Vaidade

Sonho que sou a Poetisa eleita,
Aquela que diz tudo e tudo sabe,
Que tem a inspiração pura e perfeita,
Que reúne num verso a imensidade!

Sonho que um verso meu tem claridade
Para encher todo o mundo! E que deleita
Mesmo aqueles que morrem de saudade!
Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!

Sonho que sou Alguém cá neste mundo…
Aquela de saber vasto e profundo,
Aos pés de quem a terra anda curvada!

E quando mais no céu eu vou sonhando,
E quando mais no alto ando voando,
Acordo do meu sonho…

           E não sou nada!…

Florbela Espanca - Livro de Mágoas

Confira a análise dessa poesia.

Noite trágica

O pavor e a angústia andam dançando…
Um sino grita endechas de poentes…
Na meia-noite d´hoje, soluçando,
Que presságios sinistros e dolentes!…

Tenho medo da noite!… Padre nosso
Que estais no céu… O que minh´alma teme!
Tenho medo da noite!… Que alvoroço
Anda nesta alma enquanto o sino geme!

Jesus! Jesus, que noite imensa e triste!
A quanta dor a nossa dor resiste
Em noite assim que a própria dor parece…

Ó noite imensa, ó noite do Calvário,
Leva contigo envolto no sudário
Da tua dor a dor que me não ´squece!

Florbela Espanca - A mensageira das violetas

José Augusto Alegria

A propósito da edificação de um busto de Florbela em Évora, que lançaria a polémica na cidade durante algum tempo, José Augusto Alegria publica, através do Centro de Estudos de Évora, um manifesto intitulado «Processo de Uma Causa», no qual critica duramente a poetisa e a ousadia da sua obra. Reflectindo o escândalo causado na sociedade portuguesa, bastante fechada e reaccionária ao tempo, pelo erotismo apurado de alguns versos e a vida conturbada que Florbela levou, Augusto Alegria opõe-se veementemente à edificação do busto, argumentando que a obra da poetisa é um escândalo, e aproveitando para dedicar o seu livro às mães e filhas de todos aqueles para quem este livro não for um escândalo. Referindo-se aos sonetos de Florbela, considera-os trespassados dum erotismo monocórdico que é contrário às estruturas sadias de qualquer sociedade cristã. Numa crítica que mais parece visar a vida de Florbela, corajosamente diferente da que a maioria das mulheres levavam no seu tempo, Alegria considera que, apesar da qualidade da sua obra, endeusá-la só porque conseguiu ser mais imprudente do que nenhuma outra poetisa é outra ordem de ideias. (José Augusto Alegria, «Processo de Uma Causa», in «A Flor da Charneca»).

A Singularidade

Como mulher, Florbela levou uma existência muito singular: foi uma mulher nascida antes de tempo, pois a sua condição feminina impediu-a de levar a vida que desejava e de ter o reconhecimento que merecia. Assim, não lhe restou outra alternativa, senão ser uma verdadeira lutadora e uma revolucionária para a época. Lutou para fazer tudo: para estudar, para se casar, para se divorciar, para conseguir ver os seus livros publicados, para se afirmar na sociedade, para ser compreendida tal como era, mas isto não conseguiu. Sofreu decepções na família, com o pai, na sociedade e na literatura.

Tinha a clara consciência de ser alguém, independentemente da sua função na família ou no casamento. O seu perfil era, por isso, marcado pelo orgulho, mas também pela verticalidade, nunca traindo os seus princípios. Por outro lado, tinha clara consciência de ser diferente das outras mulheres do seu tempo, queria mais da vida, como ela própria escreve e Rui Ramos aponta. Dona de uma personalidade forte e de uma sensibilidade rara, tinha, em contrapartida, uma força de vontade que declinou ao longo da vida. Corajosa, detestava a hipocrisia e a mentira, tendo, perante a vida, uma postura de desassombro. O seu espírito estava permanentemente ansioso por novidades.

Foi, sem dúvida, uma mulher com fúria de viver, mas viveu uma vida feita de contradições, como contraditória era a sua própria personalidade, e marcada pelo infortúnio. Para Agustina Bessa Luís, o seu infortúnio foi ter talento e preguiça para o exercer. No entanto, é quando se adapta a esse destino agressivo e louco que dá asas à sua originalidade (Agustina Bessa Luís, «A Vida e a Obra de Florbela Espanca»). Foi infeliz com razões para a felicidade (Agustina Bessa Luís, prefácio a «As Máscaras do Destino»).

Escuta…

À Beatriz Carvalho

Escuta, amor, escuta a voz que ao teu ouvido
Te canta uma canção na rua em que morei,
Essa soturna voz há de contar-te, amigo
Por essa rua minha os sonhos que sonhei!

Fala d’amor a voz em tom enternecido,
Escuta-a com bondade. O muito que te amei
Anda pairando aí em sonho comovido
A envolver-te em oiro!… Assim s’envolve um rei!

Num nimbo de saudade e doce como a asa
Recorta-se no céu a minha humilde casa
Onde ficou minh’alma assim como penada

A arrastar grilhões como um fantasma triste.
É dela a voz que fala, é dela a voz que existe
Na rua em que morei… Anda crucificada!

Florbela Espanca - O Livro D’Ele

78 anos

(…)
Quero voltar! Não sei por onde vim…
Ah! Não ser mais que a sombra duma sombra
Por entre tanta sombra igual a mim!

{Florbela Espanca}

Tornou-se eterna essa grande poeta, suas palavras dobraram o tempo…
78 anos sem você e ainda estás aqui e aqui ficará para sempre….

Noivado Estranho

O luar branco, um riso de Jesus,
Inunda a minha rua toda inteira,
E a Noite é uma flor de laranjeira
A sacudir as pétalas de luz…

A luar é uma lenda de balada
Das que avozinhas contam à lareira,
E a Noite é uma flor de laranjeira
Que jaz na minha rua desfolhada…

O Luar vem cansado, vem de longe,
Vem casar-se co´a Terra, a feiticeira
Que enlouqueceu d´amor o pobre monge…

O luar empalidece de cansado…
E a noite é uma flor de laranjeira
A perfumar o místico noivado!…

Florbela Espanca - Trocando olhares - 30/04/1917

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