Lágrimas Ocultas

Se me ponho a cismar em outras eras,
Em que ri e cantei, em que era querida,
Parece-me que foi noutras esferas,
Parece-me que foi numa outra vida …

E a minha triste boca dolorida,
Que dantes tinha o rir das primaveras,
Esbate as linhas graves e severas
E cai num abandono de esquecida !

E fico, pensativa, olhando o vago …
Toma a brandura plácida dum lago
O meu rosto de monja de marfim …

E as lágrimas que choro, branca e calma,
Ninguém as vê brotar dentro da alma !
Ninguém as vê cair dentro de mim !

Florbela Espanca - Livro de Mágoas

O Amor

Para Florbela, amar é um gesto mágico: é uma experiência única, é a força motriz da sua alma, e por isso quer amar, amar perdidamente. É através de sucessivos enamoramentos que Florbela chega à inspiração, compensando com o amor a progressiva deterioração intelectual que a atinge nos últimos anos de vida. A sua obra mostra toda uma ampla gama de estados emocionais ligados ao amor, desde a exaltação dos sentidos (entrega por inteiro), até ao desejo de sacrifícios, oscilando entre momentos de plenitude e de grande fragilidade emocional, decorrentes de relações amorosas frustradas ou que não a preencheram. Aliás, não consegue encontrar satisfação no amor, daí que, de momentos de ternura, Florbela tenda repentinamente para outros de desencontro e sofrimento. Em Florbela, o amor é sempre um amor perdido, mesmo antes de ser encontrado; acarreta sucessivas desilusões, que ela procura compensar com um novo amor, que lhe traz novas desilusões. É um amor impossível, que só mostra mentiras e lhe traz desilusões, como mostra o soneto «Princesa Desalento».

Por vezes, o amor cruza-se com a temática da morte, de modo quase obsessivo, sobretudo em poemas de «Trocando Olhares», como «Cemitérios» ou «Noite Trágica».

Por outro lado, encontramos em Florbela o aparecimento de um forte sentimento religioso, evidente em «A Voz de Deus», que, em poemas como «Idílio» parece consagrar a relação amorosa, como se houvesse uma empatia, uma aprovação divina em relação a esse amor. O amor passa, então, a revestir-se de uma certa aura de religiosidade.

Rui Ramos

Rui Ramos descreve, com simplicidade e brevidade, a singularidade que caracterizava Florbela: Era, de facto, alguém diferente. Numa época da arrebatamentos nacionalistas e místicos, Florbela, apesar do panteísmo literário, permaneceu especialmente fria, lúcida - «pagã e anarquista», como se descreveu. (António Mega Ferreira, «As Imagens Paradas de Florbela Espanca»).

É da poetisa a frase que Rui Ramos cita: Sou pagã e anarquista, como não podia deixar de ser uma pantera que se preza (Rui Guedes, «Acerca de Florbela»), o que também reflecte a sua calma e a lucidez que revelou face às agitações decorrentes da implantação da República, que se faziam sentir no país.

Toledo

Diluído numa taça de ouro a arder
Toledo é um rubi.E hoje é só nosso!
O sol a rir…Vivalma…Não esboço
Um gesto que me não sinta esvaecer…

As tuas mãos tacteiam-me a tremer…
Meu corpo de âmbar, harmonioso e moço,
É como um jasmineiro em alvoroço
Ébrio de sol, de aroma, de prazer!

Cerro um pouco o olhar, onde subsiste
Um romântico apelo vago e mudo
– Um grande amor é sempre grave e triste.

Flameja ao longe o esmalte azul do Tejo…
Uma torre ergue ao céu um grito agudo…
Tua boca desfolha-me num beijo…

Florbela Espanca - Charneca em Flor

Torre De Névoa

Subi ao alto, à minha Torre esguia,
Feita de fumo, névoas e luar,
E pus-me, comovida, a conversar
Com os poetas mortos, todo o dia.

Contei-lhes os meus sonhos, a alegria
Dos versos que são meus, do meu sonhar,
E todos os poetas, a chorar,
Responderam-me então: “Que fantasia,

Criança doida e crente! Nós também
Tivemos ilusões, como ninguém,
E tudo nos fugiu, tudo morreu!…”

Calaram-se os poetas, tristemente…
E é desde então que eu choro amargamente
Na minha Torre esguia junto ao céu!…

Florbela Espanca - O Livro das Mágoas

78 anos

(…)
Quero voltar! Não sei por onde vim…
Ah! Não ser mais que a sombra duma sombra
Por entre tanta sombra igual a mim!

{Florbela Espanca}

Tornou-se eterna essa grande poeta, suas palavras dobraram o tempo…
78 anos sem você e ainda estás aqui e aqui ficará para sempre….

Noivado Estranho

O luar branco, um riso de Jesus,
Inunda a minha rua toda inteira,
E a Noite é uma flor de laranjeira
A sacudir as pétalas de luz…

A luar é uma lenda de balada
Das que avozinhas contam à lareira,
E a Noite é uma flor de laranjeira
Que jaz na minha rua desfolhada…

O Luar vem cansado, vem de longe,
Vem casar-se co´a Terra, a feiticeira
Que enlouqueceu d´amor o pobre monge…

O luar empalidece de cansado…
E a noite é uma flor de laranjeira
A perfumar o místico noivado!…

Florbela Espanca - Trocando olhares - 30/04/1917

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