Equívocos!
Janeiro 1st, 2006

Junto ao balcão, ajudou Isabel a subir para um tripó forrado a couro negro e acomodou-se noutro a seu lado, com os olhos, procurou o empregado para pedir as bebidas, e deu de chapa com uns olhos negros que o fitavam. Reparou que era uma mulher belíssima que não soube precisar a idade, andaria entre os trinta e os quarenta. Influenciado pelo ambiente da decoração, o olhar penetrante da mulher lembrava-lhe as pitonisas que costumavam ler oráculos, ela sentava-se no topo direito do balcão, os cabelos tão negros como os olhos davam-lhe um ar misterioso e ao mesmo tempo belo, e ele, enquanto tentava captar a atenção do empregado, reparou que esta continuava a olhá-lo.
Sentiu-se um pouco incomodado, e o receio que Isabel percebesse surgiu, ele não conseguia desviar os olhos daquela mulher.
Isto tinha logo de lhe acontecer quando estava com a Isabel, já era azar. O olhar da mulher não se desviava e pareceu-lhe vê-la sorrir. Nessa altura, ficou definitivamente incomodado pela presença da Isabel, e a situação piorou quando a viu pedir uma caneta com que escreveu num cartão. Olhando na sua direcção, entregou-o ao empregado enquanto lhe segredava qualquer coisa. Era para si pensou, e em pânico tentou manter a postura, e esperar para ver como o empregado lho entregaria sem que Isabel percebesse. Reparou que o copo de Isabel estava praticamente vazio, despejou o seu num gole rápido com o objectivo de renovar as bebidas e proporcionar ao empregado a entrega disfarçada do cartão, assim fez, e seguindo os movimentos daquele, reparou que colocava o cartão, de forma habilidosa por baixo de um dos copos, viu-o aproximar-se e enganar-se, tinha posto o do cartão à frente da Isabel, olhou instintivamente para o topo do balcão, e viu que a pitonisa dos olhos negros lhe sorria, não devia ter reparado que o empregado tinha trocado os copos e que agora o cartão estava bem debaixo do copo da Isabel.
Por uns momentos sentiu-se perdido, até que, Isabel lhe disse: Querido, vou à casa de banho. Ficou aliviado, estava ali o momento oportuno para retirar o cartão e quem sabe combinar alguma coisa. Enquanto seguia com o olhar Isabel que se afastava, viu que aquela mulher belíssima de olhos negros se levantava, aproveitando a oportunidade para se acercar dele, mas, contrariado reparou que não o fez, em vez disso, sorriu-lhe, e seguiu na mesma direcção da Isabel.Aproveitando o momento, retirou o cartão de debaixo do copo e leu-o, acto contínuo, sentiu uma tontura, leu novamente sem acreditar no que lia, o cartão, em duas linhas dizia:
Quero-te agora. Casa de banho.
Categoria: Contos
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