Inconstância

Procurei o amor, que me mentiu.
Pedi à vida mais do que ela dava;
Eterna sonhadora edificava
Meu castelo de luz que me caiu!

Tanto clarão nas trevas refulgiu,
E tanto beijo a boca me queimava!
E era o sol que os longes deslumbrava
Igual a tanto sol que me fugiu!

Passei a vida a amar e a esquecer…
Atrás do sol dum dia outro a aquecer
As brumas dos atalhos por onde ando…

E este amor que assim me vai fugindo
É igual a outro amor que vai surgindo,
Que há-de partir também… nem eu sei quando…

Florbela Espanca - A mensageira das violetas

Exaltação

viver! Beber o vento e o sol! Erguer
Ao céu os corações a palpitar!
Deus fez os nossos braços pra prender,
E a boca fez-se sangue pra beijar!

A chama, sempre rubra, ao alto a arder!
Asas sempre perdidas a pairar!
Mais alto até estrelas desprender!
A glória! A fama! Orgulho de criar!

Da vida tenho o mel e tenho os travos
No lago dos meus olhos de violetas,
Nos meus beijos estáticos, pagãos!

Trago na boca o coração dos cravos!
Boêmios, vagabundos, e poetas,
Com eu sou vossa Irmã, ó meus Irmãos!

Florbela Espanca - Livro de Soror Saudade

Ser Poeta - imagens da metapoesia em Florbela Espanca

Ser Poeta

André Luiz Alves Caldas Amóra (PUC-Rio)

Florbela Espanca, poetisa pertencente ao Modernismo português, apresenta em sua poesia uma vertente neo-romântica, marcada pelo erotismo, sensualidade e pela ânsia de liberdade de expressão, além de privilegiar a riqueza do léxico, numa linguagem que explora os símbolos e as imagens sugestivas. A poesia de Florbela utiliza-se de jogos de palavras e metáforas, dentre outras figuras de linguagem, do ponto de vista formal. Já no que se refere à temática, notam-se traços como a investigação do eu-lírico acerca do processo de criação literária, além de interrogações de cunho existencial.

Desse modo, nosso estudo procura refletir sobre a metapoesia presente na produção literária florbeliana, buscando assinalar as imagens concernentes ao fazer poético na poesia da referida escritora.

Inicialmente, analisaremos a figura do poeta na obra de Florbela e, em seguida, procederemos à análise do próprio fazer poético que, nos poemas florbelianos, se apresenta através de uma incessante busca da plenitude da criação artística. Em Poetas, poema integrante do livro Trocando olhares, o eu-lírico reflete acerca da incompreensão sofrida por aqueles que dão título ao texto:

Ai as almas dos poetas
Não as entende ninguém;
São almas de violetas
Que são poetas também.

Andam perdidas na vida,
Como as estrelas no ar;
Sentem o vento gemer
Ouvem as rosas chorar!

Só quem embala no peito
Dores amargas e secretas
É que em noites de luar
Pode entender os poetas.

E eu que arrasto amarguras
Que nunca arrastou ninguém
Tenho alma pra sentir
A dos poetas também!

(Espanca, 2002: 23)

Logo nos primeiros versos, a imagem da incompreensão sofrida pelos poetas é notada. Quando o eu-lírico diz: Ai as almas dos poetas / Não as entende ninguém, a aproximação de violetas – símbolo de luto ou de semiluto nas sociedades ocidentais – com os poetas é percebida, evidenciando, assim, a profunda melancolia vivida por eles devido a esse não-entendimento.

Nota-se na segunda estrofe que as almas dos poetas andam perdidas na vida, porém são como as estrelas no ar, que iluminam com sua luz própria as trevas do mundo terreno e material. A sensibilidade das almas poéticas é evidenciada em seguida, quando são sentidos e ouvidos o gemer dos ventos e o chorar das rosas, respectivamente:

Andam perdidas na vida,
Como as estrelas no ar;
Sentem o vento gemer
Ouvem as rosas chorar!

(Espanca, 2002: 23)

A sensibilidade das almas poéticas é confirmada nas duas últimas estrofes, nas quais o eu-lírico afirma que somente aqueles que trazem no peito dores amargas e secretas podem entender os poetas. O eu-lírico coloca-se como capaz de tal, uma vez que traz consigo as piores amarguras:

Só quem embala no peito
Dores amargas e secretas
É que em noites de luar
Pode entender os poetas.

E eu que arrasto amarguras
Que nunca arrastou ninguém
Tenho alma pra sentir
A dos poetas também!

(Espanca, 2002: 23)

Um dos aspectos relacionados à metapoesia em Florbela diz respeito à imagem do eu-lírico enquanto poeta. O poema Ser poeta, do livro Charneca em flor, apresenta a preocupação quanto ao sentido da existência, e o próprio título parece indiciar e sintetizar o que a figura do poeta representa:

Ser poeta é ser mais alto, é ser maior
Do que os homens! Morder como quem beija!
E ser mendigo e dar como quem seja
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor!

É ter de mil desejos o esplendor
E não ter sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

É ter fome, e ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e cetim…
É condensar o mundo num só grito!

E é amar-te, assim, perdidamente…
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!

(Espanca, 2003: 75)

Logo na primeira estrofe, percebemos a superioridade decorrente do fato de se ser poeta, pois quando o sujeito lírico afirma que morde como quem beija, demonstra a capacidade de transformação do bruto e doloroso em algo singelo e suave – como uma espécie de poder alquímico, que transforma o metal vil em ouro. Quando são aproximados os sintagmas mendigo e rei, notamos a presença dos arquétipos do desvalido e do todo-poderoso, que aqui aparecem reformulados, uma vez que aquele – que vive em miséria – tem o poder de dar o que poderia ser dado apenas por um rei. O seu reino, neste caso, possui a riqueza da criação e da imaginação, que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente – como nos conhecidos versos pessoanos.

Na segunda estrofe, notamos a plenitude do poeta quando o eu-lírico diz ter o esplendor de mil desejos, porém sem nem saber ao certo o que é desejado. Este esplendor confere a ele uma transcendência, isto é, a superação de sua condição humana, vista nas imagens do astro que flameja ou do condor. Além de o poeta irradiar luz própria, identifica-se com a figura do condor, que tem como principais características o seu voar mais alto e a sua solidão:

É ter de mil desejos o esplendor
E não ter sequer que se deseja!
É ter cá dentro um astro que flameja,
É ter garras e asas de condor!

(Espanca, 2003: 75)

No primeiro terceto deste soneto, é clara a ânsia de se alcançar a plenitude, quando o poeta diz ter fome e sede de Infinito. Podemos dizer que o ser poeta é viver em constante batalha, e que o elmo – espécie de capacete utilizado por guerreiros em tempos anteriores – simboliza a arma mais preciosa: a imaginação. Logo em seguida, verificamos que tal batalha – a da escrita – tem o que é de mais valioso e suave, quando surgem as imagens do oiro e do cetim:

É ter fome, e ter sede de Infinito!
Por elmo, as manhãs de oiro e cetim…
É condensar o mundo num só grito!

(Espanca, 2003: 75)

A questão da plenitude é novamente enfocada no último verso da terceira estrofe. Neste caso, há a presença de uma espécie de grito poético, em que o sujeito lírico afirma que ser poeta é condensar o mundo num só grito, alcançando, assim, a plenitude da expressão. No último terceto, a assertiva é seres alma, e sangue, e vida em mim representa a fusão do espírito e do corpo, evidenciando-se a plenitude do sentir e do viver. Vale ressaltar que a alma pode ter também a conotação do princípio da vida e o sangue o veículo, sugerindo a totalidade existencial do ser poeta. No verso E dizê-lo cantando a toda a gente!, o eu-lírico nos faz crer que não basta trazer a síntese do que é abstrato e concreto, e sim transformá-la em poesia, pois, além de sentir em plenitude e com totalidade, dá conta disso na expressão poética:

E é amar-te, assim, perdidamente…
É seres alma, e sangue, e vida em mim
E dizê-lo cantando a toda a gente!

(Espanca, 2003: 75)

A ânsia de plenitude aparece mais uma vez no poema Vaidade, do Livro de Mágoas. Partindo do próprio título do poema, podemos aproximar tal vaidade de um desejo, o de ser a Poetisa eleita:

Sonho que sou a Poetisa eleita,
Aquela que diz tudo e tudo sabe,
Que tem inspiração pura e perfeita,
Que reúne num verso a imensidade!

Sonho que um verso meu tem claridade
Para encher todo o mundo! E que deleita
Mesmo aqueles que morrem de saudade!
Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!

Sonho que sou alguém cá neste mundo…
Aquela de saber vasto e profundo,
Aos pés de quem a Terra anda curvada!

E quando mais no céu eu vou sonhando,
E quando mais no alto ando voando,
Acordo do meu sonho… e não sou nada!

(Espanca, 2003: 23-24)

Notamos, na primeira estrofe, a presença da subjetividade, da idealização e da fantasia da poetisa. O verso Sonho que sou a Poetisa eleita nos faz perceber o desejo de atingir a plenitude da expressão escrita, além de marcar um sujeito poético em primeira pessoa e que tenta se afirmar a partir do sonho.

A imagem do sonho persiste nas estrofes seguintes, quando a poetisa almeja que seus versos sejam sublimes, que tenham claridade para encher todo o mundo e, que emocionem e deleitem a todos, mesmos aos mais melancólicos:

Sonho que um verso meu tem claridade
Para encher todo o mundo! E que deleita
Mesmo aqueles que morrem de saudade!
Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!

(Espanca, 2003: 23)

Observe-se ainda que as inquietações do eu-lírico sugerem uma reflexão sobre o papel da poesia e sobre a recepção da obra de arte pelo público. Surge, então, o desejo de se sentir Alguém importante cá neste mundo, confirmando o propósito de se utilizar a palavra vaidade como título:

Sonho que sou alguém cá neste mundo…
Aquela de saber vasto e profundo,
Aos pés de quem a Terra anda curvada!

(Espanca, 2003: 23)

Depois de enumerar todos os seus sonhos, do mais simples ao mais sublime, o sujeito lírico constata sua própria condição: o nada. O último verso do poema inicia-se com o acordar, opondo-se ao sonhar tão reiterado anteriormente, e o nada, a tudo o que se queria alcançar.

Em Tortura, poema também pertencente ao Livro de Mágoas, notamos a melancolia e o sofrimento do ser poético por não conseguir alcançar a plenitude de sua criação artística:

Tirar dentro do peito a Emoção,
A lúcida Verdade, o Sentimento!
– E ser, depois de vir do coração,
Um punhado de cinza esparso ao vento!…

Sonhar um verso de alto pensamento,
E puro como um ritmo de oração!
– E ser, depois de vir do coração,
O pó, o nada, o sonho dum momento…

São assim ocos, rudes, os meus versos:

Rimas perdidas, vendavais dispersos,
Com que eu iludo os outros, com que minto!

Quem me dera encontrar o verso puro,
O verso altivo e forte, estranho e duro,
Que dissesse, a chorar, isto que sinto!

(Espanca, 2003:25)

As duas primeiras estrofes apresentam uma espécie de simetria, em que se tem de início um desejo: o de tirar dentro do peito a Emoção, a lúcida Verdade, o Sentimento, num processo que, ao ser externalizado, acaba por se diluir, num punhado de cinza esparso ao vento / pó, nada, sonho dum momento. O anseio presente nos dois primeiros versos de ambas as estrofes contrasta com a decepção de não realizá-lo, decepção vista nos dois últimos versos das referidas estrofes.

A frustração apresentada nas estâncias anteriores é sintetizada na primeiro terceto do poema, em que o eu-lírico constata a sua incapacidade de representar todas as suas emoções:

São assim ocos, rudes, os meus versos:

Rimas perdidas, vendavais dispersos,
Com que eu iludo os outros, com que minto!

(Espanca, 2003:25)

A falta de conteúdo e a simplicidade – para não dizer rusticidade – de sua criação poética são vistas na imagem de versos ocos e rudes. Note-se que essa imagem se confirma pelos sintagmas rimas perdidas / vendavais dispersos, demonstrando a impotência sentida pelo eu-lírico.

O último terceto refere-se ao desejo de perfeição no que tange ao fazer poético:

Quem me dera encontrar o verso puro,
O verso altivo e forte, estranho e duro,
Que dissesse, a chorar, isto que sinto!

(Espanca, 2003:25)

O querer encontrar o verso puro – tema central deste poema – retoma a idéia do desejo de que seus versos sejam sublimes, como visto em Vaidade. Porém, aqui não se apresenta apenas como um sonho, mas também como gerador de profunda melancolia. O verdadeiro anseio do eu-lírico é o de conseguir a expressão exata de seu sentimento: que dissesse, a chorar, isto que sinto.

Enfim, a preocupação com o fazer poético nas poesias aqui estudadas cultiva uma reflexão, uma atitude de questionamento e uma tentativa de tradução do sentimento. A poesia de Florbela Espanca caminha para a fusão da vida e da poesia, numa incessante busca da plenitude artística.

BIBLIOGRAFIA

CHEVALIER, Jean & GHEERBRANDT, Alain. Dicionário de Símbolos. Rio de Janeiro: José Olympio, 1990.
ESPANCA, Florbela. Poesia de Florbela Espanca. Porto Alegre: L&PM, 2002.
––––––. Sonetos. São Paulo: Martin Claret, 2003.

[1] Trabalho apresentado no VI CELERJ, na Faculdade de Formação de Professores, no mês de junho de 2005.

Languidez

Tardes da minha terra, doce encanto,
Tardes duma pureza de açucenas,
Tardes de sonho, as tardes de novenas,
Tardes de Portugal, as tardes d’Anto,

Como eu vos quero e amo! Tanto! Tanto!…
Horas benditas, leves como penas,
Horas de fumo e cinza, horas serenas,
Minhas horas de dor em que eu sou santo!

Fecho as pálpebras roxas, quase pretas,
Que poisam sobre duas violetas,
Asas leves cansadas de voar…

E a minha boca tem uns beijos mudos…
E as minhas mãos, uns pálidos veludos,
Traçam gestos de sonho pelo ar…

Florbela Espanca - Livro de Mágoas

Mistério D´Amor

Um mistério que trago dentro em mim
Ajuda-me, minh’alma a descobrir…
É um mistério de sonho e de luar
Que ora me faz chorar, ora sorrir!

Viemos tanto tempo tão amigos!
E sem que o teu olhar puro toldasse
A pureza do meu. E sem que um beijo
As nossas bocas rubras desfolhasse!

Mas um dia, uma tarde… houve um fulgor,
Um olhar que brilhou… e mansamente…
Ai, dize ó meu encanto, meu amor:

Porque foi que somente nessa tarde
Nos olhamos assim tão docemente
Num grande olhar d’amor e de saudade?!

Florbela Espanca - O Livro D’Ele

78 anos

(…)
Quero voltar! Não sei por onde vim…
Ah! Não ser mais que a sombra duma sombra
Por entre tanta sombra igual a mim!

{Florbela Espanca}

Tornou-se eterna essa grande poeta, suas palavras dobraram o tempo…
78 anos sem você e ainda estás aqui e aqui ficará para sempre….

Noivado Estranho

O luar branco, um riso de Jesus,
Inunda a minha rua toda inteira,
E a Noite é uma flor de laranjeira
A sacudir as pétalas de luz…

A luar é uma lenda de balada
Das que avozinhas contam à lareira,
E a Noite é uma flor de laranjeira
Que jaz na minha rua desfolhada…

O Luar vem cansado, vem de longe,
Vem casar-se co´a Terra, a feiticeira
Que enlouqueceu d´amor o pobre monge…

O luar empalidece de cansado…
E a noite é uma flor de laranjeira
A perfumar o místico noivado!…

Florbela Espanca - Trocando olhares - 30/04/1917

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