Jaime…

Janeiro 16th, 2008


… por detrás da coluna que o protegia naquele recôndito da gare ferroviária, confirmou que excepto a magricela que de costas voltadas para a entrada e rodeada dos seus atavios ali se injectava, dificilmente mais alguém o veria.
Ouviu o silvo do Expresso do Sudoeste aproximando-se a grande velocidade, rivalizava com o mambo debitado pelas colunas sonoras, e, embora tudo aquilo lhe parecesse sem sentido, sabia ser o momento para que se tinha preparado. Sentindo a vibração recuou um passo, com um último olhar furtivo confirmou a desatenção do resto dos utentes e, no preciso momento que com brusquidão os aços do Expresso furavam a gare, Jaime esgotado e deprimido, num gesto acoitado, acendeu o cigarro.
O grito trágico que alertou toda a gare e desembestou Jaime dali, veio da desgrenhada magricela que de garrote pendurado e seringa em punho, indicava o local onde alguém ousava fumar.

Espreitador.

Também publicado aqui.

Categoria: Contos

17 Comentários Comente você tambem.

  • 1. Bill   

    E a casa se ilumina novamente… Palavras cantantes por todo lado.

    Caça aos fumantes chega a esse ponto… Lírico…

    E lá ficou somente uma leve fumaça…

    O saudades de seus contos (=

    [s]s

  • 2. piano   

    e aqui esta a diferença.enorme. entre quem sabe ver ouvir e contar e “inventar”…:) numa imagética delirante…mas que traduz o excesso.

    e
    entre quem apenas sabe ler.
    e deliciar-se.

    eu.

    _____________beijo.

  • 3. tb   

    Cá está a arte de quem sabe transformar olhares em letras e frases bonitas de se ler. :)
    Beijinhos saudosos

  • 4. Maite   

    Caro PiresF

    Uma boa história para ilustrar a expressão “só dá pelo argueiro nos olhos dos outros e não vê a trave no seu”

    Gostei de retornasse aos contos :)

    Uma boa noite para si

  • 5. Mirian Martin   

    Poxa… o que tem contra as magricelas? ;)
    Eu não saberia delinear tão bem uma cena como você o fez. Ouvi todos os sons!

    Abraços

  • 6. Barqueira   

    Um prazer reencontrar-me contigo na onda dos contos. Obrigada.
    Boa Páscoa. :)

  • 7. Mab   

    Um grito elouquecido, e o ruido da estação.
    Que paisagem sonora bem conseguida!

  • 8. Barqueira   

    E cá estou a esperar por mais. :)

    Bjs

  • 9. Mab   

    Estou com a barqueira!!!!!!!!!!!!!!

  • 10. karvoeiro   

    saraba!

  • 11. Miguel - A SEIVA   

    Belo! PiresF, espero ansioso por um novo, já vai na altura, não?
    Abraço.

  • 12. Biazinha Frusca   

    Suas palavras parecem a ponta de um lápis a desenhar toda a cena.
    Abaixo o tabagismo!

    Beijos, tio.

  • 13. Ressaca   

    Pedindo antecipadas desculpas pela “invasão” e alguma usurpação de espaço, gostaríamos de deixar o convite para uma visita a este Espaço que irá agitar as águas da Passividade Portuguesa…

  • 14. Vera   

    Seus contos são ótimos.

  • 15. António Serra   

    …Cheguei até aqui vindo por caminhos mais ou menos “sinuosos”.
    Em boa hora o fiz. Gosto do que já vi e fica uma vontade imensa de regressar sempre que possa.

    Um obrigado e parabéns!…

    PS - Vai passar a ser um dos meus “blogs” de referência.

    António Serra

  • 16. Betty   

    .__________adorei

    chegar até aqui

    .e

    sentar-me no “sofá”

    traduzindo _____todas estas histórias

    de excelente “conto”

    .parabéns:=)

    _______________///

    __________________beijOs

  • 17. PiresF   

    Senhora Dona Betty Martins, se pensou que eu ficaria agradecido com o seu elogio, desengane-se. Não fico agradecido por nenhuma palavra de quem tem o pretenciosismo de adjectivar os outros e não consegue encaixar uma critica, assertiva, admito, mas com conteúdo de opinião e educada. Depois, sou ingénuo mas não tanto, topo os mitómanos famintos de atenção à légua assim como os que não aprenderam as regras da mais básica educação e passam a vida a apontar o dedinho acusador.

    Nós não somos só as palavras que saem em determinada altura, somos também o que fazemos e o modo como o fazemos.

    Por isso lhe peço a bem da minha coluna vertebral e porque ser policia dos valores morais dos outros não vai bem com o meu estilo de vida; desampare-me a loja, poupe-se ao trabalho de voltar a passar por aqui, dispenso os seus comentários por mais elogiosos que sejam e, quantos aos beijos, vamos lá a ver isso, nesta altura um pouco mais de cerimónia e recato, há-de convir que só lhe ficava bem.

    Passe bem que eu não consigo odiar ninguém, mesmo quem me fode o juízo.

    PS: E se lhe respondo agora é para que fique bem claro que se até aqui chegámos, que não volte mais a cheirar onde não é chamada e que procure outro alvo para as suas fobias particulares.

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