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Sexta Poética 30

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Um rio de luzes

Um rio de escondidas luzes
atravessa a invenção da voz:
avança lentamente
mas de repente
irrompe fulminante
saindo-nos da boca

No espantoso momento
do agora da fala
é uma torrente enorme
um mar que se abre
na nossa garganta

Nesse rio
as palavras sobrevoam
as abruptas margens do sentido

{Ana Hatherly}


Ana Hatherly
Poeta, tradutora, ensaísta e professora universitária, nasceu no Porto em 1929. É licenciada pela Universidade de Lisboa e Doutorada em Literaturas Hispânicas pela Universidade de Berkeley (U.S.A.).

«Amando muito muito/ficamos sem palavras.»

Estudou música e arte cinematográfica. Iniciou a sua carreira literária em 1958 com o livro de poemas Um Ritmo Perdido. Foi uma das principais colaboradoras do grupo de Poesia experimental, nos anos 60 e 70. A sua poesia reúne fortes tendências barroquizantes e visuais. Algumas das suas obras fundem a expressão poética com a intervenção plástica.

«(…) fitar a felicidade / incendiar tudo com os olhos abertos»

O nome de Ana Hatherly aparece sempre ligado às vanguardas artísticas portuguesas e, neste campo, a autora tem uma vasta produção nas áreas das artes visuais, pintura, desenho e cinema.

«Ó doçura
porque amargas tanto
a nossa tentação de florir
ao mesmo tempo sendo tudo
e nada»

Sua obra é tão vasta, tão variada, e ao mesmo tempo tão coerente e profunda. Tem o domínio da escrita criativa e nos faz voar com suas palavras.

«Quero dizer mais
e digo: mais

Mas cada vez
digo menos
o mais que sei
e sinto»

.Otimo fim de semana pra você.

Fernando Pessoa – Poema do Dia: “Marinetti Acadê.ico” - Leia!!!
Florbela Espanca – Poema do Dia: “A Voz De Deus” - Leia!!!

O eco de mil sinos de prata
emudece
ante o labor da aranha
O tempo emudece
na cegueira do ar
na sua geografia nula
Que queres de mim
matéria insensível?
Nas coisas conhecidas
o verbo ser
emudece
{“Ana Hatherly”}


19 comentários

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  1. É sempre muito bom passa aqui…

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  2. Meu querido, adorei a reorganização do blog e a “sexta poética”. Vou passar a visitá-la sempre que puder. Conhecer velhos poetas que são novos para mim.
    Beijosss

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  3. Cremogema

    Ó doçura
    porque amargas tanto
    a nossa tentação de florir
    ao mesmo tempo sendo tudo
    e nada.

    Adorei,Ana Hatherly já conhecia.

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  4. Bill

    Uma parte substancial da biblioteca pessoal da escritora-pintora Ana Hatherly acaba de ser doada pela própria à Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian. Trata-se de um conjunto documental composto por 700 títulos integrando obras da autoria da criadora de Tisanas – cujo último volume foi publicado com 112 textos inéditos, em 2006, pela editora Quimera – e de outros autores relevantes no panorama nacional e internacional da poesia experimental. Esta doação coloca à disposição dos investigadores e estudiosos do experimentalismo, tanto no plano nacional como internacional, obras consideradas fundamentais, tendo em conta que Portugal esteve na linha da frente do movimento ao mesmo tempo que o Brasil e outros países da Europa.

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