Archive for Ensaios

Ensaio do soneto “A Minha dor”

A minha dor

A minha Dor é um convento ideal
Cheio de claustros, sombras, arcarias,
Aonde a pedra em convulsões sombrias
Tem linhas dum requinte escultural.

Os sinos têm dobres de agonias
Ao gemer, comovidos, o seu mal…
E todos têm sons de funeral
Ao bater horas, no correr dos dias…

A minha Dor é um convento. Há lírios
Dum roxo macerado de martírios,
Tão belos como nunca os viu alguém!

Nesse triste convento aonde eu moro,
Noites e dias rezo e grito e choro,
E ninguém ouve… ninguém vê… ninguém…


Comentário:

Endereçado “a você” é como se fosse um desabafo ou uma carta em forma de soneto, directo e triste. Estão nele presentes símbolos que carregam o ambiente fúnebre e negro, estando a dor associada a um convento.
Palavras como “convulsões”, “sombrias”, “claustros”, “comovidos”, “funeral”, “roxos”, “grito”, “choro” indicam o ambiente nocturno através da repetição do som [u].
Começa por descrever a sua dor como um convento (sendo um convento um lugar de solidão, afastado do mundo), mas apesar de sombrio e até medonho, confessa que tem algum “requinte”. Se no início o convento parece um lugar sem barulho, calmo, o único som que se ouve são os sinos que gemem em tons de funeral todos os dias como se ela estivesse a caminhar dia para dia para a morte. O belo está associado ao macabro ou pouco comum. Já que acha belos os lírios roxos (uma cor triste e melancólica). No convento confessa por fim que está sozinha, e que apesar de gritar, chorar e rezar, ninguém vem em seu socorro.

O curioso neste soneto é a repetição da palavra “convento” e o vocabulário associado á religião tendo aqui uma conotação negativa. Pode-se dizer que o convento em Florbela Espanca é, de facto, o mundo em que vivia, onde tudo era dor e que ninguém, apesar dos apelos, lhe respondia!
Em confronte com o primeiro soneto deste livro, Florbela Espanca refere que “somente a vossa dor de Torturados/ Pode, talvez, senti-lo… e compreendê-lo”. Este soneto é um apelo a que respondamos ao seu choro e orações através da compreensão e sentimento.

O soneto tem um quê de terror já que Florbela Espanca escreve como se tivesse a morar num convento sozinha longe de tudo e de todos mas no entanto este convento está cheio de “sombras”, a única música ou movimento que há é o toque dos sinos que tocam músicas de funeral a toda a hora implicando que a cada hora que passa está cada vez mais perto da morte. A solidão no fim tem recortes quase de loucura, já que confessa que grita e chora, sendo talvez a melhor conclusão associando-a á ideia de morte.
Viria a morrer 26 anos depois…

Ensaio sobre Poema “Eu”

Eu

Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada… a dolorida…

Sombra de névoa ténue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!…

Sou aquela que passa e ninguém vê…
Sou a que chamam triste sem o ser…
Sou a que chora sem saber porquê…

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver
E que nunca na vida me encontrou!

Florbela Espanca - Livro de Mágoas

   Este soneto não é o primeiro do seu livro ‘Livro de Mágoas’ embora seja uma excelente autobiografia. Nela está contida a dor, a incompreensão que Florbela sofria e não percebia.

    Florbela apresenta-se como uma mulher desnorteada, sem rumo na vida, desejando a evasão e sendo ligada com a irrealidade. “Crucificada” e “dolorida” são os adjectivos escolhidos para se caracterizar psicologicamente. Crucificada por não ser compreendida pelos maridos e não só; “dolorida” pela tristeza que trazia dentro de si.

    A negridão débil e desfeita que o destino mais forte (triste e amargo) irá conduzi-la á morte. Note aqui um sentimento de predestinação e o sentimento que a culpa da sua morte é do destino. Termina a quadra com uma caracterização sua global “Alma de luto” (morte / sombra) “sempre incompreendida” (Florbela compreendia muito bem que nem toda a gente a aceitava e a entendia e foi esse factor que a fez desenvolver os seus poemas)

   No primeiro terceto destaca a falta de atenção, a descriminação, o estereótipo que sofria por toda a gente pensar que estava sempre triste, acabando por confessar não saber o porquê de muitas vezes chorar. Florbela muitas vezes nos seus poemas confessa que não se sabe definir porque ainda não se encontrou, provavelmente a sua tristeza sistemática muitas vezes tinha um significado que ela própria nem sabia.

   A predestinação do amor, do príncipe que era suposto vê-la e que nunca a encontrou. Talvez o melhor verso ou terceto que resuma a vida amorosa de Florbela Espanca. Uma vida cheia de amores, sem que nenhum fosse o certo.

Estudo sobre o poema feito por

{Maya Ogwaru}

« Previous entries