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Quando eu tinha doze anos

«Quando eu tinha doze anos passava todos os dias por aquele lugar; e a poucos metros da via entrava em casa de duas professoras francesas. Mas antes de atravessar a via gostava de parar a olhar para os carris; os quatro carris das duas vias faziam uma curva muito suave antes de se perderem atrás de uma cerca. E entretanto os carris esperavam, com o lombo ao sol, que lhe passassem por cima os monstros egoístas do caminho-de-ferro, que iam sempre a pensar na direcção que levavam. Depois os carris voltavam a brilhar perante a admiração de todas as ervas que tão aprazivelmente viviam rodeando-os.»

Felisberto Hernández


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Erro

Edifiquei minha
casa sobre a
areia

Todo dia recomeço

{ Eunice Arruda }


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Setembro

           &nbs p;      há muito tempo, no começo de uma noite de árvores já despidas, agitadas pelo vento de setembro, imaginei a tua vinda. havia uma indefinida inquietação na natureza, como se estivesse para se aproximar uma grande tempestade, e o horizonte colorira-se de tons assustadores. a electricidade tinha faltado, e havia velas tremelicando sobre as mesas, um certo sentimento de frio que nos fazia aproximar-nos das camas, enrolarmo-nos dentro das camisolas, como se esse fosse o preciso começo de mais um inverno, com tudo o que de irremediavelmente perdido ficava para trás, sobretudo os rostos iluminados pela intensa exaltação da luz. eu aquecia as mãos na fornalha do cachimbo, acariciava as folhas do livro que me tinha acompanhado durante todo esse mês, sentia-me lavado e com uma indescritível paz na alma. pela primeira vez na vida sabia-me completamente entregue a mim próprio, tal como as colinas que vira ao fim da tarde, espalhadas ao sol, amarelas e solitárias, sem qualquer sentido que não fosse multiplicarem-se até aos confins da minha retina, redondas e sempre iguais a si mesmas, perdurando de dia para dia e de século para século.
           &nbs p;      mas, dizia-te, nesse momento prenunciei a tua vinda. julguei mesmo saber quando me chamaste pela primeira vez, talvez num desses muitos sons ambíguos que tem o estalar de uma casa, e me disseste: prepara o caminho para o meu rosto. abre-te de par em par, como se fosses uma enorme folha de uma planta carnívora, distende-te todo como um animal dócil e devorador, apresta-te a teres os meus pés nus sobre o teu peito, os meus lábios elevando-se ao longo do teu sexo como as pétalas de uma flor vermelha de sangue.
           &nbs p;      assustas-me por me quereres assim, e por te acercares tão inesperadamente neste fim de dia de outono, como se uma nudez indecisa se aproximasse do meu leito sem eu lhe poder definir os contornos do olhar, pensei. sabes, nesta altura do ano os patos bravios migratórios já se encontram todos sobre o lago, e um tal anúncio pode causar-lhes a morte, ou pelo menos uma partida precipitada, e o sangue das suas asas ficar espalhado no meu peito. interrompes um pacto antigo que fiz com esta vida cómoda: a de poder sobreviver em troca de um pouco de ternura, das refeições às horas, do meu cachimbo pousado sobre o estirador, entre a elegância das lombadas dos meus livros, na certeza de estar construindo a obra que esperam de mim. tu vens de súbito tratar-me como um rapaz, abrir-me as cortinas de veludo do teu púbis com um sorriso azul, dizer-me que tudo começa agora, que deixaste crescer os cabelos para mim, e que eles te provocam uma sensação de crina nas nádegas, que queres correr.
           &nbs p;      como pudeste saber que era eu a pessoa certa? e sê-lo-ei? como intentas possuir a minha alma, assim por antecipação? como pudeste adivinhar que atravessei desertos, que no meu palato tenho a secura de cactos cujos espinhos se me enterram nas gengivas quando sorrio? não receias a minha voracidade, este apetite por te sugar toda, desde a saliva ao sangue, esta vontade de morte que me acomete, de te cortar pelo sexo, de te abrir como a um brinquedo, atirando as peças para os quatro cantos do quarto?
           &nbs p;      eu sei, marcaste encontro comigo num qualquer hotel, solitário e frio, onde chegarei sem bagagem e segurando com uma mão de suor o meu cartão de crédito. não teremos música, nem uma chávena de chá, nem interessará se lá fora chove ou se no passeio passa a figura da pessoa que outrora foi minha mãe. é suposto eu ter crescido, e não estou aqui nem para me explicar nem para finalmente te conhecer. estou aqui porque tu me insinuaste que querias possuir o meu olhar, com uma determinação clandestina. não te esqueças de fechas os vidros, porque estamos numa cave, e pode ser que lá fora seja veneza, que as vagas se agitem e venham entornar-se aqui dentro.
           &nbs p;      pode acontecer que a cama se transforme numa jangada e tu consigas matar-me, dar-me descanso no alto mar, quando chegar a hora em que o sol ruboresce as asas dos anjos que trepam, expeditos, às cúpulas das igrejas.
           &nbs p;      partir assim deste sítio terá de ser forçosamente inesquecível.

{ Vítor Oliveira Jorge – As arquitecturas sazonais }


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Dia Mundial do Livro



Dos diversos instrumentos do homem, o mais assombroso é, indubitavelmente o livro. Os outros são extensões do seu corpo. O microscópio e o telescópio são extensões da vista; o telefone é o prolongamento da voz; seguem-se o arado e a espada, extensões do seu braço. Mas o livro é outra coisa: o livro é uma extensão da memória e da imaginação.Em César e Cleópatra de Shaw, quando se fala da biblioteca de Alexandria, diz-se que ela é a memória da humanidade. O livro é isso e também algo mais: a imaginação. Pois o que é o nosso passado senão uma série de sonhos? Que diferença pode haver entre recordar sonhos e recordar o passado? Tal é a função que o livro realiza.
{Jorge Luís Borges}

Feliz!!!! Dia Mundial do Livro

Todo dia é dia de livro… hoje só é mais lembrando… Leia um trecho de algum livro hoje, deixe as palavras dançarem nos seus olhos.

«…e lança um olhar num livro que amas.
Começa assim um dia belo e útil»

{Bertold Brecht}

Ótimo dia pra você.

A arte é tudo – tudo o resto é nada. Só um livro é capaz de fazer a eternidade de um povo.
{“Eça de Queirós”}


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Maria Gabriela Llansol (1931-2008)



“Principal no seu silêncio”, direi, mais tarde,ao ouvido de trevas e de dor que me aproximaram da boca. Cor e ausência lutam no som crepuscular do sol que morre, e que os deixou sem luz acesa depois de fazerem amor; e o quadro erguido tem a estatura da fala, emoldurado por quatro peças pesadas de madeira ,pregadas nos cantos

{Maria Gabriela Llansol – in Um beijo dado mais tarde}


Causa-me certa dor, noticias assim…
A escritora Maria Gabriela Llansol faleceu ontem (03/03), aos 76 anos, na sua casa em Sintra.
De ascendência espanhola, nasceu em Lisboa e a sua carreira literária iniciou-se com “Os Pregos na Erva”, obra que para alguns inaugurou uma nova forma de escrever.
A autora é considerada uma das mais inovadoras escritoras da ficção portuguesa contemporânea.
Agora ela está além das margens e do silêncio ruidoso, fez a curva na estrada como disse Pessoa
Esteja bem doce Maria…

«Este é o jardim que o pensamento permite»

Simultaneamente, a ausência de dor cresce, mas é como um enleamento de alegria num lugar sombrio e húmido. O meu próprio corpo que, na impotência, se desvanece.
{“Maria Gabriela Llansol”}


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Simone de Beauvoir


Sartre disse-me um dia que tinha a impressão de não ter escrito os livros que desejava escrever aos 12 anos. “Mas afinal, por que privilegiar uma criança de 12 anos?”, acrescentou ele. Meu caso é diferente. Certamente, é muito difícil confrontar um projeto vago e infinito com uma obra realizada e limitada. Não sinto, porém, um hiato entre as intenções que me levaram a escrever livros e os livros que escrevi. Não fui uma virtuose do escrever. Não ressuscitei os reflexos das sensações, nem captei em palavras o mundo, como Virginia Wolf, Proust, Joyce. Mas não era esse meu objetivo. Queria fazer-me existir para os outros, comunicando-lhes da maneira mais direta o sabor da minha própria vida: mais ou menos consegui fazê-lo. Tenho grandes inimigos, mas também fiz muitos amigos entre meus leitores. Não desejaria nada mais do que isso.

{Simone de Beauvoir}


Ainda estou meio perdido com esse começo de ano, colocando a casa em ordem aos poucos, visitando os amigos já já tudo volta ao normal.
Acabei não postando no dia do seu centenário de nascimento, mas ainda em tempo…
Essa mulher nunca pode ser esquecida: Simone De Beauvoir {09/01/1908 -14/04/1986}

Ótimo dia pra você.

O segredo da felicidade e o cúmulo da arte é viver como todo mundo e ser como niguém

{“Simone De Beauvoir “}


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