rss Buscar

Sexta Poética 23

line


Casa

Tentei fugir da mancha mais escura
que existe no teu corpo, e desisti.
Era pior que a morte o que antevi:
era a dor de ficar sem sepultura.

Bebi entre os teus flancos a loucura
de não poder viver longe de ti:
és a sombra da casa onde nasci,
és a noite que à noite me procura.

Só por dentro de ti há corredores
e em quartos interiores o cheiro a fruta
que veste de frescura a escuridão. . .

Só por dentro de ti rebentam flores.
Só por dentro de ti a noite escuta
o que sem voz me sai do coração.

{David Mourão Ferreira}


David Mourão Ferreira{24/02/1927 – 16/06/1996}
David de Jesus Mourão-Ferreira foi um escritor e poeta lisboeta licenciado em Filologia Românica pela Faculdade de Letras de Lisboa, sendo mais tarde professor assistente da mesma Faculdade, cargo que abandonou em 1963.

«Quem foi que à tua pele conferiu esse papel
de mais que tua pele ser pele da minha pele»

No ínicio da sua carreira poética encontramo-lo ligado ao grupo da Távola Redonda, de que foi fundador e director e na qual se tornam proeminentes os seus méritos de crítico e, sobretudo, de poeta.

«Irrompe do teu corpo iluminado
toda a luz de que o mundo sente a falta»

Ganhador de varios premios, todos merecidos claro, foi escolhido para ocupar, na categoria de Membro Correspondente, a Cadeira número 5, da Academia Brasileira de Letras que pertence hoje a Mia Couto de Moçambique.

«É de longe que a vida nos aponta
É de perto que a morte nos aperta»

Autor multifacetado – poeta, crítico, ensaísta, contista, novelista, romancista, cronista, dramaturgo, tradutor, conferencista, polemista… Com incomparável mestria composicional, reina entre outros como mestre das palavras.

Otimo fim de semana pra você.

Fernando Pessoa – Poema do Dia: “Sou vil, sou reles…”- Leia!!!
Florbela Espanca – Poema do Dia: “Blasfémia” - Leia!!!

É bom ouvir de noite uma trompa de caça
Despir depressa a túnica da Lua
E descobrir o amor no forro de uma casa
onde apenas vibrava a memória da chuva

{“David Mourão Ferreira”}


25 comentários

line
  1. Nossa
    simplismente muito lindo
    magnífico poema

    “Procurei o amor, que me mentiu.
    Pedi à Vida mais do que ela dava;
    Eterna sonhadora edificava
    Meu castelo de luz que me caiu!”

    (Florbela Espanca)

    Bjos da -=Þëqµëñä Þö놡zä=- !!!

    line
  2. Bill, vim correndo para avisar que o indiquei como uma das sete maravilhas da blogosfera (lá no Falares).
    beijos

    P.S. Volto depois para ler e comentar

    line
  3. Wilian

    Mais uma apresentação grandiosa. Gostei demais. Aliás, me identifiquei mt. Lendo o poema me lembrei de alguém especial.
    Grande abraço e ótimo fim de semana a vc.

    line
  4. tb

    Vês do que falava há pouco? Disto mesmo. A escolha que fazes e a apresetnação dos poetas e poesia para além da radiosa apresentação das coisas/cores no teu blog. É bom vir aqui e por cá passear saboreando.
    Beijinhos

    line
  5. Bill.. adoro suas descobertas e o mais interessante é que vc nos dá todas as informações sobre o escritor.. adoro os releases que coloca… beijo blue

    line
  6. ricardo

    bom nunca tinha ouvido falar…como sempre…me sinto um inculto empre que venho aqui, mas muito bom a escrita dele…abraço

    http://vidacretina.zip.net
    http://noelevador.zip.net

    line
  7. Becka

    Eu só tenho uma pergunta bem simples:
    cadê o Bill?

    ;*

    line
  8. Saramar

    Bill eu que sou apaixonada por sonetos e os busco por aí, sempre encantada, acredito que este é um dos mais belos.
    Obrigada, querido, eu já disse tantas vezes, mas sempre quero agradecer esses presentes que você generosamente oferta.

    beijos, boa semana.

    line
  9. Senhorita Bill Pimenta

    Essas sextas poéticas são ÓTIMAS,é um aprendizado sem fim.
    David Mourão Ferreira eu já conhecia,lógico que foi você quem me apresentou,com aquele verso ali de baixo.

    “É bom ouvir de noite uma trompa de caça
    Despir depressa a túnica da Lua
    E descobrir o amor no forro de uma casa
    onde apenas vibrava a memória da chuva“

    line
  10. Eduardo Gonçalves

    O poema «Casa» de David Mourão-Ferreira é sem dúvida o melhor poema, de todos os tempos, escrito em Língua Portuguesa

    line

Deixe uma resposta