Regressado para o devir

Dezembro 3rd, 2006

A criança olhou na sua direcção e desviou desinteressada a atenção. Não tinha ainda estrutura para desenvolver o subjectivo do enigma que era um estranho aventurar-se a entrar no seu bairro. Tivesse, e depressa correria para casa.
Fernando viu-o e percebeu que o desinteresse resultava de ainda não ter adquirido o traço fino do aguilhão que vicia a memória, ganhá-lo-ia rapidamente, sabia-o bem, tão bem, como conhecia aquele bairro. A memória não actua separada, é alimentada por um campo que por sua vez alimenta a sua base de informação, e sabia que perderia também a noção de segurança; ganhando conhecimento sobre a precariedade da existência.

Fernando, conhecido também por professor, visitava o bairro pela primeira vez desde aquele dia em que a policia o levara de Mendishar – assim se chamava o bairro e não existiam fragmentos de memória que explicassem o motivo –, tinham passado dez anos… ele sabia que os irmãos ainda ali viviam e notava com estranheza como o bairro estava diferente. Sabia que a vida acontece em fases sobrepostas e tempos diferentes, mas não gostou do que viu.
Continuou até à sua antiga casa não vendo vivalma no percurso. Era cedo ainda e era domingo, motivo bastante para ainda estarem todos entre paredes. Isso não mudara, como haveria sempre coisas que não mudariam, enquanto não se conseguisse desprovar que 2+2 não eram 4.

Bateu na porta com os nós dos dedos. Alguém lá de dentro perguntou quem era: - Sou eu… o Fernando. - Não o conheço, que quer? – Sou o Fernando, o professor!… Depois de uma pausa que deu para cogitar na sombra que percorre o movimento da resposta, ouviu o trinco soltar-se. À sua frente surgiu um desconhecido que lhe disse sem expressão: - Entre que faz frio na rua.
Fernando não reconheceu aquela que já tinha sido a sua casa e, a sua memória enrolada numa espécie de neblina não encontrava vestígios do sitio onde vivera; pensava que só a morte na sua função redentora lhe faria uma daquelas.
Por fim o desconhecido falou: - Então o senhor professor ao que vem? – Ao que venho? – interrogou João, pois venho saber dos meus irmãos que aqui deviam morar. – Bem senhor professor… deve haver algum engano; moro aqui desde sempre e, nem o conheço a si, nem aos seus irmãos, mas sente-se que lhe arranjo alguma coisa que beber.

Fernando a esta altura não sabia o que pensar… não tinha previsto tal desencontro e tudo isto lhe parecia uma distorção de absolutos, impossíveis para a sua faixa de inteligência. Olhou de novo o desconhecido, reparando agora que o seu movimento rareava e a sua cadência parecia tornar-se estática. Sentiu uma impressão desconhecida. Tudo aquilo se assemelhava a um sonho, um sonho corrompido e que lhe fugia pela ponta dos dedos.

Blocos de memória dissolviam-se agora na epiderme, cerrou os punhos e saiu sem nada dizer. Os animais não falam porque devem ter concluído ser inútil e ele, agora, estava dominado por uma raiva animalesca, aquela raiva que tão bem conhecia apoderava-se dele, procurou a taberna que ficava na esquina, e, forçando a porta, entrou de rompante. Caminhou até ao balcão e com a mão espalmada bateu neste com estrondo repetidas vezes. O taberneiro apareceu por detrás de uma cortina sebenta e perguntou com voz troante: – Mas que se passa… não sabe que hoje é domingo? Só então, percebeu que o autor de todo aquele reboliço era o professor. Sabia que, com ele, a divisão entre o gesto e a morte desaparecia subitamente, e assim, fazendo desaparecer a vontade e qualquer subjectividade, disse-lhe de rompante: – Ouça professor; os seus irmãos desapareceram com medo de si, o Carlos, deu conta do dinheiro no jogo e os outros só perceberam isso tarde demais, ele andou a jogar durante muito tempo sem que eles soubessem e na semana passada receando que aparecesse foram-se, não dizendo a ninguém para onde. É só isto que sei.

Fernando perguntava-se se estaria louco, sentindo-se no meio de uma tempestade de poalhas meteóricas. Aquele ali era o Alberto, o raio do Alberto, que palrava a mesma mentira que o tinha levado pela segunda vez à prisão. Nada do que ele dizia era verdade. Soube depois, ser aquela uma história inventada para manter à distância do dinheiro alguns rufias do bairro enquanto ele cumpria a sua pena, e os irmãos tinham desaparecido porque o Carlos, o mais novo, tinha ido casar na Catalunha, terra natal do nosso pai.
No mesmo instante que esta recordação o atingiu, recuou dois passos de receio… nunca soubera lidar com aspectos duplos, nem era homem de dissimular os acontecimentos, sabendo que, cada homem detém pelo menos uma interpretação dos factos e que a memória de alguns, necessita de uma fenomenologia para poder determinar e inscrever o devir.

Finalmente, por detrás dos biombos da consciência, uma memória que parecia alienígena forçava um incalculável número de interpretações e, compreendeu; O miúdo não tivera receio porque não o vira, o desconhecido, esse, seria o antigo dono da casa que ouvira em garoto dizer que tinha morto a mulher, e o Alberto, esse sabia ele muito bem que estava morto, pois tinha morrido às suas mãos depois das mentiras que dissera.

Compreendia então, à medida que o quadrado da realidade se fechava forçado pelas hélices da memória, que só os mortos o viam. Compreendia, que fora transportado de um núcleo para outro atravessando uma curvatura do espaço tempo, e este, parecia ser o começo de uma eternidade de expiação inevitável.

A conceptualização do espaço tempo do universo, exige que a morte seja uma função redentora, de despojamento de uma personalidade específica, induzindo a adoptar de forma vital o comportamento do devir.

Espreitador.

Categoria: Contos

13 Comentários Comente você tambem.

  • 1. Bill   

    E lá fomos nós levados pelas ruas do bairro Mendishar, passando por cenas e diálogos muito interessantes.
    Parece que o desafio despertou o amigo =]
    Belo e cheio de detalhes… Maravilhoso.

    [s]s

  • 2. PiresF   

    Obrigado amigo Bill,

    Este conto não devia existir. É daquelas coisas que não conseguimos explicar lá muito bem, já que, comecei por querer escrever o Conto de Natal para o desafio e acontece que o fiz, tendo unicamente a ideia inicial e fui andando ao sabor das palavras.
    Quando cheguei ao fim, o conto, já não era um conto de Natal. Fiz umas pequenas alterações e decidi publicar assim.

    Pelo menos tu gostaste. É o suficiente.

    Grande abraço.

  • 3. Maite   

    Caro PiresF

    Um conto cheio de imagens rebuscadas. Uma inscrição filosófica da realidade inefável do devir.
    A inabilidade para gerir o espaço/tempo entre o cá e o lá (entre a realidade que se deseja e aquela que existe de facto).
    Gostei desta imagem em forma de conto.

    Resto de bom domingo para si

  • 4. legivel   

    … acontece quando permitimos que as palavras se libertem.
    De Belém ao Bairro de Mendishar pode ser que a distância não seja assim tão grande. Os olhos da criança, são os testemunhos credíveis deste belo conto que se pretendia, à partida, de Natal. E porque não será?… se de Natal deveriam ser todos os contos?

    abraço.

  • 5. PiresF   

    Amiga Maite,

    Leu muitíssimo bem. Foi até mais longe do que eu me atreveria a ir e sacando tudo o que há a sacar deste conto.

    Obrigado pela excelente leitura.

    Grande abraço.

    ………………………….

    Amigo Legível,

    Respondes na sequência da minha resposta ao comentário do Bill, e sei, que sabes, que eu sei, que tu sabes e eu também ser assim.
    Quantas vezes não terá acontecido, seres também arrastados pelas palavras em direcção que não era a pensada inicialmente…
    Por vezes, basta uma frase, para inclinar um texto. Acontece-me muito e costumo apagar e recomeçar.
    Desta, não apaguei.

    Bem… o resto do comentário, vindo de quem vem… resta-me agradecer.

    Grande abraço.

  • 6. KLATUU o embuçado   

    Gostei
    É já o «aquecimento» para o conto natalício? :)

    Abraço.

  • 7. Teresa Durães   

    (porque apaga quando sai inclinada? li os comentários anteriores e ficou a curiosidade.)

    Gostei do que li e não esperava o fim. Se ia ser um conto de Natal, perdeu-se no primeiro parágrafo? :)

    Boa tarde

  • 8. beatriz   

    sublime… para quando há entendimentos e pedaços de história que nos faltam, basta a sensação, a certeza de ter sentido

  • 9. tb   

    Maravilhoso. Quando comecei a ler até pensei que me tinha baralhado na data e que já tinha deixado passar o dia.
    Ao ver esta tua obra prima fico para aqui pensando como sou fraquinha ainda no caminho a percorrer…deixaste soltar as plavras e elas tomaram conta de ti…
    Grande responsabilidade ter aceiteo teu desafio, meu amigo!
    Grande abraço

  • 10. PiresF   

    Klatuu!

    Não era para ser, mas a mecânica foi mais forte que a intenção.

    Abraço.
    ……………………….

    Teresa Durães!

    Pois é… de facto não foi bem aí, embora pareça porque retirei uma parte do texto inicial.

    Porque apago:

    Apago por não saber onde vou parar, o que, e com frequência; é a nenhures.
    Sabe… gosto de definir e cumprir o objectivo, tendo como principio a recta como o caminho mais rápido entre dois pontos. Quando escrevinho e me inclino para uma qualquer vereda que surge no caminho, sinto logo que o melhor é não continuar.

    Neste caso por exemplo; além de ter sido obrigado a alterar coisas no inicio do texto, andei às voltas com o fim e não gostei da forma como acabei. Acho que ficou um tudo nada a atirar para o confuso e, mesmo assim, fiz uma série de alterações para que ficasse mais perceptível.

    Abraço.
    ………………………………

    Beatriz!

    Sublime? Cof, cof, cof… Vindo de ti, até me engasgo. Sublime é o que tu escreves minha amiga.
    …mas obrigada e entendi bem as tuas palavras seguintes.

    Abraço.
    ………………………………

    TB!

    Caramba… mas achas que está assim tão bom? Vá lá… a verdade sem a amizade à mistura.
    É que eu, nem acho que esteja grande coisa. Pensei até em apagá-lo, só não o fiz, porque lhe vi algumas virtudes filosóficas, só isso.

    Mas a esta hora que te respondo, posso adiantar, que já tenho o rascunho do meu conto de Natal. Optei por uma linguagem sem rodriguinhos e o mais simples possível, como acho que devem ser escritos os contos de Natal.

    …vais ver que te sairás lindamente.

    Abraço.

  • 11. Outsider   

    Olá Pires. Finalmente consegui arranjar algum tempo para vir aqui ler o teu conto com a atenção que ele merece. Li com toda a calma e posso dizer que está fabuloso. A prosa cuidada e artística a que já nos habituaste em conjunto com uma excelente história. Gostei mesmo!!
    Vê lá se começas a escrever contos mais regularmente, pois já não debitavas nada desde Maio e a malta gosta de ler os teus contos. Para quando um livro?
    Se aceitares contos pedidos, este teu amigo pede-te que escrevas um policial e um de terror, pois adoro contos destes dois géneros.
    Fico ansiosamente à espera do conto de natal.
    Um grande Abraço.

  • 12. augusto   

    “induzindo a adoptar de forma vital o comportamento do devir. ”

    Lá terá as suas razões, o meu amigo, para escrever assim…

  • 13. Nina   

    Confesso que fiquei um tanto confusa, mas acho que a confusão foi a impressão que o próprio personagem passou, não?

    Adorei!

    :)

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