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Sexta Poética 20

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Orfeu do avesso

De pé sobre o abismo
e não morri:

Canto gregoriano
muito limpo
não me chegou:
o fim
Catedral
sobre o risco,
sobre um azul tão grande
que afundar-me podia
Ao fundo do mais fundo
mergulhei
e não morri:
amei

{Ana Luísa Amaral}


Ana Luisa Amaral
Ana Luisa Amaral é professora de professora de Literatura e Cultura Inglesa e Americana na Faculdade de Letras da Universidade do Porto.

«Mas como pode amor / ter nova arte, / se me roubaste o verso / e a palavra»

Nasceu em 1956, aos nove anos, mudou-se, por vontade alheia, de Sintra para terras do Norte (Leça da Palmeira).
Como era muito magrinha, estava em minoria e tinha acentuada pronúncia da capital, foi várias vezes atirada ao ar por colegas mais velhas da escola. Felizmente sempre apanhada a tempo, acabou por ficar amiga de algumas.

«Hoje, a saudade de ti: punhalada / de tinta muito branca, / o cheiro do que é novo, o cheiro da / doença a alastrar.»

Reinventando a tradição – como que a subvertendo, – a sua escrita poética de assomo feminino aborda a esfera doméstica tanto quanto as mitologia, tendo no avesso do quotidiano e na ars poética temáticas de eleição. A atenção ao pormenor, tantas vezes fazendo uso de uma gramática muito própria, valeu à sua obra poemas de grande fôlego criativo.

«Debaixo do fogão
só o silêncio frio»

Poesia culta e invulgarmente comunicativa, confessional e realista, irônica e discreta, que diz a banalidade doméstica e quotidiana sem cair na banalidade, num diálogo irônico que envolve, Ana Luisa Amaral é uma poeta simplesmente perfeita. (=

«Ao menos hoje acontece / algo de bom em nome de Deus»

Otimo fim de semana pra você.

Fernando Pessoa – Poema do Dia: “O Ocidente”- Leia!!!
Florbela Espanca – Poema do Dia: “O teu olhar” - Leia!!!

Faço eroticamente respiração contigo:
primeiro um advérbio, depois um adjectivo,
depois um verso todo em emoções e juras.
E termino contigo em cima do poema,
presente indicativo, artigos às escuras.

{“Ana Luísa Amaral”}


26 comentários

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  1. Julis

    Amigo amei os poemas dela. Bill terminei a terceira temporada de Lost.
    Que final foi aquele? ahahaha Tô besta até agora!

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  2. Wilian

    Bom conhecer mais um nome da poesia q era desconhecido p/mim, e com tão lindos versos. Gostei mt do post.
    Grande abraço e ótimo domingo.

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  3. Luma

    Grande novidade, não conhecia!! mas não me é estranho ler «Debaixo do fogão só o silêncio frio» Boa semana! Beijus

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  4. Mary

    Olá, olá!
    Não me canso de passar por aqui e ler sempre maravilhas, mesmo quando não deixo comentário eu passo, viu!
    Boa semana!!!

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  5. Com amor sempre nos tornamos mais fortes…Bjo e ótima semana pra tu!!!

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  6. freyja

    mucho tiempo sin visitarte querido amigo
    te felicito una vez mas por el bello trabajo que tienes que aqui, lleno de versos
    un abrazo muy grande y una linda semana
    besitos

    besos y sueños

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  7. Ai achei tão triste esse poema.. :(
    Big Beijos!

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  8. Amanda

    Ela me lembra um pouco a nossa Ana Cristina César, só que em versão mais, digamos, portuguesa? rs. A carga cultural do povo do Tejo marca toda a sua literatura, como um zeitgeist de Anatol, hehehehe…

    Imagino ela em contato com a PopArt. Wahrol. Ela tem o feeling moderno!
    Beijos, seu moço… E uma semana linda pra ti.

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  9. Olá Bill! Muito legal saber mais sobre a Ana Luisa Amaral. Gostei muito do estilo dela de escrever, achei bem suave….. ótima escolha pra um post! Bjokas!!!

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  10. Bailarina

    Ana Luisa Amaral,essa eu conheço mais um nome que me foi apresentado por você.Tem um poema dela que adoro,só que não consigo me lembrar direito hohoho chama-se um céu e nada mais.

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  11. Bill

    Um céu e nada mais

    Um céu e nada mais – que só um temos,
    como neste sistema: só um sol.
    Mas luzes a fingir, dependuradas
    em abóbada azul – como de tecto.
    E o seu número tal, que deslumbrados
    eram os teus olhos, se tas mostrasse,
    amor, tão de ribalta azul, como de
    circo, e dança então comigo no
    trapézio, poema em alto risco,
    e um levíssimo toque de mistério.
    Pega nas lantejoulas a fingir
    de sóis mal descobertos e lança
    agora a âncora maior sobre o meu
    coração. Que não te assuste o som
    desse trovão que ainda agora ouviste,
    era de deus a sua voz, ou mito,
    era de um anjo por demais caído.
    Mas, de verdade: natural fenómeno
    a invadir-te as veias e o cérebro,
    tão frágil como álcool, tão de
    potente e liso como álcool
    implodindo do céu e das estrelas,
    imensas a fingir e penduradas
    sobre abóbada azul. Se te mostrasse,
    amor, a cor do pesadelo que por
    aqui passou agora mesmo, um céu
    e nada mais – que nada temos,
    que não seja esta angústia de
    mortais (e a maldição da rima,
    já agora, a invadir poema em alto
    risco), e a dança no trapézio
    proibido, sem rede, deus, ou lei,
    nem música de dança, nem sequer
    inocência de criança, amor,
    nem inocência. Um céu e nada mais.

    {Ana Luísa Amaral}

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