tarefa resultou numa posição desconfortável para sua mão algemada. Aquilo não ia ser nada fácil. Não bastasse ter de dar um jeito de sumir da vista dos militares, arrebentar aquela algema prateada e deixar o soldado onde pudesse ser encontrado, em poucas horas a luz do sol chegaria.

Sorte do merdinha que vampiras lobas não entravam na TPM, do contrário, evocaria sua forma lupina e comeria o braço do infeliz para se livrar do lastro desconfortável.
Yuli já tinha caminhado mais de cinco quilômetros, a natureza vampírica de seu corpo lhe dava velocidade e força para a tarefa. Contudo, nos últimos vinte minutos a garota sentia essa energia exaurida, fugindo por seu poros. Estava cada vez mais fraca e mais de uma vez Diego tinha escapado de seus ombros, caindo pesadamente ao chão e machucando ainda mais o pulso de ambos.
Ela havia decidido seguir rio abaixo, seguindo a margem de cascalhos que serpenteava entre as árvores da mata. Aves noturnas caçavam pequenos roedores que por sua vez também se arriscavam na noite atrás de seus petiscos. A vampira focou o fundo escuro da floresta. Seus olhos podiam ver bem mais longe do que os da velha e humana Yuli que fora até o fatídico dia do acampamento à beira da Lagoa dos Patos. Mesmo com seus bons olhos de vampira não via sinal de luz elétrica em parte alguma.
Estava sendo desgastante salvar a própria pele e a do soldado, uma espécie de fardo que ia crescendo a cada passada. Grunhiu irritada, olhos vermelhos queimando. Droga! Em algum lugar deveria encontrar abrigo, uma toca, um jeito de se salvar. E o humano… e se ele acordasse durante seu sono vampírico? Era um soldado. Mesmo ferido como estava poderia de alguma forma arranjar forças para arrastá-la para fora e expô-la à fatal luz
do sol. Prata maldita. A garoa fazia as copas das árvores balançarem docemente. Os longos, lisos e ensopados cabelos da oriental pendiam para baixo enquanto ela olhava perdida e divagante para o rosto do mortal inconsciente. Gotas grossas da água acumulada em suas madeixas escapavam e salpicavam o rosto cinza do rapaz. Yuli sabia que ele estava mal. Provavelmente sofrendo de hemorragia interna. Seu rosto ia ficando cada vez mais branco. Ele ia morrer e ela não agüentava mais arrastar os dois por aquela floresta.

A casa dos pais em Roda Velha estava ficando cada vez mais distante. Uma visita apenas. Um último jantar sentados à mesa e uma música cantada com os sofríveis agudos do pai desafinado. Mesmo sendo péssimo cantor, todos adoravam ficar junto dele na hora em que seu Gilberto pegava a viola e se transformava numa espécie de Renato Russo de olhos rasgados, de Humberto Gessinger de cabelos pretos, grossos e espetados sem a costumeira barba. “Ana, seus olhos são labirintos, Ana, desperta os meus instintos mais sacanas”, rememorou instantaneamente. Yuli inalou fundo o ar da noite e colocou-se de pé. O soldado nem gemia. O cheio de sangue que vinha do humano estava livre do cheiro de alho que sentira horas atrás, dentro do ônibus. Puxou-o para seu ombro vergando o mirrado corpo. Dois passos decididos em direção a lugar nenhum. Mais dois passos. No sexto os pés escorregaram nos seixos à beira do rio e o tombo, resultado dos músculos frementes e frouxos, veio em tom de “eu te disse sua estúpida”. Yuli estava com a cabeça encostada na cabeça de Diego. O estômago queimando. A bochecha e os lábios cortados ardiam. O ferimento no pé não tinha se autocurado como sempre acontecia com aquelas coisas bobas. Seus olhos viam a noite num tom mais verde. Uma coruja passou voando acima de sua cabeça indo para o outro lado do rio. Os dentes brotaram sem que ela quisesse e ficaram pontiagudos. Infecta, vampira. A menina virou-se. O rapaz estava frio. Frio. Yuli baixou a boca e enterrou os caninos no pescoço de Diego. O sangue quente espirrou para dentro de sua boca.
Yuli, entregue à sua condição de fera das trevas não raciocinava. Yuli era puro instinto. E o sangue era quente e bom. Bombardeou sua garganta com força nas primeiras pulsações, nas primeiras goladas. Encheu seus tímpanos de sons.

Yuli quis engolir tudo. Quis ser Diego. Ele a tinha caçado. Ele a tinha espreitado. Ele daria fim em sua vida vazia com uma pistola carregada com balas de prata. Era isso que ele queria. Ela sentia nas golfadas de sangue entrando para dentro de sua boca. Ele a achava bonita.
Ela a via indefesa presa dentro do ônibus. Ele ia levantar a arma para o soldado que estava na sua frente e ia gritar. Parem o ônibus! Ninguém vai levá-la! Ninguém vai encostar um dedo nela!
Ele a via indefesa. Yuli retirou as presas fazendo o sangue respingar para cima ao erguer a cabeça com ímpeto e inalando profundamente o ar da noite. Gotas vermelhas voaram a mais de um metro de altura, em linha reta, e tornaram cair, junto com a garoa, salpicando o rosto de Yuli com placas rubras. Yuli olhou para o corpo pálido e mortiço do soldado. Ela tremia dos pés à cabeça. Pôs seus dedos tapando as feridas abertas no pescoço de Diego. Pobre Diego. Adormecido, desmaiado no meio de árvores, à beira de um rio corrediço, de mãos dadas a um diabo em forma de menina, morrendo aos poucos. As nuvens não deixavam a luz das estrelas testemunharem o casal perdido. Yuli, comovida, debruçou-se novamente, seus dentes pontiagudos recolheram-se lentamente bem a tempo de seus lábios tocarem os lábios do soldado semimorto. A vampira beijou-o com paixão, com fraternidade, com vontade. Ele não deixaria que a levassem para Quitaúna. Que soldado estranho era aquele ali? Um soldado que escondia no fundo de seus sentimentos, na corrente de seu sangue, o desejo de salvar a menina. Yuli tombou de costas e fitou as árvores balançando. Um morcego desprendeu-se de um galho e voou tortuosamente até sumir de vista. Um morcego de asas negras. Anjo negro.

2 Respostas to “Turno da Noite, O Vol 2 - Revelações”

  1. Letícia Otávia Says:

    Eu amei o primeiro livro e com esse resumo estou louca para ler o segundo.. Esse resumo me deixou mais curiosa.. Li o livro em dois dias quando este sair eu vou praticamente devora-lo ou melhor.. Morde-lo.. HOHOH <3

  2. victor Says:

    gostaria de saber qual onome da gorada da capa q esta com os olhos vermelhos

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