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Sexta Poética 44

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amo-te em azul. beijei-te em azul claro
quando claro eram os lábios.
um azul forte correu nos meus ombros
quando os teus ombros foram mais fortes que os meus.

doce e suave era o azul que amei no teu corpo
quando o meu corpo começou a entardecer.
em azuis quase verdes desmaiei os meus olhos
quando os teus me devolveram um azul quase cinza.

é azul o meu desespero
é de azul o meu desencanto
azul frio azul mordente. azul acutilante
e o medo que escorre na minha garganta
é mais azul que o azul metalizado do diamante
são azuis os teus dentes
tão azuis e tão brilhantes que deixam
na minha pele marcas de serpente.
marcas para sempre.

{Isabel Mendes Ferreira}


Isabel Mendes Ferreira

«à orla macia do silêncio
acresço o sumo fecundo de uma pétala.»

Mora em Lisboa, Ligada a cultura em geral, artes, dança, música, cinema e para além de uma grande poeta é uma grande pintora. Está sempre entre as palavras, já entrevistou varias personalidades da sociedade portuguesa, incluindo Agostinho da Silva, na web é quase onipresente nos blogs de boa poesia e de gente bacana.

«quem disse que os lábios eram puros?
puros são os beijos que damos sem querer
nos lábios que já esquecemos.»

Estreou na poesia em 1981, entre as cores e os versos essa poeta mistura os sonhos, brinca com as palavras com uma facilidade que encanta, intensidade lírica certamente deliciará todos os leitores amantes das belas palavras.

«é tão breve o silêncio quando dizer mais era urgente,
tão frágil o fogo das mãos sobre a pele,
tão lúcido o pensamento quando dizer tudo é pouco.»

Sua poesia revela uma sensibilidade delicada, sempre atenda ás coisas vindas da vida, preenche cada espaço com o som do doce Piano, desestrutura a linguagem, inventando texturas e sonhos, atinge o cerne da poesia de uma forma magistral.

«Lisboa tinha o mar mesmo ali. soberbo e submisso em ondas de volúpia. em carradas de peixes luminosos e traineiras brancas e azuis com nomes em letras grandes e vermelhas. lembrou-se da fogueira dos ciganos. do mistério rubro que andava à solta pelas noites de agosto. »

Sou suspeito ao falar dessa moça poeta, ela que foi-me apresentada pelo meu grande amigo Pires (Espreitador), rapidamente ganhou minha admiração, para além das qualidades indiscutiveis na escrita e na pintura, é uma ternura, uma das pessoas mais doces e simpáticas que tive o prazer de conhecer nessa internet, por isso é uma grande prazer lhes apresentar a poesia de Isabel Mendes Ferreira.

«vasto o coração que alastra as sílabas silentes.
como traços espaços recantos poços
onde o tempo reduz o efémero onde a alma refaz o eterno.»

Ótimo fim de semana pra você.

Fernando Pessoa – Poema do Dia: “XLVII” - Leia!!!
Florbela Espanca – Poema do Dia: “Desdém” - Leia!!!

brigo contigo
uma dentada rigorosa faz-me rígida morna
desfaz-me arruína-me risca-me
um riso na anca anavalho-te
sou tua em minerais. devolve-me
a abundância. sou a rocha do teu penedo.
racha-me. possui-me como aos animais.
ao largo. à chuva. no prado.
sem medo nos ossos. com medo das rosas
{“Isabel Mendes Ferreira”}


25 comentários

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  1. Que grata surpresa conhecer esta escritora, caro Bill! Versos idilicamente coloridos! Adorei o primeiro poema… Forte abraço!

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  2. [=

    Nossa! Que belos são os versos de Isabel Mendes Ferreira.
    Adorei demais essa sexta poética encantadoramente azul.

    “amo-te em azul. beijei-te em azul claro”….

    beijo amor ;)

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  3. Lara

    Ótima semana para vc TB!
    Como sempre aprendo muito por aqui!
    BJus

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  4. Tina

    Oi Bill!

    Nossa que lindo! Você é realmente um “apresentador de talentos”. Obrigada.

    beijos querido,

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  5. Opá! Mudança de casa?! Sim, senhor! Quanto às nomeações, são todas merecidas!

    Grande abraço!

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  6. Ou fui eu que entrei de um modo diferente? ehehe! Esta minha cabeça… Já não é o que era! A idade avança e a cabeça fica para trás!

    Abraço!

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  7. Sucesso merecido, moço bonito.

    Ei…só não esquece dos mortais e eternos amigos-fãs? (Eu, por exemplo…) :)

    Parabéns. Tô indo já votar.

    Beijos tantos…

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  8. jose marto

    é verdade , dela tinha duas memórias , a mais loura de Lisboa e a entrevista que fez a Maria Ondina Braga … descobri-a depois no piano, e percebia-a furiosamente artista, sem réguas para a imaginação, sem metro para uma palavra que una a uma outra , com o seu tracejar corrente entre um som , um traço e uma sintaxe a pino. Não declina, o seu olhar morde as coisas, oferece-as sem nos devassar os olhos ou nos tolher o espanto, do seu risco quente e de brio, sim , esta palavra anda muito afastada da arte… as suas surpresas não são segredos, são meios de nos interpelar sempre, por isso o seu rigor, pode ser de linho antigo ou de retalho de cadeira estofada, ela sabe como o faz, como levanta as mãos de uma dança sem que a oração não seja o canto de uma sereia, mas um trabalho exigente , que demora a oferecermo-nos…
    Ela é um nome, e todos os dias a procuro, não preciso de uma resposta , porque a encontro quando o dia ou a noite me oferecem sonhos vistos e encantados .

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  9. vamos jantar todos?

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  10. Amei saber mais sobre a poetisa! E adorei o poema que está no alto da página, pintado em tons de azul, de azuis… Gostaria de ter permissão da autora para publicá-lo lá em meu blog, será que consigo?… É que sou uma alma enamorada do azul… e o poema me tocou especialmente! Ficarei à espera de uma resposta. Abraços alados.

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