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Fernando Pessoa Estou ouvindo

Estou ouvindo
Eragon

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PRÓLOGO:
ESPECTRO DE MEDO

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O vento uivava na noite, transportando um odor que mudaria o mundo. Um Espectro alto ergueu a sua cabeça e cheirou o ar. Quase parecia humano, não fossem o seu cabelo carmesim e os seus olhos dum castanho avermelhado.
Surpreendido, piscou os olhos. A mensagem estava correcta: eles estavam aqui. Ou seria uma armadilha? Reflectiu, até que disse friamente:

- Espalhem-se! Escondam-se por trás das árvores e dos arbustos.
Detenham qualquer criatura que apareça… ou morrerão. À sua volta aguardavam doze Urgals, cravando os pés no solo, brandindo pequenas espadas e escudos de ferro redondos, com símbolos negros. Lembravam homens de pernas arqueadas e de braços longos e embrutecidos, feitos para esmagar. Em cima das suas pequenas orelhas crescia um par de cornos torcidos. Os monstros apressaram-se em direcção aos arbustos, grunhindo enquanto
se escondiam. Em breve o sussurro das folhas a roçarem terminou e a floresta ficou novamente silenciosa.
O Espectro contornou uma árvore de tronco largo e observou o caminho. Estava demasiado escuro para a visão de qualquer homem, mas, para ele, o raio mais ténue de luar era como o esplendor solar perfurando os ramos das árvores: cada detalhe aparecia nítido e exacto ao seu olhar inquiridor. Permaneceu estranhamente calado, segurando uma espada pálida na mão. Uma linha finíssima acompanhava a curva da lâmina. A arma era suficientemente fina para deslizar por entre um par de costelas, e, no entanto, robusta o bastante para rasgar a armadura mais resistente.

Os Urgals não conseguiam ver tão bem como o Espectro: tacteavam como cegos pedintes, agitando as suas armas atrapalhadamente. Ouviu-se o pio duma coruja, rasgando o silêncio. Ninguém sossegou até o pássaro voar dali. Então, os monstros tremeram na noite fria: um quebrou um galho com a sua bota pesada.
O Espectro sibilou com fúria e os Urgals encolheram-se, com movimentos imperceptíveis. Reprimiu o seu desagrado - cheiravam
a carne fétida - e olhou noutra direcção. Eles eram apenas instrumentos, nada mais.

O Espectro procurou controlar a sua impaciência, enquanto os minutos se tornavam horas. O odor deve ter flutuado muito para além dos seus donos. Ele não deixou que os Urgals se levantassem para se aquecerem. Negava esses luxos a ele próprio, mantendo- -se atrás da árvore, observando o caminho. Outra lufada de vento percorreu a floresta. O cheiro era mais forte, desta vez. Excitado, ergueu o lábio fino, como que rosnando:
- Preparem-se - sussurrou. O seu corpo todo vibrava. A ponta da espada girava formando pequenos círculos. Tinham sido necessários
muitos planos e muito sofrimento para chegar até aqui. Não podia perder o controlo agora.
Os olhos dos Urgals brilhavam debaixo das suas sobrancelhas grossas, e as criaturas agarraram as suas armas com mais força. À sua frente, o Espectro ouviu um tinido provocado por algo duro que tocara uma pedra solta. Vultos ténues surgiram da escuridão e avançaram em direcção ao caminho.
Três cavalos brancos com cavaleiros galoparam brandamente em direcção à emboscada. As suas cabeças erguidas orgulhosamente e os seus casacos brilhavam ao luar como prata líquida.
No primeiro cavalo ia um elfo com orelhas aguçadas e sobrancelhas elegantemente oblíquas. A sua constituição era elegante, mas forte, como um florete. Transportava um poderoso arco pendurado nas suas costas. Uma espada pendia do seu lado, em frente a uma aljava de setas trabalhadas com penas de cisne.
O último cavaleiro apresentava o mesmo rosto belo, de traços angulares. Transportava uma lança longa na sua mão direita e um punhal branco no cinto. Um elmo de construção extraordinária, forjado com âmbar e ouro, repousava na sua cabeça.

Com estes dois cavalgavam uma dama elfa de cabelo escuro como as penas dum corvo, que avaliava o que a rodeava com sobriedade.
Emoldurados por duas madeixas longas e negras, os seus olhos profundos brilhavam com um ímpeto poderoso. As suas vestes não tinham adornos, mas não diminuíam a sua beleza. Ao seu lado estava uma espada e às costas um longo arco com uma aljava. Transportava uma bolsa no regaço para a qual olhava repetidas vezes, como se precisasse de confirmar que ainda a tinha.
Um dos elfos falou baixo, e o Espectro não conseguiu ouvir o que era dito. A dama respondeu com uma autoridade óbvia e os seus guardas trocaram de lugares. O que usava o elmo assumiu a posição dianteira, ajustando a lança para poder agarrá-la mais eficazmente. Passaram o esconderijo do Espectro e os primeiros Urgals, sem suspeitarem de nada.
O Espectro saboreava já a sua vitória, quando o vento mudou de direcção, transportando velozmente o odor horrendo dos Urgals em direcção aos elfos. Os cavalos resfolegaram alarmados e agitaram as suas cabeças. Os cavaleiros ficaram alertas, com os olhos perscrutando ansiosamente o ambiente. Depois, orientaram as suas montadas para trás e começaram a galopar.
O cavalo da dama agitou-se para a frente, deixando os seus guardas muito para trás. Abandonando o seu esconderijo, os Urgals levantaram-se e libertaram uma torrente de flechas negras. O Espectro saltou de detrás da árvore, ergueu a sua mão direita e gritou:

- “Garjzla”!
Um raio vermelho reluziu da sua palma em direcção à dama elfa, iluminando as árvores com uma luz sangrenta. O raio atingiu o ginete, e o cavalo tombou com um guincho estridente, rasgando o solo com o seu peito. Ela desmontou do cavalo num salto com velocidade sobre-humana, aterrou levemente, e depois olhou para os seus guardas.
As setas mortais dos Urgals rapidamente derrubaram os dois elfos. Caíram dos nobres cavalos, com o sangue inundando o chão. Vendo os Urgals correr para os elfos chacinados, o Espectro bradou:

- Atrás dela! É ela que eu quero!
Os monstros grunhiram e correram pelo caminho.
Um grito rasgou os lábios da elfa, ao ver os seus companheiros mortos. Deu um passo na sua direcção, amaldiçoou os seus inimigos e dirigiu-se para a floresta.

Enquanto os Urgals corriam violentamente por entre as árvores, o Espectro subiu a um pedaço de granito que se evidenciava sobre as suas cabeças. Do seu miradouro podia ver toda a floresta circundante. Levantou a mão e proferiu:
- “Böetq istalri”!
E cerca de meio quilómetro da floresta explodiu em chamas. Sinistramente, queimou pedaços após pedaços de floresta até criar um anel de fogo, com dois quilómetros de diâmetro, rodeando o local da emboscada. As chamas lembravam uma coroa derretida esquecida na floresta. Satisfeito, observou o anel cuidadosamente,
para verificar se havia falhas.
O cordão de fogo engrossou-se, reduzindo a área que os Urgals tinham de vasculhar. De repente, o Espectro ouviu gritos e um bardo grosseiro. Através das árvores, pôde ver três dos seus guerreiros amontoados no chão, mortalmente feridos. Ainda conseguiu
ver a elfa a fugir dos restantes Urgals.
Ela fugiu em direcção ao pedaço de granito escarpado a uma velocidade tremenda. O Espectro examinou o chão seis metros abaixo, e depois saltou agilmente à frente dela. Mudou de direcção rapidamente e correu para o caminho. Da sua espada pingava sangue negro de Urgal, manchando a bolsa que trazia na mão.

Os monstros cornudos saíram do interior da floresta e cercaram-na, bloqueando todas as possíveis saídas. A sua cabeça movimentava-se para os lados, em busca de alguma saída. Não vendo nenhuma, ela ergueu-se com um desdém régio. O Espectro aproximou-se dela com a mão levantada, permitindo-se apreciar a impotência dela.
- Apanhem-na!
Assim que os Urgals avançaram para a frente, a elfa abriu a bolsa, colocou a mão lá dentro, e depois deixou-a cair ao chão. Nas suas mãos segurava uma enorme pedra de safira que reflectia a luz furiosa do fogo. Ergueu-a acima da cabeça, com os lábios formando palavras inquietas. Desesperado, o Espectro rosnou:
- “Garjzla”!
Uma bola de chamas vermelhas nasceu da sua mão e voou em direcção à elfa, rápida como uma flecha. Mas era tarde de mais. Um relâmpago de luz cor de esmeralda iluminou brevemente a floresta, e a pedra desapareceu. Então, o fumo vermelho atingiu-a e ela caiu.
O Espectro uivou de raiva e avançou majestosamente, atirando
a sua espada a uma árvore. A arma atravessou metade do tronco,
onde ficou espetada, vibrante. Disparou nove raios de energia, que mataram os Urgals imediatamente. Depois, arrancou a sua espada da bainha e caminhou em direcção à elfa, com passadas largas.
Da sua boca precipitavam-se profecias de vingança, proferidas numa linguagem maldita que só ele conhecia. Ele cerrou os seus magros punhos e fixou o olhar no céu. As estrelas frias retornaram o olhar, sem brilhar, quais observadores de um outro mundo. Um sentimento de repugnância contorceu-lhe os lábios, antes de se voltar para a elfa inconsciente.
A sua beleza, que enfeitiçaria qualquer mortal, não o cativou minimamente. Confirmou que a pedra se tinha perdido e recuperou o seu cavalo do esconderijo por trás das árvores. Depois de atar a elfa à sela, montou no corcel e saiu da floresta.
Extinguiu os fogos no seu caminho, mas deixou o resto a arder.

DESCOBERTA

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Eragon ajoelhou-se sobre um leito de canas esmagadas e analisou as pegadas com um olhar experiente. As marcas diziam–lhe que o veado tinha estado no prado há apenas meia hora. Em breve iriam dormir. O seu alvo, uma corça com um coxear pronunciado na pata dianteira esquerda, ainda estava com a sua manada. Era admirável que ela tivesse conseguido avançar tanto, sem que um lobo ou um urso a apanhasse.

O céu estava limpo e escuro, e uma ligeira brisa agitava o ar. Uma nuvem prateada passeava por cima das montanhas que o rodeavam, cujos cumes resplandeciam com uma luz rósea enviada pela lua cheia, embalada entre dois cumes. Correntes de água fresca desciam as montanhas, oriundos de glaciares imperturbáveis e de cúmulos de neve reluzente. Uma névoa pesada instalava-se no solo do vale, quase tapando os seus pés.

Eragon tinha quinze anos. Estava a menos de um ano da idade adulta. Umas sobrancelhas escuras repousavam sobre os seus intensos olhos castanhos. As suas vestes estavam gastas do trabalho. Trazia uma faca de caça com cabo de osso embainhada no seu cinto e um tubo de pele de veado, que protegia o seu arco, feito de teixo, da névoa. Transportava ainda uma bolsa com estrutura de madeira.
O veado tinha-o feito penetrar a Espinha, uma cordilheira de montanhas indomáveis, que percorria a terra de Alagaësia de alto a baixo. Estranhas lendas e homens surgiam dessas montanhas, normalmente anunciando males futuros. Apesar disso, Eragon não temia a Espinha. Ele era o único caçador nos arredores de Carvahall que ousava caçar nos seus recantos mais profundos.

Era a terceira noite da caça, e já só tinha metade dos mantimentos. Se não abatesse a corça, seria obrigado a regressar a casa de mãos vazias. A sua família precisava da carne para se prover durante o inverno que se aproximava rapidamente, e não podia comprá-la em Carvahall.
Eragon levantou-se com grande segurança sob o luar enevoado, depois avançou com passadas largas para a floresta, em direcção a um vale mais estreito, onde decerto encontraria o veado. As árvores bloqueavam a visão do céu e lançavam sombras diáfanas no solo. Olhava para os trilhos de vez em quando - conhecia bem o caminho.
No pequeno vale, segurou o arco com um movimento seguro, depois puxou três setas e colocou uma, segurando as outras na mão esquerda. O luar deixava perceber cerca de vinte vultos imóveis, no local onde o veado estava na erva. A corça que ele queria estava no fim da manada, com a pata esquerda estranhamente esticada.
Eragon aproximou-se lentamente, mantendo o arco preparado.
Todo o seu trabalho dos passados três dias tinha levado a este momento. Inspirou calmamente uma vez mais e… uma explosão despedaçou a noite.
O arco soltou as flechas. Eragon precipitou-se para a frente, correndo velozmente pela erva, com um vento fogoso a chicotear-lhe o rosto. Parou de repente e libertou uma seta em direcção à corça. Falhou por um triz e a seta perdeu-se na escuridão. Amaldiçoou a sua má sorte, reposicionou-se e, instintivamente, preparou outra seta.

Por trás dele, onde a corça tinha estado, um enorme círculo de erva e árvores exibia sinais de um fogo recente. Muitos dos pinheiros estavam despidos das suas agulhas. A erva fora da clareira ardida estava espalmada. Um fio de fumo subia no ar, transportando um cheiro a queimado. No centro da zona queimada repousava uma pedra azul polida. A névoa serpenteava pela área escaldada e envolvia a pedra como uma erva daninha.
Eragon observou se não havia perigo, durante muitos e longos minutos, mas a única coisa que se mexia era a névoa. Cautelosamente, libertou a tensão do seu arco e avançou. Um raio de luar empalideceu-lhe o rosto, quando parou em frente à pedra. Tocou-lhe com a seta, e depois saltou para trás. Nada aconteceu, então, pegou nela prudentemente.

A natureza jamais tinha polido uma pedra tão macia como esta. A sua superfície imaculada era azul-escuro, notando-se pequenos veios que a atravessavam como uma teia. A pedra era fria e não fazia fricção nos seus dedos, como seda endurecida. Oval e com cerca de quatro centímetros, era muito pesada, embora parecesse mais leve do que devia.

Eragon achou a pedra tão bela quanto assustadora. “De onde teria vindo? Para que servirá?” Então, algo de inquietante atravessou-lhe o pensamento: “Terá sido enviada para aqui por acidente ou estarei destinado a possuí-la?” Se alguma coisa tinha retido das antigas histórias era que se deve tratar a magia e aqueles que lidam com ela com muita cautela.

“Mas o que farei com a pedra?” Seria cansativo transportá–la, e podia ser perigoso. Talvez fosse melhor deixá-la para trás. Um tremor de indecisão percorreu-o e quase a deixou cair, mas algo acalmou a sua mão. “Pelo menos, poderá dar para comprar alguma comida” - decidiu ele, encolhendo os ombros e acondicionando a pedra na sua bolsa.

O pequeno vale era demasiado exposto para pernoitar e por isso voltou para a floresta e esticou a sua esteira por baixo das raízes emergentes duma árvore caída. Após um jantar frio de pão e queijo, embrulhou-se nos cobertores e adormeceu, ponderando sobre o que tinha acontecido.

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