rss Buscar

Sexta Poética 11

line


Salomé

Insónia roxa. A luz a virgular-se em medo,
Luz morta de luar, mais Alma do que lua…
Ela dança, ela range. A carne, álcool de nua,
Alastra-se para mim num espasmo de segredo…

Tudo é capricho ao seu redor, em sombras fátuas…
O aroma endoideceu, upou-se em cor, quebrou…
Tenho frio… Alabastro! A minha´alma parou…
E o seu corpo resvala a projectar estátuas…

Ela chama-me em Íris. Nimba-se a perder-me,
Golfa-me os seios nus, ecoa-me em quebranto…
Timbres, elmos, punhais… A doida quer morrer-me:

Mordoura-se a chorar – há sexos no seu pranto…
Ergo-me em som, oscilo, e parto, e vou arder-me
Na boca imperial que humanizou um Santo…

{Mário de Sá-Carneiro – Lisboa 03/11/1913}


Mário de Sá-Carneiro {1890-1930}
Escritor português, natural de Lisboa, inicia-se na poesia com doze anos, sendo que aos quinze já traduzia Victor Hugo, e com dezesseis, Goethe e Schiller. No liceu teve ainda algumas experiências episódicas como ator, e começa a escrever.

« Esta inconstância de mim próprio em vibração
É que me há-de transpor às zonas intermédias. »

É um dos nossos maiores poetas do Modernismo, talvez o que melhor exprime a cisão do sujeito na enunciação de si próprio e na formulação da sua percepção do mundo, ora deceptiva ao jeito simbolista-decadentista, ora inebriada pelas sensações e entusiasmos do futurismo.

« Quero dormir.., ancorar… »

A sua poética afasta-se de uma preocupação meramente formal da experiência literária, centrando nela embora o seu discurso, mas nela fundamentando as interrogações e a afirmação de anseios que dão sentido a uma existência que, no entanto as não encontra.

« Tombei…
E fico sé esmagado sobre mim!… »

Comecei a ler Sá-Carneiro quando estudava sobre Fernando Pessoa, foram grandes amigos e para entender melhor a obra desse poeta acho fundamental a análise das “Cartas a Fernando Pessoa“, que é de uma riqueza de detalhes impressionante.

A obra de Mário Sá-Carneiro está intimamente relacionada a sua vivência pessoal, ou seja, revela toda a sua inadaptação ao mundo e a constante busca do seu próprio eu. Era um gênio como o próprio Pessoa disse: « gênio não só da arte como da inovação dela ».

Otimo fim de semana pra você.

Fernando Pessoa – Poema do Dia: “Navio Que Partes”- Leia!!!
Florbela Espanca – Poema do Dia: “Exaltação” - Leia!!!

Eu não sou eu nem sou o outro,
sou qualquer coisa de intermédio :
Pilar da ponte de tédio
Que vai de mim para o outro.

{“Mário de Sá-Carneiro”}


19 comentários

line
  1. belíssima descoberta
    sempre q venho aqui tenho um novo nome a descobrir.

    ótimo fim de semana!

    “Invente seu próprio jogo. Faça o que for necessário para ser feliz. Mas não se esqueça que a felicidade é um sentimento simples, você pode encontrá-la e deixá-la ir embora por não perceber sua simplicidade. ”
    (Mário Quintana)

    Bjinhus da -=Þëqµëñä Þö놡zä=- !!!

    line
  2. Jackie

    Fez me recordar de uma época boa… hehehehe… eu era feliz e não sabia! Lindo post! Bjokas!

    line
  3. Luisa Mandou Um Beijo

    Mário de Sá Carneiro,entre tantos nomes que tem me apresentado esse foi um dos(10) que mais me encantou,muito bom.Gostei daquele “último soneto” que me mandou e de outras coisas dele que tenho lido.Obrigada viu,por me fazer ser menos tapada.

    line
  4. marcia

    mais do que um belo poema. mario de sa carneiro é o expoente do moderenismo portugues. sua alma esta contida nas suas estupendas obras. parabens por escolhe-lo.

    line

Deixe uma resposta