Para quê?!

Tudo é vaidade neste mundo vão…
Tudo é tristeza; tudo é pó, é nada!
E mal desponta em nós a madrugada,
Vem logo a noite encher o coração!

Até o amor nos mente, essa canção
Que nosso peito ri `a gargalhada,
Flor que é nascida e logo desfolhada,
Pétalas que se pisam pelo chão!…

Beijos d´amor? Pra quê?!… Tristes vaidades!
Sonhos que logo são realidades,
Que nos deixam a alma como morta!

Só acredita neles quem é louca!
Beijos d´amor que vão de boca em boca,
Como pobres que vão de porta em porta!…

Florbela Espanca - A mensageira das violetas

Desafio

Ela
Ó luar que lindo és,
Luar branco de Janeiro!
Não há luar como tu,
Nem amor como o primeiro.

Ele
Deixa-me rir, ó Maria!
Qual é pra ti o primeiro?!
Chamas o mesmo ao segundo,
Chamas o mesmo ao Terceiro!

Ela
O que Deus disse uma vez
Na minh´alma já é velho;
Vai pedir ao Senhor Cura
Que o leia no Evangelho!

…………………..
Uma voz ouve-se ao longe
Que soube alto. desgarrada:
“Por muito amar, Madalena,
No céu serás perdoada!”

Florbela Espanca - Trocando olhares - 12/12/1915

O meu Alentejo

Meio-dia. O sol a prumo cai ardente,
Dourando tudo…ondeiam nos trigais
D´ouro fulvo, de leve…docemente…
As papoulas sangrentas, sensuais…

Andam asas no ar; e raparigas,
Flores desabrochadas em canteiros,
Mostram por entre o ouro das espigas
Os perfis delicados e trigueiros…

Tudo é tranqüilo, e casto, e sonhador…
Olhando esta paisagem que é uma tela
De Deus, eu penso então: onde há pintor,

Onde há artista de saber profundo,
Que possa imaginar coisa mais bela,
Mais delicada e linda neste mundo?!

Florbela Espanca - Trocando olhares - 11/05/1916
Observa-se a refundição definitiva deste soneto em “Alentejano”, do livro “Sóror Saudade”.

Sol Posto

Sol posto. O sino ao longe dá Trindades
Nas ravinas do monte andam cantando
As cigarras dolentes… E saudades
Nos atalhos parecem dormitando…

É esta a hora em que a suave imagem
Do bem que já foi nosso nos tortura
O coração no peito, em que a paisagem
Nos faz chorar de dor e d’amargura…

É a hora também em que cantando
As andorinhas vão p’lo meio das ruas
Para os ninhos, contentes, chilreando…

Quem me dera também, amor, que fosse
Esta a hora de todas a mais doce
Em que eu unisse as minhas mãos às tuas!…

Florbela Espanca - O Livro D’Ele

Ensaio sobre Poema Fumo

Fumo

Longe de ti são ermos os caminhos,
Longe de ti não há luar nem rosas,
Longe de ti há noites silenciosas,
Há dias sem calor, beirais sem ninhos!

Meus olhos são dois velhos pobrezinhos
Perdidos pelas noites invernosas…
Abertos, sonham mãos cariciosas,
Tuas mãos doces, plenas de carinhos!

Os dias são Outonos: choram… choram…
Há crisântemos roxos que descoram…
Há murmúrios dolentes de segredos…

Invoco o nosso sonho! Estendo os braços!
E ele é, ó meu Amor, pelos espaços,
Fumo leve que foge entre os meus dedos!…

Florbela Espanca - Livro de Soror Saudade

Florbela Espanca foi uma mulher que não parecia ser da sua época. Vivia em Portugal numa sociedade conservadora, moralista e rural do início do século XX. Em seu coração, sonhos e poemas vivia além da realidade de seu cotidiano, ultrapassando a fronteira do corpo e da alma para mergulhar no mais profundo da existência humana. Uma mulher de vida amorosa conturbada e inquieta que transformava seus sofrimentos mais intensos em poesia da mais alta qualidade onde impregnava a erotização feminina.
No poema “Fumo” a poetisa portuguesa compara o amor ao vício, ressaltando a dor daquele que se sente escravo do amor como num vício que consome suas entranhas.
O amor personificado como fumaça, impossível de segurar e ter por muito tempo. Para ela o amor é sempre perdido mesmo antes de ser encontrado, desenvolvendo uma busca angustiante e em vão. O amor sempre lhe escapa das mãos. Se sente abandonada e com pena de si mesma Meus olhos são dois velhos pobrezinhos e suplica a presença do amado definindo suas mãos Tuas mãos doces plenas de carinho.
Florbela Espanca usa as imagens externas como o clima de outono em Portugal para demonstrar sua tristeza interior e seu lamento Os dias são Outonos: Choram… Choram… Ela vê o mundo com seus olhos cansados e aflitos perdendo a vontade e o sentido da vida Há crisântemos roxos que descoram… Há murmúrios dolentes de segredos…Concebe intimidade entre a vida e a morte, numa idéia de que o amor renasce e a ausência dele mata.
Na 4 ª estrofe do poema, a poetisa traduz a conclusão de que o amor que ela tanto sonha é apenas uma ilusão. O vício de amar a impede de enxergar. Ela o procura Estendo os braços, mas sempre o perde porque ele é Fumo leve que foge entre os dedos.
Teria muito mais a escrever sobre esse poema e como mesmo em meio a tristeza e melancolia que a poetisa revela, há tanta beleza e inocência no ato de amar.
Eu gosto muito de poemas de amor, mesmo os que falam daqueles amores impossíveis e você?

Estudo sobre o poema feito por {Patty}, do blog “Palavras”

Viste: http://palavras1.blogspot.com/

78 anos

(…)
Quero voltar! Não sei por onde vim…
Ah! Não ser mais que a sombra duma sombra
Por entre tanta sombra igual a mim!

{Florbela Espanca}

Tornou-se eterna essa grande poeta, suas palavras dobraram o tempo…
78 anos sem você e ainda estás aqui e aqui ficará para sempre….

Noivado Estranho

O luar branco, um riso de Jesus,
Inunda a minha rua toda inteira,
E a Noite é uma flor de laranjeira
A sacudir as pétalas de luz…

A luar é uma lenda de balada
Das que avozinhas contam à lareira,
E a Noite é uma flor de laranjeira
Que jaz na minha rua desfolhada…

O Luar vem cansado, vem de longe,
Vem casar-se co´a Terra, a feiticeira
Que enlouqueceu d´amor o pobre monge…

O luar empalidece de cansado…
E a noite é uma flor de laranjeira
A perfumar o místico noivado!…

Florbela Espanca - Trocando olhares - 30/04/1917

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