Fumo
Longe de ti são ermos os caminhos,
Longe de ti não há luar nem rosas,
Longe de ti há noites silenciosas,
Há dias sem calor, beirais sem ninhos!
Meus olhos são dois velhos pobrezinhos
Perdidos pelas noites invernosas…
Abertos, sonham mãos cariciosas,
Tuas mãos doces, plenas de carinhos!
Os dias são Outonos: choram… choram…
Há crisântemos roxos que descoram…
Há murmúrios dolentes de segredos…
Invoco o nosso sonho! Estendo os braços!
E ele é, ó meu Amor, pelos espaços,
Fumo leve que foge entre os meus dedos!…
Florbela Espanca - Livro de Soror Saudade
Florbela Espanca foi uma mulher que não parecia ser da sua época. Vivia em Portugal numa sociedade conservadora, moralista e rural do início do século XX. Em seu coração, sonhos e poemas vivia além da realidade de seu cotidiano, ultrapassando a fronteira do corpo e da alma para mergulhar no mais profundo da existência humana. Uma mulher de vida amorosa conturbada e inquieta que transformava seus sofrimentos mais intensos em poesia da mais alta qualidade onde impregnava a erotização feminina.
No poema “Fumo” a poetisa portuguesa compara o amor ao vício, ressaltando a dor daquele que se sente escravo do amor como num vício que consome suas entranhas.
O amor personificado como fumaça, impossível de segurar e ter por muito tempo. Para ela o amor é sempre perdido mesmo antes de ser encontrado, desenvolvendo uma busca angustiante e em vão. O amor sempre lhe escapa das mãos. Se sente abandonada e com pena de si mesma
Meus olhos são dois velhos pobrezinhos e suplica a presença do amado definindo suas mãos
Tuas mãos doces plenas de carinho.
Florbela Espanca usa as imagens externas como o clima de outono em Portugal para demonstrar sua tristeza interior e seu lamento Os dias são Outonos:
Choram… Choram… Ela vê o mundo com seus olhos cansados e aflitos perdendo a vontade e o sentido da vida Há crisântemos roxos que descoram… Há murmúrios
dolentes de segredos…Concebe intimidade entre a vida e a morte, numa idéia de que o amor renasce e a ausência dele mata.
Na 4 ª estrofe do poema, a poetisa traduz a conclusão de que o amor que ela tanto sonha é apenas uma ilusão. O vício de amar a impede de enxergar. Ela o procura Estendo os braços, mas sempre o perde porque ele é
Fumo leve que foge entre os dedos.
Teria muito mais a escrever sobre esse poema e como mesmo em meio a tristeza e melancolia que a poetisa revela, há tanta beleza e inocência no ato de amar.
Eu gosto muito de poemas de amor, mesmo os que falam daqueles amores impossíveis e você?
Estudo sobre o poema feito por {Patty}, do blog “Palavras”
Viste: http://palavras1.blogspot.com/