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Sexta Poética 16

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Não existem imagens através desta sombra
a que chamo sombra mas não sei se é uma sombra
Apenas os arbustos nebulosos enunciam a monótona opacidade do real
alheio ao meu desejo do alvor de uma figura
Talvez nunca saiba desenhar o puro semblante
plácido e enigmático de fronte lunar
que um dia entrevi sob as pálpebras como um bálsamo de sombra
e de luz violeta Quis então oferecer não todo o meu corpo
mas a parte mais alta e subtil a esse rosto de mulher
e para sempre consagrar o que em mim é a atenção suspensa
sobre todas as formas do silêncio e o ténue e brando
sorriso que às vezes aflora ao meu lábio como flor de delgada inocência
Em cálida chegada de invasão tão suave de matizes tão leves
a doce primavera abriu os cálices de amendoeira do meu corpo
e em puro gozo em desvario suave entreguei-me à brancura
daquele corpo invisível de imaculada fonte
e bebi a água límpida e fresquíssima do seu seio
O que escrevo deveria ser o movimento de um músculo suave
e acender um fogo enternecido e delicado no silêncio do ar
ou ter o lento brilho do interior da água
ou não mais que um pulso ténue uma folha o segredo branco de uma estrela

{António Ramos Rosa}


António Ramos Rosa

Nascido a 17 de Outubro de 1924, António Víctor Ramos Rosa, é natural de Faro onde frequentou os estudos secundários que não chegou a completar devido a problemas de saúde. Desenvolveu interesse pela literatura lendo obras dos principais autores portugueses e estrangeiros e dando uma preferência especial aos poetas, enquanto exercia a profissão de empregado de escritório.

«Apreender com as palavras a substância mais nocturna/ é o mesmo que povoar o deserto/ com a própria substância do deserto/ Há que voltar atrás e viver a sombra/ enquanto a palavra não existe».

No ano de 1945, vai para Lisboa a fim de exercer a profissão de empregado comercial, que definitivamente era como que uma prisão à sua criatividade. Porém, dois anos depois regressa a Faro, onde se integra nas fileiras do M. U. D. Juvenil, tendo estado preso por essa militância.

«O tempo duro / com unhas de pedra
o tempo dos sonhos / sem coragem para poder vivê-los.»

O interesse constante que tinha pela literatura levou-o a relacionar-se com outros escritores. Começou a colaborar em numerosos jornais e revistas com alguns deles, aos quais o ligavam questões relacionadas com o papel do poeta e da poesia no mundo.

«Talvez a condição da liberdade seja esta abolição no branco
Que tornará possível a nudez de um começo o esplendor do novo»

A obra de António Ramos Rosa é muito vasta e variada, também se dedica às artes visuais, não só como ilustrador, mas expondo em galerias de arte, fez da palavra a sua missão e da poesia o seu compromisso, me encanta sempre o olhar original, inocente com que faz seus versos, danto voz ao siêncio que nem sempre podemos ouvir, está entre os meus mais queridos.

Otimo fim de semana pra você.

Fernando Pessoa – Poema do Dia: “Fragmentos 30″- Leia!!!
Florbela Espanca – Poema do Dia: “A voz da Tília” - Leia!!!

Para uma amigo tenho sempre um relógio
esquecido em qualquer fundo da algibeira.
Mas esse relógio não marca o tempo inútil.
São restos de tabaco e de ternura rápida.
É um arco-íris de sombra,quente e trémulo.
É um copo de vinho com o meu sangue e o sol.

{“António Ramos Rosa”}


28 comentários

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  1. mahina

    eu amei esse KIWI falsificado!!!!!
    isso que da ficar sem vir aqui…. Vou compemsar!!!! , )

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  2. Nilza

    Oi..Bill!

    Não dá pra cansar de ler seus post…

    Belo final de semana pra vc
    Beijos

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  3. mary

    Que beleza de post!

    “Para uma amigo tenho sempre um relógio
    esquecido em qualquer fundo da algibeira.
    Mas esse relógio não marca o tempo inútil.
    São restos de tabaco e de ternura rápida.
    É um arco-íris de sombra,quente e trémulo.
    É um copo de vinho com o meu sangue e o sol.“

    Adorei isso! =]

    Beijoss e um bom fds!

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  4. Beatriz

    Adorei sair daqui tão mais rica cultural e espiritualmente. Tens um blog espetacular e o seu cultivo é louvável

    abraço

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  5. Wilian

    Confesso que não conhecia, mas gostei de cara, tanto pelos textos postados quanto pelos fragmentos citados durante sua descrição da vida e obra do autor.
    Grande abraço a vc e um ótimo fim de semana.

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  6. “Tua resignação, ó minha sombra, encerra
    uma suave lição de ternura sem par:
    É que desceste, assim, à planura da terra
    Somente para que eu pudesse me elevar….

    Muitas, que te olharão ao sol do meio dia,
    hão de sorrir de ti, de teus fardos cruéis,
    Vendo-te humilde, quieta, pequenina,

    Como se nada fôsses noite e dia,
    estendida no chão, estirada aos meus pés….

    Eu, porém, que te vejo, à luz do meu sol-posto,
    quando a névoa da angústia cai sobre meu rosto;
    quando esmaece a luz dentro em meu coração,
    eu porém, te verei, em toda a minha vida,
    esplêndida e feliz, diante de mim erguida,
    projetada por toda a azul, infinita amplidão.”
    (Judas Isgorogota)

    Foi um prazer passar por qui, e, com certeza, voltarei mais vezes…

    []s lupinos

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  7. Olá Bill! Muito bom saber mais sobre Antonio Ramos Rosa…. sempre uma novidade, pelo menos pra mim, encontro aqui! Bjokas!!!

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  8. Natasha

    Adorei tudo. Te adicionei aos meus links.
    Beijos.

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  9. Kah

    A eterna luta contra o tempo.Lindo poema.Obrigado por nos trazer mais um grande poeta.Um beijo e lindo final de semana!!!

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  10. marie

    saudade.

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  11. Becka

    Olha que chique, o blog do Bill sendo indicado plo pessoal hein? ;]
    bom fim de domingo e ótima semana.

    =*

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  12. Anny

    Não conhecia e adorei. Bastante realista.

    Um beijo [:

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  13. line

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