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Lago da Lua

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Ali parada no alto da colina, como um fantasma, ela observa o movimento inconstante da cidadezinha ao longe, sinais de fumaça das chaminés indicava que a preparação dos jantares já começou, a noite não demora a cair…
Com um olhar melancólico de alguém que ainda espera por algo que ha muito se foi, sempre olhando a estrada, olhando os bosques, ouvindo o vento, tentando ouvir uma voz nos sussurros das arvores.
Voltando para casa vazia, que a muito lhe serve de abrigo contra toda solidão que lhe afligi a vida, um chalé antigo, onde a arrumação impecável indica que o tempo era gasto nisso, uma mistura de sombras e de luz torna o lugar simples e uma mágica imagem, li ela arruma os retratos desbotados pelas lembranças e lagrimas de outrora.
A noite silenciosamente cai, nenhum vestígio de luz era vislumbrado, um silencio sepulcral toma conta de todo lugar, apenas uns poucos sons da natureza viva se espalhando pela noite.
Ela sempre acordava com os pássaros que traziam os primeiros raios de sol, um misto de alegria e esperança de um novo dia podia ser visto em seus olhos verdes, um brilho furtivo sempre a correr, se sentia alegre a cada manhã, como vontade de cantar com os pássaros, mais sua voz que se calará há muito tempo, não era ouvida nem mesmo por ela.
Arrumações rotineiras no pequeno chalé e a tarde sua caminhada de sempre por entre os bosques mais ao sul, indo ao encontro de um lago negro que ela mesma encontrou por acaso em uma noite que vagava sozinha a procura de si mesma, como pensou ser a única saber da existência do lago deu-lhe o nome de lago da lua, pois a primeira vez que o viu, a lua cheia refletia nele como um espelho, era como se a lua estivesse aqui na terra, dês de então todas as tardes ela vai se banhar no lago da lua, em suas águas negras, ali seus pensamentos se perdem e algumas lembranças tentam voltar, um sorriso sorrateiro em seu rosto moreno trás lembranças de quando era criança, que achava que o mundo era o maior dos mistérios, que tudo se podia, sonhos eram um mapa de tudo que se podia alcançar, pena que a vida lhe mostrou que não, que nem tudo nos cabe fazer, que o destino mesmo não sendo pré traçado por alguém, vez ou outra nos prega uma peça.
Ali passava suas tardes, voltando pra casa mais alegre e leve, procurando ervas pelo caminho…
Nessa tarde nem tudo foi igual, de longe avistou um vulto na varanda, quem poderia ser, não via nem falava com ninguém há anos, tanto tempo que nem se lembrava mais de todos que moravam na cidade e todos da cidade pareciam ter se esquecido dela também.
Com receio foi chegando escondida, tentando ver quem era, tal quando foi tomada por um susto tamanho que sua voz saiu, como um chiado agudo e baixo que ela mesma se assustou, de relance a sombra a viu, se moveu em sua direção e ela viu que seus olhos não a enganaram, era ele, que há tanto tempo tinha partido, que nem mesmo noticias ela teve durante anos a fio, estava ali, na sua frente, com rosto marcado pelo tempo e pela lutas de cada dia, lagrimas correram em ambos os rostos, lavando as faces paralisadas…
Assim ficaram por um bom tempo, sem se falar, somente se olhando, quando chegaram mais perto, ela o abraçou e assim ficaram ate o cair da noite e o nascer das estrelas, nenhuma palavra foi dita, ela não sabia o que dizer, ele menos ainda, queriam simplesmente ficar ali, sentir os dois corações que a muito estava afastados se sincronizarem na mesma batida, sentir que a vida vale a pena mesmo que nem tudo seja perfeito.
Quando a noite já estava solta e a lua os observava, os olhos se encontraram novamente e poucas palavras foram importantes, pois o que se ouvia sempre era, eu te amo, como um sussurro leve de folhas de outono caindo…



Isso ai, acho que sempre a vida segue, não para nem um segundo.

Ótima dia a todos…

“Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença. Mas às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: Quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida.”

{Clarice Lispector}


18 comentários

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  1. Clarice

    Lindo conto Bill. Talvez porque ela estivesse a espera o que desejava veio encontrá-la. A vida é sempre uma surpresa.
    carinhos

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  2. Drika

    perfeito o texto, Bill, que encontro maravilhoso à luz do luar, fiquei aqui sonhando, sonhando…

    E Clarice falando de saudade deu o lacinho que faltava no que tenho aqui no peito, neste exato momento…

    bjo pra vc!! boa sexta! :-)

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  3. Bill,que conto mais lindo.Perfeito,não sei o que comentar as palavras fugiram,adoro seus textos.Fiquei aqui viajando,”sentir os dois corações que a muito estavam afastados se sincronizarem na mesma batida,sentir que a vida vale a pena ,mesmo que nem tudo seja perfeito”.Beijo e ótimo sábado.

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