O Achado do Espaço Suspenso.

Julho 3rd, 2007

Jaime De La Cruz, homem de estatura mediana, corpo firme, queixo resoluto e já entrado na idade, imigrara dos EUA há 15 anos. Costumava dizer com voz grave e num ingles espanholado que, tinha trocado San José no Condado de Santa Clara por Cascais.
A fortuna que se lhe reconhecia, tinha-a feito em San Francisco, onde adquirira um refinado gosto para os objectos, como o Mercedes 300 SL Gullwing de 54 que usava nos seus passeios pelo Guincho, ou o Aston Martin DB6 que utilizava quando era forçado a deslocar-se a Lisboa.

A história que vos conto, teve a sua origem quando Jaime De La Cruz fazia o habitual passeio matinal de oitocentos metros que, eram duas larguras da Praia da Adraga, sempre que o tempo permitia.

Era cedo e não se via vivalma quando estacionou o Mercedes SL Gullwing. Daí a pouco, nessa manhã de fim de verão, e após iniciar a caminhada com que gostava de começar o dia, surgiu o inesperado: ali, junto aos seus pés, a meio dos quarenta metros que a maré alta tinha ocupado no areal, estavam alinhadas com o Oceano duas belíssimas canetas. Surpreendido, baixou-se para verificar se o achado não passaria de uma visão, e, mais surpreendido ficou quando as analisou cuidadosamente: Uma Visconti Wall Street Limited Edition e uma Aurora Diamont. Jaime De La Cruz nem queria acreditar no insólito achado. Sabia o que tinha nas mãos. Para além da beleza que qualquer um veria, eram certamente, um sinal para voltar a escrever.

Tinha amealhado um pecúlio considerável a escrever para outros. Nesse tempo, escrevia com a alma perto da palavra, conhecia o valor desta, e isso dava-lhe a tal chispa que a outros faltava. Infelizmente esse gosto tinha-se transformado em fadiga, mas agora, ali estava o sinal, veria se não tinha perdido a mão. Olhou as horas no seu Jaeger-Le Coultre Reverso Grand Sport que, só usava para os passeios matinais e que, trocava pelo Audemars Piguet Royal Oak Concept assim que chegava a casa, e considerou que era tempo de regressar para analisar em recato o excelente achado.

Chegou mais cedo que o costume, dirigindo-se rapidamente ao escritório. Reparou que, a senhora De La Cruz franzira o sobrolho à sua passagem, mas nada lhe disse. Ali chegado, sentou-se à secretária e alinhou as novas canetas com as antigas que há muito o acompanhavam; uma Columbus Progetto e uma Platinum Presidential Tri Color que muito dinheiro o ajudaram a ganhar.
Abriu a caixa dos charutos e entre um elegante Gotham Selection No. 65 e um Trinidad de calibre 38, que comprava na Casa Havaneza e eram as únicas razões para as suas vindas a Lisboa, achou que a solenidade do momento merecia este último. Não usou a guilhotina Hillwood que a senhora De La Cruz lhe oferecera no último aniversário, gostava de cortar a ponta dos charutos com os dentes e sempre que ela não via era assim que o fazia. Rodou o charuto lentamente enquanto a chama do fósforo de madeira de cedro o acendia de forma conveniente. Soprou suavemente na ponta em brasa para se certificar que estava a queimar de forma homogénea e deu inicio à primeira puxada.

Desmontou as “novas” canetas, limpou-as cuidadosamente, renovou a tinta e ensaiou o aparo da Aurora Diamont. Nada. Não escreve, pensou desagradado… algo me escapou. Tentou a Visconti Wall Street e, incrédulo, verificou que a zona onde o aparo passara havia desaparecido. Jaime De La Cruz largou a caneta assustado.
Recostou-se no cadeirão e deu inicio a uma longa puxada no Trinidad de calibre 38 sem saber o que pensar.
Passados alguns minutos e recobrada a serenidade possível, repetiu o gesto com a Visconti Wall Street, verificando que, o desaparecimento da zona onde o aparo passava não era imaginação sua.
Após ter feito desaparecer um terço do bloco, tentou de novo a Aurora Diamont, verificando, num gesto descontrolado pelo inconformismo que ultrapassou a parte visível do bloco que, esta, tinha a função de fazer reaparecer o que a Visconti Wall Street fazia desaparecer. Esta certeza, alicerçada nas diversas tentativas que incluíram partes da secretária e vários objectos do escritório, era firme e ao mesmo tempo incómoda.

Jaime De La Cruz, colocou cuidadosamente as tampas nas canetas e pousou-as, agora, a uma distancia cuidada das outras, fechou, contra o que era costume, a porta do escritório à chave e atravessou de novo a sala sem sequer olhar para a senhora De La Cruz. Precisava pensar no que estava a acontecer e nada melhor que voltar ao local.

Escolheu o Aston Martin DB6 e pouco tempo depois avistava de novo a Praia da Adraga. Parou o carro e verificou que já por ali andavam alguns surfistas. Caminhou até ao local onde tinha achado as canetas e sentou-se com o olhar na espuma das ondas.
Por ali ficou até que a maré alta o obrigou a levantar, pouco importava, já tinha decidido o que fazer.

De regresso a casa fechou-se à chave no escritório, desta vez não se cruzara com a senhora De La Cruz e ficou feliz por isso, ela era uma mulher de imaginação pouco audaciosa, de ambição singela e por obstinação quase não falava. Sentou-se no cadeirão e resolveu dar inicio à experiência. Tirou a tampa da Aurora Diamont, repetiu o gesto na Visconti Wall Street e alinhou-as perpendicularmente ao seu corpo no tampo da secretária. Pegou então na Visconti Wall Street e desenhou algumas linhas paralelas no seu braço esquerdo, verificando que a zona de intervenção desaparecera, rapidamente, pegou na Aurora Diamont e repetindo os gestos anteriores fez com que tudo voltasse à normalidade. Tinha resultado como pensara, restava saber o que fazer com tal descoberta.

Nos dias seguintes, as experiências de Jaime De La Cruz percorreram um caminho sinuoso e pouco recomendável. Um dia, no recato do escritório onde agora passava os dias, tinha feito desaparecer três quartos do seu corpo, e descobrira que não sabia para onde iam as partes desaparecidas, deixava de as sentir e, mais estranho ainda, de lhe fazerem falta, como por artes mágicas, como uma viagem num espaço suspenso.
Lera em tempos que, o regresso do principio era feito sob formas múltiplas e variadas, em círculos de renascimento sucessivos a que, os homens e até os deuses, estavam sujeitos enquanto não fosse atingido o estágio ditado pelo seu karma. Essa visão de metamorfose que, na Índia, se conhece pela intraduzível expressão de samsâra, tem por objectivo atingir o Nirvana; estágio que os libertará após a extinção do ser; uma auto-estima onde cessa a ideia de personalidade e a alma se extingue no nada dando lugar ao não ser, não havendo então nada para renascer, e essa ideia espiritual que lhe ficara das leituras de Rabindranath Tagore não o seduzia, nem tão-pouco lhe apetecia discorrer sobre ela.
Pensou ligeiramente no uso que a medicina poderia fazer com este conhecimento, fazendo desaparecer alguns males que atacam o corpo humano, mas ele, Jaime De La Cruz, não tinha tido tempo para ser novo e, estimulado pelo ávido interesse pessoal e motivado por um inexpugnável egoísmo, estabeleceu o seu patamar de perspectivas num movimento de fuga.
A realidade com os seus símbolos e valores imutáveis pouco lhe interessava, eram ambivalentes e por isso susceptíveis de várias interpretações e ele estava-se nas tintas para este coeficiente temporal.

Tudo isto fervilhava na sua cabeça de forma insustentável, sendo demais para o viver sozinho, assim, resolveu, não partilhar, mas conquistar a admiração da senhora De La Cruz, pessoa desprovida de qualquer acto extraordinário.
Encontrou-a na zona oriental, seguindo a pequena vereda que levava à parte detrás do jardim. Ali, junto ao pequeno lago artificial que um Acer Palmatum quase cobria como se um tempo suspenso reinasse, lá estava, com aquela camisa de amarelo berrante que ele detestava.
Sentou-se e a senhora De La Cruz ouviu o marido contar-lhe a história mais incrível que alguma vez ouvira e, no final, disse-lhe que gostava muito e dava graças por ele voltar a escrever. Zangado, Jaime De La Cruz gritou-lhe exasperado que aquilo não era nenhum conto nem ele tinha voltado a escrever. A senhora De La Cruz franziu o sobrolho e a sua boca desenhou um sorriso que ele bem conhecia. Agarrou-a por um braço, e enquanto lhe dizia que ia provar o que lhe contara, arrastou-a até ao escritório.

Sentada à sua frente assistiu à exibição dos poderes daquelas canetas, até que, tendo Jaime De La Cruz confirmado que o seu público, para além de rendido, assistia estupefacto aos seus poderes, resolveu ir mais longe: pegou na Visconti Wall Street com a mão esquerda e traçou uma linha que ia do pescoço até à virilha, depois, em movimentos sucessivos e seguros, fez desaparecer todo o lado direito do corpo excepto as pontas do polegar e indicador direitos. Olhou para o ar incrédulo da senhora De La Cruz sentindo um gozo desmesurado e pensou: agora é que lhe vai dar um treco… mudou a Visconti Wall Street para o que tinha sobrado do polegar e indicador direitos e começou a trabalhar o lado esquerdo do corpo. Pouco tempo depois quando de novo olhou para a senhora De La Cruz que exibia uma expressão rendida, só restavam um par de olhos e os bocados do polegar e indicador direitos, decidiu-se então por um happening à sua altura, fazendo desaparecer os olhos.
Nesse momento o sorriso da senhora De La Cruz esvaziou-se, os lábios traçaram duas linhas de sobrenatural desdém enquanto os olhos se abriam até ao limite, e, com gesto maléfico, num ápice retirou a Visconti Wall Street dos pequenos cotos que a seguravam fazendo-os em seguida desaparecer.

Sentou-se no cadeirão antes ocupado pelo marido, abriu a caixa dos charutos e escolheu um Satisfaction de calibre 46 da marca mexicana Te-Amo. Usou a guilhotina Hillwood, deu a primeira puxada e recordou uma frase de Novalis: “se avistares a sombra de um gigante, procura a posição do sol e verás que o gigante é a sombra de um anão”, e um pensamento enfadado escorreu-lhe audível boca-fora: finalmente…

Espreitador.

Categoria: Contos

18 Comentários Comente você tambem.

  • 1. Mendes Ferreira   

    bom…e lá fiz asneira…:)))) tou mesmo pitosga…escrevi e não vi que tinha um código…e foi-.se…

    _____________para redizer a evidência: escrever assim não é para todos!!!!!!!!!!

    prazer imenso de o re.ler. assim. de novo.

    obrigada.

    beijo com beijo.

  • 2. PiresF   

    Querida amiga Isa!

    Descontando a adquirida e sólida amizade, esse elogio vindo de quem vem: pessoa que tão bem domina o verbo, é deveras reconfortante.

    Um sentido agradecimento e um enorme abraço.

  • 3. Mendes Ferreira   

    não não é amizade….amizade é vir aqui.

    ler e reconhecer o talento descritivo/imagético
    é pura realidade.

    ___________________e tb. “inveja”. da não saber assim dizer…:)))))

    enorme abraço.

    sempre!

  • 4. Bill   

    Ohhh ó.Ò
    Depois de ser levado por descrições perfeitas e que prendem atenção e de imaginar a magia se fazendo na ponta da caneta tu me faz um final assim…
    Danada essa dona… Onde antes se vê calma, pode existir um vulção…

    Simplesmente perfeito!!! Adorei.
    Vou reler x)

    [s]s

  • 5. Maite   

    Que dizer?!

    Espere aí…já sabe que eu tenho sempre de dizer qualquer coisa :)

    Parecia um conto “leve” à volta dos “haveres” de um self-made man (gostei das descrições) que gostava de escrever contos. E depois…bem, inesperadamente…uma tragédia. Pensando melhor há certos achados que devem ser guardados à chave, não vá uma mente perversa (como a da sra De La Cruz) apoderar-se deles e usá-los em benefício próprio.

    Caro PiresF
    Gostei de ler o seu conto. Bolas, estava a ver que a Rua dos Contos nunca mais reabria. :)

    Abraço e uma excelente noite para si

  • 6. cvalente   

    Andando a navegar como sempre aqui passei, hoje deixo mensagem, como sempre gostei
    Saudações

  • 7. tb   

    Não poderia ter melhor achado do que este magnífico conto tão bem contado por quem sabe escrtever assim…
    Que felicidade ver que reabriste este espaço há tanto tempo fechado.
    (tinha escrito outro comentário, mas com aquele código que não vi, ele foi-se. Enfim… coisas)
    Grande abraço

  • 8. KLATUU o embuçado   

    Bela narrativa! Uma parábola com múltiplas e políticas aplicações… :)

    Abraço, amigo Pires.

  • 9. Outsider   

    Olá amigo Pires! Tu voltaste enquento que eu desapareci, mas agora espero conseguir voltar a visitar regularmente os amigos.
    Quanto a este conto, só posso dizer que é magnífico. A mestria da tua escrita, transforma num verdadeiro prazer a leitura. Até me apeteceu saborear um daqueles charutos… Já tinha saudades dos teus textos.
    Um grande Abraço meu amigo.

  • 10. APC   

    Está espectacular!!!

    Toda aquela fixação pelas marcas (comecei por olhar de esguelha, confesso) oferece nobre ajuda a um estilo literário sóbrio, lindamente cortado depois pelos laivos de imaginário que são, aliás, a história a contar…

    O brilhantismo acontece, quando resolves começar num mero ponto de trivialidade, para desenvolveres a história em ciclos de mistério, terminando em adorável ironia!

    Há muito que te não lia. Creio até que nunca te lera com tempo e alma. Hoje procurava no Google por trilhos da Serra de Sintra, e fui parar a um blog onde te vi comentar… E lembrei-me de te visitar. Em boa hora o fiz, que saio daqui com a noção de tempo muito bem empregue, sou-te sincera.

    Termino, partilhando contigo este pequeno detalhe: ante a frase “para além de rendido, assistia estupefacto aos seus poderes”, dei por mim a achar que [o público - a esposa] estaria estupefacto e rendido (num mesmíssimo nível temporal e causal), senão mesmo rendido de [porque] estupefacto; pelo que as orações não deveriam ser consecutivas nessa ordem (mais a mais, acabas por repetir o termo “rendido” à frente).

    [E ok, suponho que possas ter querido dizer que, para além dela se ter, finalmente, rendido, no sentido de aceitar assistir às mostras de magia e de dar um crédito ao marido, estava agora também aparvalhada com tais efeitos - mas da leitura nãome ressoou assim].

    … Mas isso é apenas uma mínima observação de estilo, por entre um longo texto, tão interessante e - incontestavelmente - tão bem escrito!

    Olha, conheces? - Deverias conhecer:

    http://www.minguante.com/

    Ah… E que bons tempos, os da Praia da Adraga!… Soubesses tu o quão feliz fui lá! :-) ))

    Um abraço para ti, já com votos de boas férias!
    E até breve :-) ))

  • 11. PiresF   

    Meus amigos!

    Fica um agradecimento a todos os que comentaram e o meu pedido de desculpas por não ter respondido aos comentários. Acontece, que não tenho acesso a este blog a partir do meu PC, visualizando no entanto os comentários pelo e-mail.

    O meu sincero obrigado a todos.

  • 12. perplexo   

    Os teus contos são esparsos mas bons!

  • 13. Nina   

    Haaaaaaaaaaa!!!

    A senhora De La Cruz não é nem um pouco boba… Huahuahauhau!!

    Meu querido!! Confesso que fiquei um pouco tonta no início do conto com o excesso de nomes próprios, hehe, mas o conto é ótimo, adorei, com final… Bem, que caiu como uma luva!

    =D

    Beijos, até o próximo! =)~

  • 14. Luís Teixeira   

    Como é possivel escrever-se tanto e tão bem?

  • 15. jpn   

    vinha só avisar que levei para o meu post aeroterapia uma foto aqui publicada mas de repente apercebo-me do gigantesco trabalho de escrita que há aqui. fabuloso. faço minhas as palavras do luis teixeira. quando voltares a fazer estes desafios de criação, se quiseres emaila-me ou avisa-me no respirar. acho deliciosos estes exercícios de escrita. ;)

  • 16. Nilza   

    Olá!!
    Estive ausente por uns dias e perdi o endereço de meu blog. Por essa razão estou lhe enviando o novo “end”. Voltarei para conversar sobre seus textos. Desculpe o transtorno.
    Beijos

    http://avessando.blogspot.com/

  • 17. Barbara   

    Por favor comente o blogue http://doencasrarasprojecto.blogspot.com é muito importante que dê o seu contributo comentando!

    Obrigado!

  • 18. Mab   

    Uma escrita que me prendeu.
    Voltarei se me permites!

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