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Sexta Poética 32

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Um dia

Um dia partirei muito cansada
Com as lembranças cingidas ao meu peito
E uma voz de saudade e de nortada.

(Levarei voz para gemer de espanto.
Levarei mãos para dizer adeus…
Olhos de espelho, e não olhos de pranto,
Eu levarei. Os olhos, serão meus?)

Um dia partirei, talvez manhã.
Uma canção de amor virá das dunas.
De finas pernas, seguirei a margem
Límpida, boa, enorme, no ribeiro
De água discreta a reflectir miragem,
Braços de ramos, gestos de salgueiro.

Um dia partirei, muito diferente.
Enfim, aquela que jamais eu fora!
E os de Cá hão-de achar que vou contente.

{Natércia Freire}


Natércia Freire – {28/10/1920 – 17/12/2004}
Nasce em 1920, em Benavente, no Ribatejo e ainda criança muda-se com a família para Lisboa. Começa por dedicar-se à música, mas a poesia é a tentação a que acaba por não resistir.
Em 1932 acaba o liceu. Dois anos antes morrera-lhe o pai, dois anos mais tarde conhece José Isidro dos Santos, com quem namora e acabará por casar.
1938 marca a sua estreia na poesia, com a publicação de Castelos de Sonho. Segue-se-lhe Meu Caminho de Luz, muito bem recebido pelo público e pela crítica.

«Mas às vezes há um desejo de solidão, de uma solidão breve. De morte. Falamos, os que se encontram, uma língua de tempos derradeiros.»

A partir de 1938 começou a participar em várias revistas e jornais, iniciando uma colaboração com o “Diário de Notícias” na fase final dos anos 40. Jornal de que foi Coordenadora da Página de “Artes e Letras” de 1954 a 1974.

«Importa a liberdade
de não ceder à vida
um segundo sequer»

Desde os anos 40 que Natércia Freire já assinava uma rubrica semanal na Emissora Nacional, bem como exercia uma larga atividade como Conferencista. A partir de 1972 foi membro da Comissão de Leitura da Fundação Calouste Gulbenkian, e desde 1980 exerceu, por várias vezes, o papel de Júri do Prémio Literário da Fundação Oriente.

«Mudas viagens eu faça
Nas águas que ninguém olha.»

Uma sede de absoluto, a vida como um contínuo exercitar da morte, a memória e a infância, a saudade e a solidão, o mistério e a dúvida, o despojamento e a contemplação, o espaço e a paisagem, sobretudo de eco ribatejano, são, em síntese, os temas que percorrem a poesia de justa cadência musical e tendência romântico-simbolista de Natércia Freire.
Morreu aos 85 anos, deixou sua poesia alada para nos alegrar a vida e ser eterna, eterna alegria de suas palavras, lirismo que transforma a ausência…

«Por visitar a Lua recebe-se a Loucura.
Por visitar a Luz, recebe-se a cegueira.»

Otimo fim de semana pra você.

Fernando Pessoa – Poema do Dia: “Que Lindos Olhos”- Leia!!!
Florbela Espanca – Poema do Dia: “Doce Certeza” - Leia!!!

É preciso soltar o ritmo que me prende.
Esta amarra de ferro à palavra e ao som.
Emudecer, no espaço, o arco e a corrente
E ser nesta varanda um pouco só de cor.
Não saber se uma flor é mesmo uma criança.
Se um muro de jardim é proa de navio.
Se o monumento fala, se o monumento dança.
Se esta menina cega é uma estátua de frio.
Um pássaro que voa pode ser um perfume.
Uma vela no rio, um lenço no meu rosto.
Na tarde de Fevereiro estar um dia de Outubro.
Nos meus olhos de morta uma noite de Agosto.
É preciso soltar o ritmo das marés,
Das estações, do Amor, dos signos e das águas,
Os duendes das plantas, os génios dos rochedos
Nos cabelos do Vento, as tranças de arvoredos.
Desordenai-me, luz! Que nada mais dependa
Das águas, das marés, dos signos e do Amor.
É preciso calar o arco e a corrente
E ser nesta varanda um pouco só de cor.
{“Natércia Freire”}


10 comentários

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  1. Marie

    Bom dia Bill
    de volta pra terrinha? rs
    …(Levarei voz para gemer de espanto.
    Levarei mãos para dizer adeus…
    Olhos de espelho, e não olhos de pranto,
    Eu levarei. Os olhos, serão meus?)
    …simplesmente belo.
    fim de semana na paz pra vc!
    beijinhos

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  2. Erika

    “Nos cabelos do Vento, as tranças de arvoredos.
    Desordenai-me, luz! Que nada mais dependa
    Das águas, das marés, dos signos e do Amor.”

    Livre.

    Beijo.. ótimo final de semana

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  3. Patty

    Minha nossa!!! Que versos lindos.
    Um beijo Bill, e bom final de semana!!!

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  4. Mel

    Bill, bom ver vc de volta! Um lindo fim de semana! Beijo

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  5. Lara

    Poemas assim me fazem acreditar que existem pessoas mágicas sabia?
    Boa tarde moço!
    Bjus

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  6. DO

    Sabia que pelo menos a famosa sexta poética estaria de volta,heheheh
    Abração,Bill e um otimo fds a vc.

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  7. olá querido
    belo poema!

    estou de volta
    ótimo fim de semana

    “Quero, um dia, poder dizer às pessoas que nada foi em vão… Que o amor existe, que vale a pena se doar às amizades a às pessoas, que a vida é bela sim, e que eu sempre dei o melhor de mim… e que valeu a pena!!! ”

    (Mário Quintana)

    Bjos da -=Þëqµëñä Þö놡zä=- !!!

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  8. Bill, passando para te agradecer o recado de dois meses atrás… sim, ainda não consegui voltar por completo. Aos poucos venho me adaptando… é difícil, e ainda me falta tempo, as tais obrigações, o cansaço…
    O mais interessante do seu post é que o nome de minha mãe é… Natércia.
    Viu como ela está comigo o tempo todo?!
    Tenho provas disso sempre.
    :´(
    Beijo!

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  9. fantástico… cheguei me arrepiar ao ler…

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  10. Uau,

    Depois de longo inverno longe da poesia, volto. Deixo aqui, antes de mais nada, meu beijo para o moço. ;)

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