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Sexta Poética 40

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Chega ao fim do dia
a hora mais lenta, quando o céu
é vago e as luzes se acendem
no prédio da frente.

Vemo-los por vezes
dentro das janelas, vultos
delicados como miniaturas
ou meros reflexos que passam
nos vidros.

Alguns prosseguem encargos
de sombra, outros detêm-se
a olhar a rua, no gesto
a expressão do seu puro
enigma.

E são como provas
de coisa nenhuma. Se acaso
nos fitam, parecem dizer:
a morte não será decerto
mais estranha que a vida.

{Isabel Meyrelles}


Isabel Meyrelles
Nasceu em Matosinhos no ano de 1929. Fixou residência em Paris em 1950, prosseguindo estudos superiores na Université René Descartes – Paris V – Sorbonne e Ecole Nationale Supérieure des Beaux-Arts.

«Farei do silêncio
uma proa de barco
da tua ausência um rio
d’árvores afogadas»

Poeta, tradutora, escultora, esteve desde cedo ligada ao movimento surrealista. Publicou o seu primeiro livro de poemas, Em Voz Baixa, decorria o ano de 1951. Amiga de Natália Correia, com quem dirigiu o restaurante O Botequim, foi ainda uma importante divulgadora da poesia portuguesa em França.

«Quis dar em versos
a dor da tua ausência;
mas depois vi que vivias dentro de mim
eu é que tinha partido.»

Isabel Meyrelles ocupa um lugar muito particular na história geral da intervenção surrealista em Portugal, e não só pela força “convulsiva” (isto é, a “beleza” nos termos em que a definiu André Breton) das suas obras, mas também pela linguagem por ela privilegiada a par da poesia.

«Só porque tu adormeceste, meu amor,
o dia, de tristeza, anoiteceu…»

É uma das poetas que atualmente mais releio, suas palavras trazem uma simplicidade que desenham a beleza, com lirismo arrebatado, apaixonado, expressão dos encontros e desencontros inerentes à nossa condição de humanos. Simples e perfeita.

«A tua boca tem a frescura
das coisas desconhecidas.
Quando me beijas,
não sei se sou sombra, flor
ou a manhã que rompeu…»

Ótimo fim de semana pra você.

Fernando Pessoa – Poema do Dia: “XIX” - Leia!!!
Florbela Espanca – Poema do Dia: “Poder da Graça” - Leia!!!

Como sempre,
passas inexorável e distante
em me veres.
Como sempre,
olho aquele ponto vago
acima do teu rosto
e, como sempre,
penso: amanhã… talvez amanhã
e olho as tuas costas que se afastam
como sempre.
{“Isabel Meyrelles”}


8 comentários

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  1. «Só porque tu adormeceste, meu amor,
    o dia, de tristeza, anoiteceu…»

    Lindo isso.

    Beijos moço Bill. ótimo final de semana

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  2. as vezes me pergunto
    o q serias de mim sem as sextas poéticas
    encontro kd blz por aqui
    um belo trabalho tens no teu blog

    “Tenho fome da extensão do tempo, e quero ser eu sem condições.”
    (Bernardo Soares)

    Bjos da -=Þëqµëñä Þö놡zä=- !!!

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  3. Confesso que esta poetisa eu não conhecia, e só por isso valeu muito a pena esta Sexta Poética. Adorei muito do que li e fiquei com vontade de saber mais.

    Beijos, bom fim de semana.

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  4. Sabe, Bill querido, sempre sinto uma ponta de tristeza na poesia portuguesa do século XX quando me deparo com algum autor dela… Uma melancolia contida, algo assim… Achei lindo o poema da Isabel!

    Um grande beijo, moço, e se cuida, hein? :*

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  5. Lindo esse post e lindo também o do Teatro Mágico!
    ;)

    Beijão e bom fim de semana!

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  6. DO

    Vc arrasa sempre às sextas,grande Bill

    Abração!!

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  7. Olá Bill

    Belíssima a imagem criada naquele primeiro texto. Causadora de sensações mil.

    Vou te linkar ao meu blog, bom demais seu cantinho aqui.

    E aproveito para te convidar a ver o FUZUÊ que está acontecendo lá no FALÓPIO. Não perca hoje:

    http://versosdefalopio.blogspot.com

    Abraços!

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  8. Eu também muitas vezes, visto-me de silêncio…
    E dentro dele, grito, pausadamente para as paredes brancas…e você?

    Bom dia Bill!

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