Desdém

Andas dum lado pro outro
Pela rua passeando;
Finges que não queres ver
Mas sempre me vais olhando.

É um olhar fugidio,
Olhar que dura um instante,
Mas deixa um rasto de estrelas
O doce olhar saltitante…

É esse rasto bendito
Que atraiçoa o teu olhar,
Pois é tão leve e fugaz
Que eu nem o sinto passar!

Quem tem uns olhos assim
E quer fingir o desdém,
Não pode nem um instante
Olhar os olhos d’alguém…

Por isso vai caminhando…
E se queres a muita gente
Demonstrar que me desprezas
Olha os meus olhos de frente!…

Florbela Espanca - O Livro D’Ele

3 Comentários »

  1. Neuma Said:

    on at 10:44 am

    Quando achamos que Florbela já disse tudo o que poderia ser dito, nos aparece um poema com o tal, capaz de exprimir o mais profundo dos sentimentos!

    Obrigada por trazer até nós esse deleite!

  2. maria Said:

    on at 11:09 am

    isto me lembrou de quem passa o dia
    a me olhar despercebido
    e quando meus olhos
    seguem esse caminho
    ele sorri
    ingenuo
    e nao desvia
    embora rubro
    seus olhos dos meus
    e me encanta
    esse desejo puro
    que ele tem
    uma vez por mes.

  3. Sabrina Valletta Said:

    on at 10:26 am

    A maneira pela qual o poema foi escrito, como dor e desafio ao mesmo tempo é extremamente supremo!
    Seu site continua lindo como sempre!
    Parabéns!
    Sabrina

    P.s: Como tenho seu end. no meu flog, agora colocarei no meu outro canto tudo bem?

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