Archive for junho, 2006

II

Meu amor, meu Amado, vê…repara;
Pousa os teus lindos olhos de oiro em mim,
– Dos meus beijos de amor Deus fez-me avara
Para nunca os contares até o fim.

Meus olhos têm tons de pedra rara
– É só para teu bem que os tenho assim –
E as minhas mãos são fontes de água clara
A cantar sobre a sede dum jardim.

Sou triste como folha ao abandono
Num parque solitário, pelo Outono,
Sobre um lago onde vogam nenufares…

Deus fez-me atravessar o teu caminho…
– Que contas dás a Deus indo sózinho,
Passando junto a mim, sem me encontrares? –

Florbela Espanca - Charneca em Flor

I

Gosto de ti apaixonadamente,
De ti que és a vitória, a salvação,
De ti que me trouxeste pela mão
Até o brilho desta chama quente.

A tua linda voz de água corrente
Ensinou-me a cantar…e essa canção
Foi ritmo nos meus versos de paixão,
Foi graça no meu peito de descrente.

Bordão a amparar minha cegueira,
Da noite negra o mágico farol,
Cravos rubros a arder numa fogueira!

E eu, que era neste mundo uma vencida,
Ergo a cabeça ao alto, encaro o Sol!
– Águia real, apontas-me a subida!

Florbela Espanca - Charneca em Flor

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