rss Buscar

next page next page close

Sexta Poética 51



«Enquanto passo pela minha imagem, irrompem-me os cabelos. Tremem as pétalas redondas do meu corpo. As plumas sangram agarradas ao coração. E o perfume atravessa a minha flor. Sombrio aroma que pulsa, ocluso, liberto, pelos canais da rosa.»
{Herberto Helder}

Herberto Helder
Herberto Helder Luís Bernardes de Oliveira nasceu a 23 de Novembro de 1930 no Funchal, ilha da Madeira, no seio de uma família de origem judaica. Em 1946, com 16 anos, viaja para Lisboa para frequentar o 6º e o 7º ano do curso liceal. Em 1948, matricula-se na Faculdade de Direito de Coimbra e, em 1949, muda para a Faculdade de Letras onde frequenta, durante três anos, o curso de Filologia Romântica, não tendo terminado o curso.

«olhar é um modo de crescer em silêncio»

É um dos introdutores do movimento surrealista em Portugal nos anos cinquenta, de que mais tarde se viria a afastar. É o poeta mítico da modernidade portuguesa contemporânea, não só pela intensidade particular da sua obra (quer considerada em conjunto, quer na simples leitura de um único dos seus versos) mas também pelo seu estilo de vida discreto e avesso a todas as manifestações da instituição literária.

«Até cada coisa mergulhar no seu baptismo.
Até que essa palavra se transmude em nome»

Herberto Helder impulsiona a viva encantação das palavras, pouco a pouco, gole a gole, me embriaga, é considerado um dos mais originais poetas vivos de língua portuguesa, sua poesia atravessa várias correntes literárias, manifestando uma escrita muito singular e trabalhada.

«Algumas vezes amei lentamente porque havia de morrer
com os olhos queimados pelo poder da lua.»

Falar desse poeta é pra mim um prazer, é meu Poeta Eleito,Poeta que reescreve sem cessar, é criador / destruidor de uma gramática peculiaríssima, não sei dizer o que sinto quando leio, parece um encanto, uma mágia, a forma que ele brinca com as palavras, que pra muitos é siplesmente um amontoado de palavras, para mim é poesia da mais viva e pura.
Por isso, esse mês de maio, será o mês de Herberto Helder, um trecho por dia, durante todo mês.

«… Nem sempre me incendeiam o acordar das ervas e a estrela
despenhada de sua órbita viva.
– Porém, tu sempre me incendeias…»

Ótimo fim de semana pra você.

Fernando Pessoa – Poema do Dia: “31″ - Leia!!!
Florbela Espanca – Poema do Dia: “Maior Tortura” - Leia!!!

Há gente assim, tão pura. Recolhe-se com a candeia
de uma pessoa. Pensa, esgota-se, nutre-se
desse quente silêncio.
Há gente que se apossa da loucura, e morre, e vive.
Depois levanta-se com os olhos imensos
e incendeia as casas, grita abertamente as giestas,
aniquila o mundo com o seu silêncio apaixonado.

Amam-me, multiplicam-me.
Só assim eu sou eterno.
{Herberto Helder}


next page next page close

Sexta Poética 50



Encontrei o segredo, a chave de vidro
das palavras que escrevo; e tenho medo.
Talvez nos campos imensos, onde o lírio floresce,
na margem de rio que abriga, de manhã cedo,
os teus pés de ninfa, num engano de idade,
me tenhas visto à sombra de um rochedo;
e se os teus lábios, entreabertos num torpor
de romã, me tocaram num sonho bêbedo,
deles só lembro, imprecisos, fluxos
de incêndio numa hipótese de amor.

{Nuno Júdice}


Nuno Júdice
Licenciou-se em Filologia Românica pela Universidade de Lisboa e obteve o grau de Doutor pela Universidade Nova, onde é Professor Catedrático, apresentando, em 1989, uma dissertação sobre Literatura Medieval.

«Apenas uma coisa inteiramente transparente
o céu, e por baixo dele a linha obscura do horizonte
nos teus olhos»

Conselheiro Cultural da Embaixada de Portugal e Diretor do Instituto Camões em Paris, publicou antologias, edições de crítica literária, estudos sobre Teoria da Literatura e Literatura Portuguesa e mantém uma colaboração regular na imprensa.

«A parábola
capital a tua vida cortada ao meio, como se não
houvesse uma direcção única a prosseguir até ao
fim.»

Divulgador da literatura portuguesa do século XX, é um ensaísta, poeta, ficcionista e professor universitário, a sua estreia literária deu-se com A Noção de Poema (1972), com seus livros recebeu varios e importantes prêmios.

«Vi as mulheres azuis do equinócio
voarem como pássaros cegos; e os seus corpos
sem asas afogarem-se, devagar, nos lagos
vulcânicos.»

Seu amor pela poesia já é algo maravilhoso, sua vontade de levar a poesia para todos os lugares, de fazer com que ela seja vista, lida e sentida já é motivo para se elogiar esse poeta, mas para além disso, tem uma poesia forte e marcante, que nos faz suspirar e logo querer ler mais.

«O que é mais simples,
como o amor, ou o mais evidente dos sorrisos, não se
encontra no curso previsível da vida.»

Ótimo fim de semana pra você.

Fernando Pessoa – Poema do Dia: “25″ - Leia!!!
Florbela Espanca – Poema do Dia: “A um livro” - Leia!!!

Nem os dias longos me separam da tua imagem.
Abro-a no espelho de um céu monótono, ou
deixo que a tarde a prolongue no tédio dos
horizontes. O perfil cinzento da montanha,
para norte, e a linha azul do mar, a sul,
dão-lhe a moldura cujo centro se esvazia
quando, ao dizer o teu nome, a realidade do
som apaga a ilusão de um rosto. Então, desejo
o silêncio para que dele possas renascer,
sombra, e dessa presença possa abstrair a
tua memória.
{“Nuno Júdice”}


next page next page close

Sexta Poética 49



Algo se me assemelha
e me quer para si

me desembainha
quando menos espero

Distorção do espírito
para a morte

como o corpo num salto
irremediavelmente
lento
e
alto

{Luiza Neto Jorge}


Luiza Neto Jorge – {Lisboa, 1939 – Lisboa, 1989}
freqüentou a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, mas desistiu do curso e foi viver para Paris, onde permaneceu durante oito anos (1962-70). Ainda hoje é considerada a personalidade de maior destaque do grupo de poetas que se reuniu em torno de Poesia 61..

«As casas fluem de noite
sob a maré dos rios»

Consciência feminina da escrita e invenção de uma poesia crua em que o corpo da linguagem se confunde com o corpo do sujeito poético são alguns traços a destacar na sua escrita.

«Quebrou-se a cadeia do sangue
o filho que nos habitou
já se despediu»

Além de poetisa, desenvolveu intensa atividade no domínio da tradução na qual deixou uma obra inigualável, também escreveu para teatro e cinema.

«Há feridas cíclicas há violentos voos
dentro de câmaras de ar curvas
feridas que se pensam de noite
e rebentam pela manhã»

Revolucionária dos poemas como dizem alguns, sua expressão poética é arrebatadora, linguagem moldada com maestria fazendo nascer os mais lindos poemas, não só recomendo como acho essencial para quem gosta de poesia, conhecer a obra dessa grande mulher.

«no cais dos barcos pequenos de papel
somos irmãos de ninguém
ancorámos com amarras de dúvida»

Ótimo fim de semana pra você.

Fernando Pessoa – Poema do Dia: “15″ - Leia!!!
Florbela Espanca – Poema do Dia: “Só″ - Leia!!!

Seu ventre abarca
um acrobata
a ensaiar
o mortal

Contorcionista
que se enrola qual
caracol
{“Luiza Neto Jorge”}


next page next page close

Sexta Poética 48

João-Maria Nabais


O silêncio nos invade
quando o teu olhar se afasta
e se despe, em local incerto.

Tu ausente, desamparada, só,
qual criança envergonhada e triste
como uma flor, perdida no deserto.

Uma lágrima tua, desliza
pura gota de orvalho esquecida,
guardada no silêncio da memória.

E mais outra hora passou
com o nimbo da noite invadindo o sono,
numa madrugada sem glória.

{João-Maria Nabais}


João-Maria Nabais
João-Maria Mendes de Abreu Cabral Nabais, Licenciatura em Medicina e Cirurgia, Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa 1974; Grau de Assistente Hospitalar de Pediatria Médica dos H.C.L.; admitido no Colégio das Especialidades de Pediatria Médica, da Ordem dos Médicos.

«olhar cego
invisível
suspenso num tempo
absurdo
de histórias
simples de encantar»

Integra o Núcleo de Pedopsiquiatria; Grupo de Fundadores da revista literária SOL XXI e da Direção da Associação Cultural SOL XXI. Há vários anos que colabora regularmente com a sua escrita, para diversas revistas e jornais.

«à volta de mim o branco silêncio da roupa»

É um médico poeta, com seus 15 livros de poesia, nos quais nos perdemos em suas doces palavras, tem uma poesia de forte expressão lírica, seus versos tem uma levada encantadora como sorriso de uma criança.
É poeta maduro, trilhou caminho da poesia cadenciando sempre com muito talento as palavras.

«atento o olhar
a este quase silêncio
de peculiar ausência»

Ótimo fim de semana pra você.

«Uma manhã nasceu,
de nevoeiro e cinzas,
perdida no rumor
de barcos à deriva,
sem mastros, nem vida.»

Fernando Pessoa – Poema do Dia: “Hino A Pa” - Leia!!!
Florbela Espanca – Poema do Dia: “Sonhos” - Leia!!!

E um secreto milagre
me seduziu
o sangue
se liquefez em orvalho
ao ver fugir
a estrela da madrugada
no silêncio da memória
do primeiro dia da minha vida
{“João-Maria Nabais”}


next page next page close

Sexta Poética 47

Fotografia de João Carlos Santos (Expresso)


Por um rosto chego ao teu rosto,
noutro corpo sei o teu corpo.
Num autocarro, num café me pergunto
porque não falam o que vai
no seu silêncio aqueles cujo olhar
me fala da solidão.
Esqueço-me de mim. Tão quieto
pensando na sua pouca coragem, a minha
sempre adiada. Por um rosto
chegaria o teu rosto, mesmo de um convite
e desenha no ar o hábito
por que andou antes de saíres
do espaço à sua volta. Estás longe,
só assim podes pedir algumas horas
aos meus dias. Sem fixar a voz
a tua voz é uma corda, a minha
um fio a partir-se.

{Helder Moura Pereira}


Helder Moura Pereira
Nasceu em Setúbal, a 7 de Janeiro de 1949. Foi professor no Ensino Secundário e Assistente da Faculdade de Letras de Lisboa (Departamento de Estudos Anglo-Americanos). No King’s College da Universidade de Londres, como leitor, ensinou Literatura Portuguesa.

«E a manhã
perde a luz
que só havia nas palavras.»

Ja publicou perto de três dezenas de livros de poemas, esstreiou em 1976 (com o mítico Cartucho), tem sido responsável por uma obra vasta e de renovados modos poéticos.

«… Queria
prender-te, tornar a perder-te, achar-te
assim por acaso no meu dia livre a meio
da semana…»

Surgido num momento consabidamente fulcral para a poesia portuguesa, Helder soube, com uma voz própria, desde os primeiros livros, construir um caminho desbravado por uma dicção diversa de muito do que desde então se faz.

«Oiço o teu sono distante/ numa cidade ainda mais distante»

Uma poesia forte, doce para os olhos e para a alma.

«Meu vento de luz, alegria
de folhas no rosto, estampas
na pele.»

Ótimo fim de semana pra você.

Fernando Pessoa – Poema do Dia: “Passos Da Cruz” - Leia!!!
Florbela Espanca – Poema do Dia: “Talvez…” - Leia!!!

As coisas demoram o que eu não
queria…
… Desapareço
enfim…
E se houver um olhar a ir ter
com o vagaroso afastamento é só
uma razão de despedida…
… Esse precipício olhado
pela certeza de haver, o já perdido
encanto dos dias a perder-se…
{“Helder Moura Pereira”}


next page next page close

Sexta Poética 46



Dois Segredos

Ouço tudo e mais
do que dizes.
Escuto além da palavra:

o som crepuscular
do silêncio mais vasto.
Ouço tudo:

reticências
suores
bater de cílios
os dedos
o estremecimento da grafite
o lento desenhar da tua sílaba

{Luísa Ribeiro}


Luísa Ribeiro
Maria Luísa da Cunha Ribeiro, nasceu em 12 de agosto de 1960, em Angra do Heroísmo, nos Açores. Em 1985 ganhou o 1º prêmio num concurso literário para jovens, promovido pela Direção Regional de Cultura, com o manuscrito Fogo Branco, publicado em Maio de 1986.

«secaram os campos amáveis
da tua carne e agora
só posso chorar para que neles
nasça uma louca flor»

Uma das vozes mais destacadas da nova literatura açoriana, tem sido poeta da sombra. De si diz:

«sinto pudor e guardo o que escrevo; não gosto de sessões de lançamento de fato e gravata; gosto de estar na sombra; gosto de estar no nevoeiro; a única maneira que tenho de falar de mim é escrevendo»

Também escreve contos (maravilhosos), publica esporadicamente em revistas literárias como Alhucema, Storm-magazine e Seixo Review ou em jornais regionais. Em 2004 fez uma Ex-Posição de poesia, no Centro Cultural de Angra, intitulada “Uma pequena porção de noite”.

«Às vezes
Poderosas vezes
Penso no azul indecifrável
Que escorre das palavras
E me envolve
No lugar escondido do sonho.»

Poesia em flor, cheia de perfume que nos faz sonhar com cada palavra, um olhar romântico que nos abraça a cada verso. Simplicidade e a concisão criando uma beleza lírica sem igual.

«pouso na árvore do teu corpo
e é como se as tuas raízes
envolvessem o meu coração
embriegado»

Ótimo fim de semana pra você.

«Gostava de te chamar um superlativo
subtrair-te os limites do nome
ter um acrónimo

pô-lo ao peito
em jeito de colar»

Fernando Pessoa – Poema do Dia: “Passos Da Cruz” - Leia!!!
Florbela Espanca – Poema do Dia: “A Anto!” - Leia!!!

O vento empurra-te para mim, transformado em
folhas caídas – escrita anónima do tempo.
É Outono. O pátio está já carregado de ti.
E o meu corpo recebe-te, enquanto viajo, ao som do
tango que estremece na escuridão dos teus olhos.
{“Luísa Ribeiro”}


next page

Sexta Poética 51

«Enquanto passo pela minha imagem, irrompem-me os cabelos. Tremem as pétalas...
article post

Sexta Poética 50

Encontrei o segredo, a chave de vidro das palavras que escrevo; e tenho medo. Talvez...
article post

Sexta Poética 49

Algo se me assemelha e me quer para si me desembainha quando menos espero Distorção...
article post

Sexta Poética 48

O silêncio nos invade quando o teu olhar se afasta e se despe, em local incerto. Tu...
article post

Sexta Poética 47

Por um rosto chego ao teu rosto, noutro corpo sei o teu corpo. Num autocarro, num...
article post

Sexta Poética 46

Dois Segredos Ouço tudo e mais do que dizes. Escuto além da palavra: o som...
article post