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Sexta Poética 31

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O Segredo da Matéria

Subo ao sótão e tenho seis anos
pelas escadas que rangem
sob os pés que voam em segredo,
rangem como a porta a abrir
para a luz filtrada dos pavores da infância
onde espero um pouco
por tudo o que me espera desde a eternidade.
Tenho sete anos e a cinza confunde-se com a luz
depositada no tempo. As arcas dão a ver o outro lado
do mundo espalhado pelo chão à minha volta.
Não são objectos mas o próprio mistério da existência
que vai passando pelas minhas mãos
quando tenho oito anos, quando tenho agora
o segredo de uma porta que abre para a casa.
Percorro os caminhos da mesa, da cama, da lareira,
as raízes da casa são o sótão
onde a luz toca nas mãos o infinito.
Subo pelos olhos espantados
e espero ainda pela aurora que me aguarda
aproximando-se lentamente do seu pó.

{Rosa Alice Branco}


Rosa Alice Branco
Nasceu em Aveiro em 1950. É poeta, ensaísta e tradutora. Doutorada em Filosofia, é professora de Teoria da Percepção na Escola Superior de Artes e Design de Matosinhos.

«Parece simples/ a simplicidade que vem das coisas/ e nos encontra o meio do caminho»

Investigadora da Unidade de Investigação em Comunicação e Arte da Universidade de Aveiro, estreou-se em 1982 com o livro A Mulher Amada, ao qual se seguiu, em 1988, Animais da Terra. Autora de vários ensaios, está também incluída em algumas antologias.

«Mastigo o pó de todos os cravos que me deste,
quero-os sempre vermelhos ao rés da boca.»

Foi directora das revistas Figuras e Limiar e é co-responsável pela criação da revista de poesia Falar/Hablar de Poesia.
Seu trabalho foi traduzido e publicado (poesia e ensaio) em inúmeras revistas de diversas línguas. Organiza dois Encontros Internacionais de Poesia: “Em voz Alta” e “Encontros de Talábriga”, assim como Colóquios e publicações sobre literatura. É presidente de Limiar – Associação de produções culturais.

«… O corpo que vês quando me olhas
é o mesmo que vês quando me beijas
ou quando a minha boca te cobre de palavras?…»

Li essa poeta pela primeira vez no livro “Soletrar O Dia” lançado aqui no Brasil em 2004 se não me engano, um livro fantástico, que nos mostra uma outra visão do mundo, digamos que os mostra uma cor a mais em tudo que vemos, uma poeta maravilhosa.

«Já não sei inventar os Domingos.
Pode-se inventar tudo menos os Domingos.»

Otimo fim de semana pra você.

Fernando Pessoa – Poema do Dia: “Opiário”- Leia!!!
Florbela Espanca – Poema do Dia: “Filhos” - Leia!!!

Estamos sempre a perder coisas,
as mais frágeis, ou as que caem pelo caminho
quando abrimos os braços para receber.
A nossa vida nunca tem as mesmas palavras
para o que transportamos,
mas tudo o que achamos nos deslumbra
a casa, cheia de coisas que temos,
ou não temos cada dia.
{“Rosa Alice Branco”}


19 comentários

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  1. Alê Namastê

    Saudades!

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  2. Belíssimo poema.

    Abraço,
    tudo de bom!

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  3. «Importa a liberdade
    de não ceder à vida
    um segundo sequer»

    Fantástica essa noção, que eu vou tentando defender.

    Grande abraço!

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  4. Varley

    Um Prospero ano novo

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