Rústica

Eu q’ria ser camponesa;
Ir esperar-te à tardinha
Quando é doce a Natureza
No silêncio da devesa,
E só voltar à noitinha…

Levar o cântaro à fonte
Deixá-lo devagarinho,
E correndo pela ponte
Que fica detrás do monte
Ir encontrar-te sozinho…

E depois quando o luar
Andasse pelas estradas,
D’olhos cheios do teu olhar
Eu voltaria a sonhar,
P’los caminhos de mãos dadas.

E depois se toda a gente
Perguntasse: “Que encarnada,
Rapariga! Estás doente?”
Eu diria: “É do poente,
Que assim me fez encarnada!”

E fitando ao longe a ponte,
Com meu olhar cheio do teu,
Diria a sorrir pro monte:
“O cant’ro ficou na fonte
Mas os beijos trouxe-os eu…

Florbela Espanca - O Livro D’Ele

4 Comentários »

  1. Neuma Said:

    on at 9:50 am

    Tais versos só poderiam vir de tal escritora, com tamanha sensibilidade!

  2. Rosiele Fendrich Said:

    on at 4:11 pm

    Florbela consegue unir palavras tão belas, com tanto sentimento… que se tornam palpáveis.

    Beijos

  3. Drika Said:

    on at 9:40 am

    Sempre Florbela….mágico…bjs

  4. Selen Veane Said:

    on at 2:42 pm

    Ah… Que belas palavras…
    Essa mulher é tudo, suas palavras… Imortais.

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