Florbela e o suicídio

A causa da morte de Florbela tem sido motivo de estudo para vários dos seus biógrafos, ocupando parte significativa das obras a seu respeito.

As opiniões dividem-se, e mesmo alguns dos seus mais incisivos estudiosos, como Rui Guedes ou Agustina Bessa Luís contrapõem diversos argumentos que justificariam poder falar-se de suicídio premeditado (recorrendo nomeadamente a excertos da sua obra, do seu diário ou à correspondência enviada pela poetisa) a outros, que apontam para o facto de se ter tratado de um acidente, ou simplesmente, do culminar das doenças que afectavam a poetisa.

Outros porém, como Maria Alexandrina ou António Freire recusam liminarmente a hipótese de suicídio, baseando-se no gravíssimo estado emocional e físico de Florbela.

Suicídio premeditado?

Na opinião de alguns estudiosos, o desejo de morrer de Florbela está claramente expresso na sua obra, no modo como aborda constantemente o tema da morte, quase que parecendo persegui-la. Seria a consumação de uma fuga, fuga a um amor, fuga à vida e aos sofrimentos que lhe traz. Além disso, seria uma saída fiel aos preceitos românticos. Há, inclusive, a ideia de que na sua obra estaria enunciado uma espécie de programa de despedida: A morte pode vir quando quiser: trago as mãos cheias de rosas e o coração em festa (Ana Marques Gastão, «Cem anos: Sonetos fora de época»).

Sobretudo na fase final, os acontecimentos exteriores, como a viagem de Guido Battelli, e os interiores, nomeadamente a perda de capacidades, poderiam agitá-la excessivamente, aumentar o potencial de auto-destruição, e conduzir ao suicídio.

A possibilidade de suicídio é igualmente aceitável, se atendermos ao que Florbela confessou à sua amiga de infância Milburges Ferreira, a Buja, dias antes de falecer: Se passar do dia dos meus anos, morrerei de velha. Foi, aliás, às amigas que Florbela deixou algumas disposições especiais no seu testamento, que, para tanto, teve de alterar dias antes de falecer.

Foi também entre os amigos que, no dia anterior à morte de Florbela, correram supostos rumores de que esta estaria à beira da morte, rumores que Mário Lage, o terceiro marido da poetisa, também espalhou depois do funeral. Acresce que esses rumores se firmaram com base na coincidência de que Florbela se matou a 8 de Dezembro, dia do seu aniversário e do seu primeiro casamento. Por outro lado, a atitude de Lage não deixa de ser curiosa: após terem encontrado a poetisa morta no quarto, onde se tinha fechado no dia anterior (pedindo que não a incomodassem até ao dia seguinte), o marido conseguiu manter uma espantosa lucidez, localizando rapidamente os amigos de Florbela para os informar do ocorrido. Mais a mais, é estranho que um médico permita que alguém viva rodeado de barbitúricos, quando sofre de uma neurose e já, por duas vezes, se tentou suicidar, a última das quais dois meses antes.

Referência ainda à declaração de óbito da poetisa, que, embora indique como causa da morte o edema pulmonar de que sofria, foi assinada por um carpinteiro.

Por último, há que ter em conta a hipótese sugerida por Agustina Bessa Luís de que Florbela se teria suicidado, em virtude de estar novamente apaixonada, possivelmente por Ângelo César, a quem dedica os seus últimos sonetos, como «Quem Sabe?».

Programa de despedida

Esse programa de despedida, uma espécie de adeus prolongado de Florbela à vida, e constante apelo à morte, é recorrente, quer no Diário, quer nas Cartas vindas a público, quer, sobretudo em poemas de tom mórbido, como «Deixai Entrar a Morte».

Para Florbela, a morte tinha, aparentemente, um significado algo incomum: era a libertação do sofrimento em que vivia, e, ao mesmo tempo, um consolo para as desgraças e o passaporte para o infinito, o absoluto, que tanto desejava alcançar. Era também, e acima de tudo, o regresso ao encontro com o seu irmão morto, Apeles, o meio de o conseguir reencontrar.

Acidente?

Em primeiro lugar, a neurose de que a poetisa sofria agravou-se significativamente nos últimos meses da sua vida, provocando comportamentos estranhos que escandalizaram a família do marido, Mário Lage, em cuja casa vivia na altura. Além disso, foi-lhe diagnosticada uma apendicite, que faz com que Florbela se arrependa da sua natureza amante e ambiciosa, sentindo-se culpada do todas as polémicas que se geraram em seu torno. Em terceiro lugar, um edema pulmonar (talvez derivado de hipertensão provocada por algum anti-depressivo), descoberto pouco antes da morte, debilitou ainda mais o seu estado de saúde, agravado com um tratamento errado, baseado em refeições pequenas e demasiado repouso.

De facto, é possível que se tenha tratado de um acidente, motivado pela mistura de drogas muito fortes com certos alimentos, ou pela ingestão excessiva de Veronal.

Por outro lado, há também a considerar o facto de que se aproximava a data da publicação de «Charneca em Flor», esperada pela poetisa com manifesta ansiedade, a par da anestesia e sofrimento prolongados em que Florbela vivia, em virtude da constante ingestão de soníferos, e que impediriam que tivesse um mínimo de vontade de se suicidar. A este respeito, Agustina Bessa Luís cita, inclusivamente, psicólogos da área do suicídio, que consideravam esse acto pouco provável, no caso de Florbela. (Agustina Bessa Luís, «A Vida e a Obra de Florbela Espanca»).

Finalmente, não foi pedida para o enterro da poetisa qualquer disposição eclesiástica, o que era quase impossível naquele tempo se houvesse suspeita de suicídio.

Veronal

Veronal, que Florbela passou a usar em 1930, era um sonorífero extremamente forte, usado ao tempo, e particularmente nocivo para doentes pulmonares ou cardíacos, o que era o caso de Florbela. Provavelmente, a associação deste remédio com o tabaco que Florbela fumava constantemente, numa altura em que quase não consegue suportar a neurose, poderá ter ajudado a precipitar a sua morte.

No entanto, não deixa de ser verdade que os dois frascos de Veronal encontrados de baixo da cama da poetisa, completamente vazios, depois da sua morte, podiam ter sido tomados com a intenção premeditada de suicídio.

18 Comentários »

  1. Diane Said:

    on at 12:37 pm

    :question:Não consigo compreender por que as pessoas têm uma resistência tão grande em relação á aceitação do fato de que algumas pessoas realmente não encontram sentido em viver e decidem suicidar-se.Ao meu ver isso é bastante compreenssível!Quem nunca pensou em desistir de tudo e se livrar de seu próprio ser…de sua própria existência?…Isso é mais do que intrìnseco aos seres humanos…E por mais que exista o ” amor-de-si ” , a fuga (seja ela covardia ou coragem!) sempre será uma possibilidade cogitada em nossas mentes.Independente de crenças políticas,éticas,religiosas ou seja lá de que natureza surjam, sentimos que somos ” donos de nós mesmos ” e isso nos atribui o direito de suicidar-nos ou não,sem que tenhamos nossas memórias condenadas por pessoas que julgam-se dignas de sentenciar á tudo e todos…Eu mesma sei que suicidar-me-ei qualquer dia desses.:question::

  2. claudia rezende Said:

    on at 5:04 pm

    A gente não veio porque quis,então não tem que ir porque quer.Quem dera tudo fosse tão simples como o citado acima ,com certeza a fuga passa pela cabeça de todos,Há aqueles que enfrentam a dificuldades e vêem nelas oportunidades de crescimento, por isso se gloriam nas próprias tribulações e amadurecem a cada dia; e há aqueles que fogem das dificuldades inevitáveis ou que se fazem “pobres coitadas e vitimas” de tais realidades da existência.

    O processo que acabou por gerar o SENTIR que hoje parece habitar você diuturnamente precisa ser devidamente pesquisado.
    Todavia, no fim de tudo, o que está em questão, saiba, é a sua coragem ou não para crescer, para aceitar a vida como ela é—com seus sustos e dores inevitáveis—, a fim de poder ver nas dificuldades, que são comuns a todos os homens, não uma conspiração, mas a simples realidade, e, sobretudo, a oportunidade para crescer e amadurecer.

    Portanto, sem jamais questionar as agonias que a visitam e perturbam, devo dizer que muito provavelmente seu problema seja medo de crescer, e infantilismo psicológico, coisas essas que a paralisam sob o pretexto de que a vida é uma desgraça.

    Ora, quanto mais você sente assim, menos você sente contra você. Ao contrario: estranhamente toma conta de você um sentimento de privilégio, de coragem, de vontade de vencer, de encarar e de se gloriar nas próprias tribulações.

    A gente começa a crescer quando aceita que aflições fazem parte desta existência. Então isso fortalece você com bom animo para enfrentar as coisas, pois, você sabe que Jesus venceu o mundo.

    Ora, o fim dessa jornada é fazer você se gloriar nas próprias tribulações.

    No entanto, nada disso tem valor enquanto a pessoa não se enxerga e vê que ela está viciada em suas próprias dores; o que a impede de enxergar qualquer beleza na existência à volta de si, posto que só tem olhos para a escuridade criada pelo estado de lamuria e amargura existencial que se tornaram seu cenário interior.
    A pessoa feliz é aquela que aprendeu a lidar com a inevitabilidade do sofrimento!

    Tais pessoas não mergulham na resignação passiva. Ao contrário, elas aceitam que sofrer é parte do viver, e que o sofrer acaba, ironicamente, por ser parte da alegria de existir. Tais pessoas não são resignadas passivas, mas pessoas ativas, e que transformam o vale de lágrimas num manancial.

  3. claudia rezende Said:

    on at 5:07 pm

    Esse texto acima foi extraído de um site e as palavras citadas também,falando sobre suicidio,www.caiofabio.com.br,ok

  4. Samanta Said:

    on at 9:29 pm

    O comentário acima é interessante e me faz repensar. “A gente não veio porque quis,então não tem que ir porque quer”. Ora, nós viemos porque quisemos… sendo assim, temos o direito de ir quando quisermos?

  5. cinthya Said:

    on at 6:11 pm

    :razz::twisted::cry::lol:

  6. Ingredy Martins Said:

    on at 1:41 pm

    Acredito que uma pessoa que suicida, está com a vida de duas formas ou amando de mais, ou a vida esta completamento vazia, sem sentido, uma dor que consome que as vezes uma pessoa que seja sensivel não consiga suportar, principalmente minha poetisa preferida que estava tão alem de sua época, provalvelmente não se adaptou a mediocriodade e preconceitos contra a mulher em seu tempo. Sendo ela uma mulher inteligente, idependente e apaixonada pela vida e pelos homens que passou como diz em seus poemas. Mas ela não deixou de fazer a diferença neste mundo, deixou coisas valiosissimas.

  7. litha Said:

    on at 8:29 pm

    :roll:Concordo que o fato de ser suicídio ou não, não deve macular a grandeza desta magnánima poetisa.
    Mas não dá para engolir citações como:
    “A gente não veio porque quis,então não tem que ir porque quer”.
    Quando é que vamos poder ter nosso próprio querer? Quando vamos ter livre arbítrio?
    Alguem que se importa com as dores dos outros, que sabe o que é uma dor sentida nas entranhas sugando-lhe a alma, não vem com esses placebos bíblicos. Pelo contrário, aplaude de pé um ato heróico de dizer chega! Ponto final a dor! Se foi assim o fim da nossa Florbela, foi porque ela deu tudo de si até o fim.

  8. Fernanda Lima Said:

    on at 1:11 pm

    Eu gotaria de saber se Florbela era realmente apaixonada pelo seu irmão ou se isso é mito? :shock:

  9. Thais Said:

    on at 11:06 am

    Concordo que suicída ou não, nada diminui o talento e a luz de Florbela.
    Sobre suicídio, sejamos objetivos, se eu me sinto mau,tenho como pessoas todo o direito de decidir como parar a minha aflição.
    Querendo ou não, julgamos todos o tempo todo, creio que é o pior erro e o mais comum que cometemos.
    Pensso que na vida tudo, por melhor ou pior que seja sempre passa, demore meses ou anos, mas no desespero isso não se encherga.Por isso não cabe a nós classificar com certo ou errado, e não acho que seja questão de religião ou coisa do tipo.É mais simplis que isso, é só o bom senso, cada um sabe de sua própria vida, e o que pra um pode ser fácilmente sustentável pode pra outros não ser.

  10. Marcela N. Said:

    on at 2:17 pm

    Eu simplesmente não acordo nem desaprovo o ato de Florbela.A vida é uma coisa diferente para cada pessoa,ela ve a vida como ela quiser,na minha opinião,há duas maneiras de lidar com a vida,duas maneiras dificeís:você sempre continuar tentando,tendo perseverança,e a outra,é simplesmente se livrar da dor.Afinal,quem disse que a vida é fácil?Eu acho que ninguém deveria criticar os atos de Flobela,porque como os colegas ai falaram,ela foi uma m mulher a frente do seu tempo,importantérrima e inteligentérrima,muito diferente e evoluida.

  11. Lígia Said:

    on at 6:36 am

    Obviamente que Florbela Espanca se suicidou. Dizer que tomou Veronal por acidente é por em causa a sua inteligência soberba. Lamento que os preconceitos e a vontade de especular de alguns levem ao debate de algo que só não consegue perceber que não quer. A própria obra desta grande poesia só faz sentido quando se encerra neste fim, tal como no suicidio se cumpriu a obra de outra grandioso poeta chamado Mário de Sá-Carneiro. Tudo o mais são meras especulações que visam colocar pontos de interrogação onde só existem pontos finais.

  12. j. Said:

    on at 9:37 pm

    Qual o interesse das religiões e estados nos tabus e repressões ao suicídio? Óbvio que pra ocultar as contradições vividas sob capitalismo.

    Faço psicologia e já fiz alguns estágios na área de saúde mental onde lidei diretamente com a questão. Não acredito que suicídio seja uma escolha. É uma falta de escolha. A idéia liberal de que nosso corpo nos pertence existe para nos responsabilizar pelas frustrações de nossos desejos e de auto-realização que sentimos, daí vindo os sentimentos de culpa e fracasso. A maior parte dos suicídios se devem a cobrança social, à ansiedade e estresse gerada pelas pressões sociais e de trabalho, pelo isolamento e pela falta de realização pessoal. Não somos culpados pelo nosso sofrimento.

    Sofrer faz parte da existência porque temos desejo, queremos nos desenvolver e realizar coisas, e muitas vezes as condições de uma sociedade contemporânea não solidária, competitiva, que induz a uma sobrecarga de trabalho, cobranças, resultados, onde nos vemos privados de nossas identidades pessoais para sermos o que se é exigido, onde compensamos nossos vazios com filhos, consumo e bens materiais, onde encontramos soluções individuais aos problemas que nos afligem induzem a ideação suicída e outras saídas como as adicções auto-destrutivas, compulsões e transtornos alimentares, síndromes do pânico, etc.

    A morte nos lança constantemente sobre qual é nosso desejo e quem somos nós, que queremos. Sendo estudiosa da psicanálise também, acredito que seja uma questão de estrutura subjetiva o desejo de morte, de acordo com a história singular de cada um, assim como a angústia. Mas atento aqui ao fator social desses suicídios. Eu não acredito que suicídio seja uma escolha. Não há escolhas no sistema do Capital. Não são as pessoas que estão se matando, mas sim o sistema do Capital, que por meios diretos (força repressiva policial ou penitenciária, guerras, tráfico de mulheres para prostituição ou de seres humanos em geral) ou indiretos (abstenção na garantia dos direitos de cada indivíduo e sua comunidade de pertença, desigualdade social, fome, abandono de grupos vulneráveis socialmente a drogas, impunidade a crimes homofóbicos ou de caráter sexista como violência doméstica) mata negros e negras, mulheres, lésbicas, gays, imigrantes, indígenas e outros.

  13. Orleans Branco Said:

    on at 11:51 pm

    Não! Definitivamente não foi suicídio. Ele somente seria cabível no sofrimento do amor, mas não era o caso no momento. Ela estava amando novamente e era apenas o início. Quando se ama aguardar-se a surpresa, a gente paga pra ver… Enfim reaparecem novas esperanças, renovam-se formas de se viver.

    Orleans branco.

  14. carola Said:

    on at 12:37 am

    eu tak

  15. matumbina Said:

    on at 7:32 am

    ela é burra não tem cona dai se tentar matar não saber o que é bom eu matumbina saber bem levar todo dia a toda a hora tb querem juntar-se a festa ?

  16. matumbina Said:

    on at 7:34 am

    forass minha cadera é bem bala toda aberta caber três birote ao mm tempo

  17. jorge Said:

    on at 7:36 am

    que pouca vergonha que se passa neste site :(

  18. Carlos Martins Filho Said:

    on at 5:44 pm

    A participação estava ótima, já no final o nível caiu.

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