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Sexta Poética 36

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A música vinha duma mansidão de consciência
era como que uma cadeira sentada sem
um não falar de coisa alguma com a palavra por baixo
nada faria prever que o vento fosse de azul para cima
e que a pose uma nostalgia de movimento deambulante
era-se como se tudo por cima duma vontade de fazer uma asa
nós não movimentamos o espaço mas a vida erege a cifra
constrói por dentro um vocábulo sem se saber
como o que será
era um sinal que vinha duma atmosfera simplificante
silêncio como um pássaro caído a falar do comprimento.

{António Gancho}


António Gancho – {1940 – 2006}
António Luís Valente Gancho nasceu em Évora em 1940, é poeta por intuição. Em Lisboa, juntamente com Mário Cesariny e outros intervenientes da altura, frequentou o Café Gelo no Rossio, conhecido como a casa-mãe do Movimento Surrealista.

«Os meus livros, leiam-os e depois digam-me alguma coisa»

Aos vinte anos, o pai internou-o no hospital psiquiátrico Júlio de Matos, tendo passado por vários estabelecimentos psiquiátricos, até se instalar permanentemente na Casa de saúde do Telhal, em Mem Martins, Sintra.

«Só quando te beijo sinto o nome do teu corpo
Um dia parto sem ti e morrerei»

Dizem que morreu de rir e diz-se que foi de ataque cardíaco, morreu aos 66 anos, após 38 anos de internamento na Casa de Saúde do Telhal. Pouco se sabe acerca das circunstâncias da morte do poeta, como pouco se soube da sua vida e da obra, escrita integralmente no manicómio. “Foi muito mal tratado pela sociedade. É mais um caso de abuso psiquiátrico, de miséria nacional e institucional”, disse o pintor Álvaro Lapa, conterrâneo de António Gancho, que lhe arranjou editor quando o então novel poeta o informou de que tinha um livro por publicar.

«Faço um poema e nasce uma cidade
invento o conteúdo geográfico das coisas.»

Poeta louco é o que muitos dizem, poeta noturno, ele nos momentos de loucura normal, dizia que era Pessoa, Luís de Camões e tantos outros poetas que lia e gostava…
Não sei sobre a loucura, mas sei que com na obra “Ar da Manhã” fica claro que tinha muito dos poetas que ele tanto gostava, tinha o talento, tinha o dom para palavras e tinha os sonhos, tinha a poesia no sangue!…

«Esta manhã o poema nasce no ventre do papel
e nasce o Sol no horizonte do papel.»

Ótimo fim de semana pra você.

Florbela Espanca – Poema do Dia: “Visões da Febre” - Leia!!!

Quando desaparecer
hei-de pedir à noite
que me consuma com ela
que me devaste a alma
não quero mais
quero desaparecer na noite
e só de noite consumir-me.
{“António Gancho”}


17 comentários

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  1. Tina

    Bill,

    Que lindo! Obrigada por mais esta novidade. Triste vida, vida de poeta do comeco do seculo passado.

    beijos querido e boa semana,

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  2. dou em doida pra aqui chegar!!!!!!!!!!!!!!

    raios!

    menino do mar…coisa dificil…eu sei…vale a pena….mas uffa…

    cheguei. de novo. para outros encantos.

    obrigada…

    beijossssssssssssssssssssssssss.

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